A emoção de alinhar com os ídolos: Minha jornada no Campeonato Brasileiro de Trail por Paulo Moreira)
- 6 de abr.
- 4 min de leitura
Comecei a correr há um ano e oito meses. Com apenas um mês e meio de treinamento, percebi que meus números estavam crescendo muito rápido. Comecei a baixar o pace e a aumentar a quilometragem rapidamente; claro que sentia dor e um cansaço excessivo, mas não importava, eu queria ter resultado.
Depois de uns dois ou três meses, procurei um treinador e disse que queria performance. Desde então, venho treinando focado nisso. Às vezes até me assusto com meus números, porque em tão pouco tempo já pegar um 13º lugar no Campeonato Brasileiro de Trail no Classic (17k) não é brincadeira. O nível é altíssimo e o pessoal é muito forte, então fico imaginando: se eu continuar nessa crescente e nessa disciplina, o que vai acontecer daqui a dois ou três anos? Estou bem contente com o resultado, mesmo sendo um "Top 15". É distante dos primeiros, mas a nível nacional não é nada mal.

A Inspiração no Itatiaia
No ano passado, quando teve o Brasileiro lá no Itatiaia, eu estava participando da prova Evolution, mas na modalidade Open, fora do campeonato oficial. Fiquei encantado ao ver os atletas vestindo as camisetas dos clubes e todos aqueles corredores de elite que eu já acompanhava pela internet participando da prova e da premiação. Ali acendeu a vontade de um dia estar lá.
Troquei de treinador no final do ano passado e ele me disse que eu teria possibilidade de participar, para tentar ficar próximo aos primeiros e criar experiência. Quando surgiu a The Hill Race, que seria o palco do Brasileiro de Trail, foi tudo muito rápido — divulgaram cerca de um mês e meio antes. Vi que era no Sul, em uma montanha que eu nunca tinha ido, e isso me deu ainda mais vontade de participar por ser um lugar novo. Me federei rapidamente e consegui a vaga. O que me fez escolher essa prova foi o lugar; eu queria conhecer as montanhas do Sul e ter essa experiência competitiva.

Preparação ‘raiz’
Eu tenho um treinador que passa o treino de corrida e de força, mas não tenho nutricionista, fisioterapeuta específico ou centros de treinamento para atletas. Treino em academia convencional, dedico-me bem ao treino de força lá e faço alguns exercícios em casa que ajudam na construção do corpo; é muita força de vontade mesmo.
Sobre a preparação para o Brasileiro, na verdade, eu estava treinando para a Indomit Pedra do Baú. Já vinha de uma pré-temporada desde novembro focada nos 21 km, e o convite para o Brasileiro casou com o alto da minha preparação. A distância era parecida, um pouco mais curta e com menos altimetria, então estava perfeito. Apenas fiz o polimento final nas semanas que antecederam a prova e fui para o campeonato.

O reconhecimento na Serra da Baitaca
A Serra da Baitaca, perto de Curitiba (PR), não é um lugar muito conhecido pelos corredores daqui, por ser longe da Mantiqueira e voltada para o lado Sul. Para ser sincero, fui meio sem saber o que esperar. Estudei o mapa da prova, a altimetria e como tudo funcionava. Meu treinador explicou o que sabia, mas fui meio no escuro. Cheguei na sexta-feira e a corrida era no domingo. No fim do dia, ainda fiz um reconhecimento no Anhangava, o que foi ótimo para saber como era a subida. Deu para fazer uma boa leitura da trilha que ligava até o topo e fui participar com o percurso já mais mapeado na mente.
Emoção e tensão na linha de largada
A expectativa antes da largada, para quem é novato no esporte e acompanha esses atletas há tempo, é enorme. Você vê eles ganhando provas, correndo no exterior, sendo patrocinados por marcas... e de repente você está alinhado junto com eles, batendo de frente na pista como adversário. É uma emoção inexplicável que eu ainda não tinha sentido. Existe uma cobrança interna de querer ir bem e não errar, mas é uma experiência única na vida, principalmente para um novato. Estava com os nervos à flor da pele, em um lugar que não conhecia direito, e a ideia era fazer uma prova boa independente do resultado, sem me machucar, quebrar ou cair.

Intensidade e estratégia da prova
Deu a largada e saiu todo mundo muito forte. Tinha um pedaço de asfalto e estrada de terra de um quilômetro onde todos aceleraram muito — o primeiro mil foi para 3’38”, para você ter noção da intensidade. Entramos na trilha fechada e o pessoal seguiu muito junto, porque o nível era parecido. Ficamos uns dois ou três quilômetros nessa trilha estreita, com muita curva e mato.
Quando saímos nas estradas de terra do parque, o pessoal começou a se distanciar. Os bem fortes mesmo foram para a frente e ali eu sofri um pouco até o corpo aquecer. Quando chegamos na trilha do Anhangava, já me senti bem e consegui apertar o passo. Fui alcançando e passei três atletas antes de terminar a subida. Comecei a descer e um deles me recuperou a posição; ele descia muito bem e eu já estava com a perna cansada da subida, então não consegui descer tão forte. Mesmo assim, passei mais um atleta na descida e segui firme. Os últimos dois quilômetros foram puxados, naquela preocupação de não deixar ninguém passar. Eu sabia que não buscava mais ninguém à frente, então foquei em manter o ritmo e deu certo. Concluí sem quedas, sem cãibras e com a emoção de terminar uma prova tão importante a nível nacional.

Dicas de logística e organização
Para quem quer participar da The Hill Race, pode ir que a prova é muito bem marcada e sinalizada. Se ela ocorrer novamente na Serra da Baitaca, o pessoal pode ir preparado para visuais incríveis; a subida do Anhangava e as trilhas são muito bonitas. A organização do Juliano Saddock é excelente. É difícil ver uma prova no Brasil com uma marcação tão boa; o percurso estava limpo e roçado.
Os pontos de hidratação estavam ok. Apesar de ser curta, levei duas flasks de 500ml e não precisei parar, mas o suporte estava lá. Sobre a logística, é um pouco longe para quem não é do Sul, mas dá para ficar em Curitiba ou em Quatro Barras, que é pertinho e tem boas opções de Airbnb e hotéis, dependendo do conforto que a pessoa busca. É uma prova excelente e recomendo a todos.
Paulo Moreira
(corredor de trilha e empreendedor em pintura automotiva)
@_paulo.moreira Imagens: Arquivo pessoal.



