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Além dos limites sensoriais: minha jornada como ultra-autista nas trilhas (por Sayuri Miquitera)

  • 3 de mar.
  • 2 min de leitura

A inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nas corridas vem crescendo, trazendo benefícios físicos, mentais e sociais. A modalidade melhora a coordenação motora e o controle postural, além de auxiliar na redução de estereotipias e da ansiedade.


A corrida trail de longa distância é minha modalidade preferida, pois ambientes naturais apresentam menos estímulos sensoriais. Realizei diversas provas consideradas ultramaratonas, dentre elas a TUTAN (100 km) e a La Misión Brasil (110 km), ambas em 2025.



Combatendo o preconceito


Sempre acreditei que falar abertamente sobre o tema combate o preconceito e dá visibilidade às necessidades das pessoas com autismo, que passam a ter momentos de lazer, união e superação conjunta.


Gosto muito de orientar autistas no sentido de se conhecerem e, assim, viverem o esporte de forma segura. Por exemplo: possuo diversas comorbidades e utilizo cinco medicamentos. Sou acompanhada de perto pelo meu neurologista Matheus Trilico; pelo cardiologista Paulo Loffy; pelos meus treinadores Sidney Togumi e Ramiro Kramer; e pelo nutricionista Renato Belegante.


Esse acompanhamento é importantíssimo para saber lidar com a disautonomia (taquicardia e pressão instável) e o aumento da desordem sensorial, como: não identificar frio e calor, oscilação de humor refratária à medicação, dores de cabeça e no corpo, aumento da seletividade alimentar, diminuição do repertório verbal, aumento da rigidez comportamental e irritabilidade extrema.



Rede de apoio no trail


Estando tudo seguro, resta curtir a quilometragem escolhida colecionando boas histórias. Na TUTAN 100 km, por exemplo, corri sob o calor do meio-dia sem conseguir identificá-lo. O Andrey Kuhn, na época um desconhecido, veio me alertar: "Olha, você está com um blusão fleece, um corta-vento e luvas. Não está com calor?". Isso me fez olhar o relógio e refletir; até hoje o agradeço por ter me livrado de uma desidratação.


Já na La Misión Brasil 110 km, o Thiago Vinicius ajudou demais cronometrando os horários de suplementação e hidratação. Imaginem ele gritando, com as montanhas ecoando: "Vamos comer?" (Sim, autistas podem se esquecer de comer e beber água!). Ao mesmo tempo, a Carla Bianca Lopes ditava o pace. Na desordem gerada pela tensão, foi isso que manteve meu foco, trazendo calma e tranquilidade. E tudo isso é socializar!


Agradeço demais a cada amigo que a corrida me trouxe. Isso é qualidade de vida para além dos benefícios físicos e mentais!



Sayuri Miquitera (Corredora autista e TDAH e presidente da Associação Pernas Solidárias Curitiba)

@umaultraautista



Imagens: Arquivo pessoal.

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