Céu estrelado, quartzito e 40 anos de união: a KTR Serra da Canastra foi especial (por Rosa Noronha)
- 8 de jun.
- 4 min de leitura
Normalmente escolho fazer provas que me levem a lugares diferentes, onde a natureza seja a protagonista e eu um mero ponto no meio da paisagem.
Quando vi um post sobre a KTR Serra da Canastra com uma pessoa atravessando as águas e uma enorme cachoeira ao fundo, pensei: Uau, esse será meu presente de aniversário! A prova é uma vivência incrível para apenas 200 corredores. Todos alojados em barracas de camping instaladas nos jardins de uma pousada linda, cercada por uma muralha de montanhas de pedra e de muito verde no horizonte. Até dos banheiros se tem uma vista digna de filme desse horizonte.
Com o número limitado de atletas e pela localização da pousada, a KTR cuida para que todas as refeições estejam incluídas na inscrição. A comida é muito boa e bem servida, uma típica recepção mineira. Tudo muito organizado para você ficar 4 dias imerso no universo do trail da forma mais incrível!

Dia 1: O começo sob o céu estrelado
Na chegada você retira o kit que é completo: bolsa de viagem, nécessaire, boné, gorro, moletom, 2 camisetas (depois ainda tem a finisher) e o número de peito. À noite, depois do jantar, hora do briefing técnico sobre o dia 1 da prova, conduzido pelo conhecido Major Goes. Dormimos sob um céu estrelado e com o som da cachoeira cujas águas correm ao lado do acampamento, já nos dando um gostinho do que estava por vir. Como estávamos inscritos para os 50k (que no final somaram 55k), no primeiro dia largamos às 9h para o primeiro circuito de 10k, todo dentro da propriedade da pousada, mas com subidas e descidas num terreno de média dificuldade. Os inscritos para os 100k fazem um percurso de 15k nesse dia.
No regresso, hora de ir para os cuidados de uma equipe de profissionais que faziam liberação, depois aplicavam as pistolas massageadoras e ao final a bota de compressão. Um serviço pago à parte, mas que recomendo. Vale o investimento para a recuperação, especialmente no segundo e terceiro dias pelo acúmulo do esforço. Depois desse recovery, fomos para a piscina natural formada pela cachoeira bem ao lado do camping.

Dia 2: O desafio do quartzito e a imensidão da serra
O segundo dia de prova foi mais longo e desafiador pela distância de 28k (os atletas dos 100k correriam 45k nesse dia) e pela altimetria. Um percurso classificado como difícil, em um circuito caracterizado pelas pedras de quartzito que formam a Serra da Canastra. Esse é o dia em que você sobe até o topo da serra e, uma vez lá, vai correr em uma planície larga que lembra as savanas africanas por aproximadamente 8k.
É uma espécie de crista da Serra Fina, só que muito larga e com vistas surreais lá do alto. Nas descidas, muito cuidado, porque há muitas pedras soltas em um terreno que se alterna em uma areia branca e fina que parece de praia, com uma areia escura que parece vulcânica. Chegar nessa crista da Serra da Canastra e ver todo o vale, sentir aquela força das muralhas e depois ver uma pradaria enorme e todo um céu que te cobre como um manto... ninguém volta o mesmo depois dessa experiência. Cruzada a linha de chegada desse dia, mais uma vez hora do recovery, do mergulho nas piscinas da cachoeira do acampamento e do jantar, para logo mais ouvirmos o briefing técnico para o dia seguinte.

Dia 3: O batismo na cachoeira e o espírito trail
No terceiro e último dia de prova, o nosso percurso foi de 15k passando por pequenos riachos até chegarmos à famosa cachoeira da Maria Augusta. Essa cachoeira está em todas as fotos de divulgação da prova e é realmente linda. Muitos atletas (foi o nosso caso) ficam lá por 20, 30 minutos, mergulhando, tirando fotos, aproveitando ao máximo esse batismo que é de todos os que estão vivendo a experiência da prova e da Canastra. Se até agora estávamos cheios de emoções, nesse dia somos literalmente inundados por elas.
O sentimento é de gratidão, alegria e de certeza sobre o quão pequenos somos diante da natureza! Esquecemos as dores, as bolhas, a lombar, os joelhos... as águas nos dão, ao mesmo tempo, força e anestesia. Dessa cachoeira em diante, duas atletas correram comigo e com o Celso até a linha de chegada. Resolvemos então cruzar o pórtico os 4 de mãos dadas, lado a lado, num sentimento de que éramos todos vencedores. Aquelas duas atletas simbolizavam, para nós, todos os que conhecemos e que cultivam o espírito do trail.

Uma celebração tripla e inesquecível
A Ultra KTR Serra da Canastra foi especial também por uma razão muito particular. Eu e o Celso estávamos comemorando no sábado (último dia da prova) 40 anos de casados. Antes de largarmos, o Celso combinou com o locutor e, faltando 3 minutos para o início da corrida, fomos chamados por ele, que anunciou nossa data. Foi emocionante o povo todo alinhado para a largada nos parabenizando.
Só que depois, na hora da premiação à noite, o pessoal da organização da KTR nos homenageou novamente, dessa vez sem combinar com o Celso. Fomos chamados ao palco no final da premiação e eles apareceram com um bolo para celebrar os 40 anos e o fato de termos nos tornado ultramaratonistas. O “detalhe”, nada detalhe, é que dia 29 de maio fiz 65 anos, então a comemoração foi tripla e todo mundo cantou parabéns.

O verdadeiro significado do trail run O que a Ultra KTR Canastra nos proporcionou não foi apenas uma prova, mas um fortalecimento do significado do que é o trail run. É sobre juntar pessoas que olham a vida de forma diferente, que querem um mundo diferente e que sabem o seu papel na natureza pela importância que ela tem. Eu agradeço à organização da KTR, mas também a todos do staff da cozinha, da limpeza, da manutenção do camping, das equipes de socorro, da pousada e, óbvio, da Kailash.
Rosa Noronha
Educadora física, acupunturista e microfisioterapeuta

Imagens: Arquivo pessoal.



