Cocodona 250: Alucinações, loops temporais e 400 km no deserto (por Rafael Porto)
- 1 de jun.
- 12 min de leitura
Há três anos eu comecei com essa onda de fazer as provas XXL, os desafios super longos, acima das 100 milhas. Minha primeira experiência nesse universo foi o Tor des Géants em 2024. Eu queria sentir o desafio de ir além e o Tor tem logo 330 km. Foi ali que me apaixonei por esse estilo de prova. Nessas distâncias, além do preparo físico, o atleta precisa estar muito mais pronto mentalmente e carregar uma bagagem sólida de experiência. A modalidade exige muito da cabeça: é preciso saber lidar com situações adversas, controlar danos nos pés, gerenciar a privação de sono, traçar estratégias de alimentação, navegar e dominar o sistema de camadas de roupas para o clima. Isso me encantou demais.
A partir dali, decidi que só queria provas de 200 milhas para cima. No ano seguinte, fiz a PTL (Petite Trotte à Léon), que trouxe o desafio da autossuficiência, da navegação pura e do trabalho em equipe. Mas a Cocodona já estava no meu radar. Como faço poucas provas por ano — uma ou duas, no máximo —, preciso estar genuinamente apaixonado pelo desafio. Eu vinha assistindo aos vídeos da Cocodona no YouTube, ouvindo podcasts e a questão do deserto do Arizona me encantava: a amplitude térmica, o visual do Velho Oeste, a cultura local. Uma isca já tinha sido lançada.

Quando terminei a PTL, decidi mudar completamente o estilo e focar no Arizona. Inicialmente, achei que a prova só fosse viável com equipe de suporte e pacers. Mandei um e-mail para a organização e eles me responderam que cerca de 15% dos atletas corriam totalmente solo, sem suporte. Aquilo me laçou de vez. No dia em que as inscrições abriram, eu e meu treinador, o Kiko Ottoni, tentamos nos inscrever. As vagas esgotaram em apenas três minutos. O cartão dele passou de primeira; o meu deu erro e caí na lista de espera. Bateu uma frustração gigante, mas, por ser um dos primeiros da fila, me chamaram dois meses depois. Fiquei feliz da vida: eu ia realizar o sonho de me desafiar em algo completamente novo.
O soldado ferido: uma preparação fora do padrão
A preparação seguiu um rumo bem diferente do meu habitual. Eu costumo brincar que sou igual a um soldado: estou sempre pronto para a batalha. Se me chamarem, vou para qualquer prova porque nunca paro de treinar. Correr é o meu hobby, o meu momento de relaxar, então mesmo após uma prova-alvo, em duas semanas já estou de volta às trilhas.
Desta vez, porém, tive a infelicidade de sofrer algumas lesões recentes. Logo após a PTL, voltei a treinar forte e tive um estiramento na panturrilha. Para compensar a dor, acabei sobrecarregando outras articulações e ganhei uma dor no joelho. Essas lesões me tiraram do ritmo. Fiquei quase três meses sem correr de verdade, dando apenas pequenos trotes bem leves. Meu treinamento foi bastante prejudicado e demorei a conseguir rodar normal. Nos primeiros meses do ano, fiz uma fisioterapia bem intensiva, combinada com fortalecimento e treinos no rolo de ciclismo ergométrico umas três vezes por semana.
O volume foi sendo retomado muito devagar. Em nenhum momento tive cargas intensas. Minhas semanas nunca passaram de 100 quilômetros, sendo que o meu normal para outras ultras era rodar 130, 150 quilômetros com frequência. Fui para o Arizona com um volume bem menor do que gostaria, mas, curiosamente, isso se transformou em um ponto positivo. Normalmente, chegamos à linha de largada com a musculatura estressada e a mente cansada de tanto correr. Comigo foi o oposto. Cheguei com o corpo 100% regenerado, sem nenhuma dor muscular ou articular. E o melhor: não estava enjoado de correr. Eu estava faminto pela trilha. Apesar de estar um pouquinho acima do meu peso ideal de prova, o meu astral estava altíssimo, e isso fez toda a diferença.

Mad Max no Arizona
A largada da Cocodona acontece em Black Canyon City, na mesma região da famosa Black Canyon Ultra. A entrega de kits é feita em uma área aberta, isolada no meio do deserto. Eu estava hospedado em Phoenix e fui de carro até lá. O cenário parecia saído direto de um filme do Mad Max: o meio do nada, aquele tanto de carros, tendas, poeira subindo, música e cores. Uma energia fantástica.
A burocracia americana é incrivelmente simples. Não me pediram documento e nem conferiram os equipamentos obrigatórios. Só me perguntaram: "Você tem certeza de que tem todos os equipamentos necessários?". Você responde que sim e pronto. Nos Estados Unidos vigora a cultura da responsabilidade individual; eles não exigem comprovação de currículo ou checagem minuciosa, tudo fica por conta do corredor. Se você se julga apto, a responsabilidade caso algo dê errado é inteiramente sua. Para uma prova desse porte, acho até arriscado, mas lá o sistema funciona de forma muito leve.
Depois de pegar o kit, passamos por uma tenda para tirar a foto do "antes" (que depois seria comparada com a foto do "depois"). O ambiente da arena era super descontraído. O mais legal é que atletas de elite que estamos acostumados a acompanhar pelo Instagram ou YouTube estavam ali caminhando, conversando e tirando fotos com todo mundo, sem nenhuma tietagem ou barreira. Você se sente um deles.

Dos cactos gigantes ao casaco de plumas
A largada aconteceu às 5 horas da manhã, ainda sob a escuridão do deserto. Sem grandes discursos ou firulas musicais. Deu o horário, a multidão de atletas se posicionou e foi dada a largada no meio de um corredor gigante de staffs e torcedores. A poeira subia no escuro enquanto corríamos ao som de tambores tocados por nativos americanos. O Arizona tem uma comunidade indígena muito forte e ver os rituais deles abençoando os corredores foi uma experiência cultural belíssima.
A Cocodona é fascinante porque o ambiente muda drasticamente ao longo dos 400 quilômetros. O terreno, a vegetação e a altitude variam tanto que a mente não tem tempo de enjoar. As primeiras 37 milhas são consideradas as mais difíceis, técnicas e quentes de todo o percurso. É um deserto clássico, repleto de pedras soltas, subidas íngremes e aqueles cactos gigantescos para todos os lados. Demos sorte porque o céu estava nublado nesse início. O calor era forte, mas não desesperador, e soprava uma brisa fresca.
Por segurança, esse primeiro trecho exige que você carregue obrigatoriamente 4 litros de água, pois há um segmento de quase 40 quilômetros completamente seco. Saí com 4 litros, reabasteci na milha 7 e só fui ver água novamente no quilômetro 60. Costumam dizer que se você passar bem por essa primeira metade, faz o restante da prova bem. Para mim, foi uma seção até agradável, pois gosto de terrenos técnicos. Tivemos muita altimetria nos primeiros 80 km, acumulando quase 5.000 metros de ganho positivo.

Ao coroar a primeira grande montanha e iniciar a descida, chegamos ao Posto de Controle (PC) onde era permitido deixar o camelback pesado e adotar a estratégia de hidratação livre. Em contrapartida, passamos a carregar o kit de frio obrigatório: calça, corta-vento, segunda pele e um casaco de pluma de ganso. Eu confesso que duvidava se seria realmente necessário um casaco de plumas no Arizona. Mas quando a noite cai no deserto, o frio é brutal. Não chegou a negativar, mas o vento constante tornava a sensação térmica muito mais agressiva do que as nevascas que enfrentei no Tor des Géants e na PTL. Foi a primeira vez na vida que precisei correr vestindo pluma de ganso.
Cheguei aos primeiros 100 quilômetros com 18 horas de prova e 5.000 metros de desnível. Estava me sentindo bem, mas adoto a estratégia de tentar descansar um pouco todas as noites. Encontrei um PC estruturado com um abrigo aquecido por volta do quilômetro 100, dormi 1h20 e segui viagem. Um detalhe crucial da Cocodona é a distância entre as bases: você chega a ficar mais de 30 quilômetros sem nenhum suporte, o que exige comer o máximo possível no PC e carregar tudo o que puder para o trecho.

Garganta seca e as rochas vermelhas de Sedona
No segundo dia, a paisagem se transformou em um "sertãozão" arenoso, sem os cactos gigantes. Enfrentamos a única travessia de água de todo o percurso; de resto, o clima era de uma secura extrema. Entre um PC e outro, cometi um erro e minha água acabou. Fiquei racionando os últimos dois goles da garrafinha por um longo tempo, enfrentando uma sede terrível sob um calor absurdo. O termômetro não marcava muito acima dos 30 graus, mas a altitude elevada e a baixa umidade faziam a sensação térmica parecer superior a 44 graus. A boca secava a ponto de rasgar e sangrar; o nariz sofria tanto que vi atletas usando absorventes internos (OB) nas narinas para conter o sangramento. Esse segundo dia foi, para mim, o mais desgastante de toda a prova.
Na segunda noite, cheguei ao topo da Mingus Mountain, a segunda maior montanha de todo o trajeto, já tendo ultrapassado as 100 milhas. O PC lá em cima era espetacular: tinha lasanha, pizza, refrigerante, banho quente e quartos com beliches, aquecedores e cobertores. Tomei um banho revigorante, dormi 2h30, comi mais um pouco e saí para correr a noite inteira até o amanhecer do terceiro dia.

O terceiro dia abriu as portas para um cenário completamente novo: o deserto de rochas avermelhadas, no estilo do Grand Canyon. Era a região de Sedona, disparada a trilha mais bonita da prova. Infelizmente, cruzei a maior parte dela no escuro. Cheguei à base de Sedona por volta das 17h. O local parecia um hotel: tinha piscina, área de descanso, chuveiros e até escovas de dente descartáveis com pasta. Descansei bastante, dormi 3 horas e saí por volta das 20h, tentando render o máximo no frescor da noite para evitar o sol do dia seguinte.
A noite em Sedona exigiu uma "escalaminhada" severa em rochas. Tive que guardar os bastões e usar as mãos para progredir, margeando abismos no escuro, guiando-me apenas por pequenas luzes reflexivas fixadas nas pedras. Foi uma experiência incrível, embora eu tenha perdido o visual diurno daquelas montanhas vermelhas. Vale ressaltar que o percurso é bem marcado, mas os pontos de sinalização são muito distantes uns dos outros — às vezes você roda 3 quilômetros sem ver uma fita. O GPS no relógio é uma ferramenta de sobrevivência imprescindível.

O céu mais estrelado da minha vida
No quarto dia, entramos em uma zona alpina, repleta de florestas de pinheiros na região de Flagstaff — a famosa terra do ultramaratonista Jim Walmsley. É uma área alta, onde se corre o tempo todo acima dos 2.000 metros de altitude, culminando na Elden Mountain, que passa dos 3.000 metros.
Cheguei à base da última montanha ainda de dia. Dei uma descansada rápida e decidi apertar o passo direto. Imaginei que conseguiria liquidar as últimas 40 milhas (cerca de 65 km) durante a noite, evitando amanhecer na trilha. Mas o plano falhou. O caminho era longo, técnico, o cansaço acumulado pesou e a altitude cobrou o seu preço. Como passei a madrugada em claro, o sono veio avassalador. Comecei a caminhar dormindo.
Foi quando me rendi aos dirt naps — aqueles cochilos rápidos no chão da trilha. Eu sempre evitei fazer isso em provas, mas a necessidade falou mais alto. Programava o alarme do relógio para 15 ou 20 minutos, deitava no chão usando a mochila como travesseiro e apagava a lanterna. Era algo mágico. Pela aridez e altitude da região, no instante em que eu desligava a luz e olhava para cima, me deparava com o céu mais incrivelmente estrelado que já vi na vida. Eu fechava os olhos e mergulhava em um sono profundo instantâneo. Fiz vários desses power naps ao longo daquela madrugada.

Abraço de Flagstaff
Amanheci subindo a Elden Mountain. Coroei o topo pela manhã e encarei uma descida brutalmente técnica e desgastante para quem já tinha 400 quilômetros acumulados nas pernas. Quando finalmente cheguei à base, achando que o pior tinha passado, descobri que o percurso ainda contornava toda a montanha por trilhas travadas antes de acessar o asfalto do parque e as ruas de Flagstaff.
A recepção da cidade foi emocionante. Toda a comunidade abraça o evento. As pessoas nas ruas davam parabéns, os carros buzinaram em apoio e os moradores perguntavam se era a minha primeira prova de 200 milhas. Quando eu dizia que não, eles vibravam.
A atmosfera das ultras americanas é completamente diferente da Europa. O europeu é mais rígido, focado em performance; corre de cara fechada, fazendo força. O americano do interior, da montanha e do deserto, é mais leve, tem uma vibe quase hippie. Fiz amigos o tempo todo na trilha, pessoas com quem dividi horas de corrida sem sequer saber o nome, compartilhando histórias de vida íntimas. Em um momento, corri com um rapaz e a mãe dele, e eles me perguntaram pelo que eu era mais grato na minha vida. São conversas profundas, que afloram no cansaço e te emocionam. Nunca fiz tanta amizade em uma prova como fiz na Cocodona.
Como eu estava correndo sem nenhuma equipe de apoio, os voluntários dos PCs me adotaram como um filho. Eu sentava e eles corriam para me ajudar: tiravam meus tênis, preparavam sanduíches personalizados e perguntavam o que eu precisava. A imagem que fica da Cocodona é a imensidão do deserto, o céu azul infinito e o calor humano de quem faz o evento acontecer. Toda a badalação em torno dessa prova se justifica quando você está lá dentro. Ela é genuinamente divertida.

Mantra da milha atual
Analisando a parte técnica, a prova é um monstro de extremos: calor infernal de dia, frio de congelar à noite e poeira o tempo todo. Todos os atletas desenvolvem a famosa "tosse do deserto" devido ao pó em suspensão. Essa mesma poeira fina entra nas meias e, combinada com a secura, vira uma lixa para criar bolhas. O percurso é composto por 52% de single tracks (trilhas estreitas), 46% de estradas de terra batida e apenas 2% de asfalto. É impressionante como eles conseguem conectar tantas trilhas técnicas e longas.
Por tudo isso, a Cocodona é muito mais um desafio mental do que físico. Se você não estiver focado em desfrutar do lugar, sua mente quebra muito rápido. Para sobreviver, criei um mantra e o repeti na cabeça durante os quatro dias: em uma prova de 250 milhas, você não corre pensando na próxima milha, nem no que falta; você corre pensando exclusivamente na milha em que está agora.
Eu fixava meus olhos nas pedras sob meus pés, observava os tons de azul do céu, as formas das árvores, as rochas e os animais que cruzavam o caminho — calangos, lacraias e lagartos-chifrudos. Estar 100% imerso no quilômetro atual me protegeu. Claro que quebrei várias vezes — todo mundo quebra nessa distância —, mas em nenhum momento caí em um buraco psicológico do qual não conseguisse sair. Eu sabia que a fase ruim passaria logo. Corri feliz o tempo todo. Se você olhar minhas fotos e vídeos da prova, verá que eu estava pleno, sorrindo. Eu me diverti demais.

Peças que a mente prega
Quando passamos dias correndo com privação de sono, a mente acelera. Minha cabeça parece funcionar em uma velocidade muito maior nessas condições do que no automatismo do dia a dia. Na maior parte do tempo, eu estava ancorado no presente: ou monitorando alguma dor física para traçar estratégias de controle de danos, ou maravilhado com a beleza do lugar.
Contudo, houve momentos em que me desliguei completamente do corpo, sobretudo nas madrugadas. Eu já tive alucinações severas no passado. No Tor des Géants, cheguei a conversar por 15 minutos com uma figura fantasmagórica de lycra preta e olhos brilhantes que corria ao meu lado. Eu sabia que era uma peça da minha mente e não senti medo. Na Cocodona, felizmente, não tive visões desse tipo, mas na quarta noite experimentei uma distorção temporal bizarra: entrei em um loop eterno.

Parecia que eu corria quilômetros e o GPS simplesmente não avançava. Olhava para trás e o corredor que me perseguia estava exatamente à mesma distância, não importava o quanto eu acelerasse. Para tentar quebrar o feitiço, decidi colocar uma música — algo que nunca faço. Escolhi uma faixa que eu sabia ter 5 minutos de duração. Pelo meu ritmo, em 5 minutos eu deveria cobrir quase um quilômetro. Pois a música pareceu durar 40 minutos dentro da minha cabeça. Foi um lapso temporal claustrofóbico que só se resolveu depois que parei para um dirt nap.
Esses momentos de dissociação, nos quais o corpo corre no piloto automático enquanto a mente projeta um filme ultra realista de memórias, cheiros e sensações por quase 40 minutos, são fascinantes. Eu não corro para fugir de problemas ou para "me encontrar"; corro por puro prazer. Mas é inegável que o movimento contínuo traz respostas inconscientes para dilemas cotidianos. É o que chamamos de flow: o perfeito automatismo entre corpo e mente. Uma experiência profundamente intrigante e, na maioria das vezes, muito agradável.

Mergulho no eu interior
Minha dica essencial para quem almeja migrar para as distâncias XXL é: acumule bagagem. Cada erro, cada acerto, cada sofrimento em treinos ou provas menores é uma ferramenta que você guarda na sua caixinha de experiências.
Se um dia você desidratou no calor, aprendeu a importância da reposição de sal. Se passou sede, aprendeu a racionar água. Se teve problemas estomacais, descobriu o que não comer. Se um tênis te deu uma bolha, você aprendeu a proteger aquela zona da pele antes de largar. Eu sou um estudioso do esporte; leio artigos sobre privação de sono, nutrição e lesões. Tenho um livro que considero a bíblia do tratamento de bolhas em ultramaratonas e já o li de cabo a rabo. Quando tive o pé macerado pela umidade na PTL, fui estudar como evitar que se repetisse. Você precisa construir a sua caixa de ferramentas, porque em uma ultra de 400 km, os problemas vão aparecer. Uma ultramaratona é, essencialmente, a gestão contínua de problemas. Quando um termina, o outro começa — e às vezes eles vêm em dupla. O segredo é gerenciá-los com bom humor. Afinal, você pagou caro para estar ali.
Por fim, entenda que essas provas exigem que o seu corpo esteja íntegro e a sua cabeça queira muito estar lá. É por isso que só escolho desafios pelos quais estou apaixonado, lugares com os quais sonhei assistindo a vídeos. Não se inscreva em uma prova de 200 milhas apenas pela distância ou para inflar o ego no Instagram. Se você buscar apenas aprovação externa, vai abandonar o barco no primeiro sinal de sofrimento real.
A grande verdade das distâncias XXL é que, no fundo, ninguém está se importando tanto assim com o seu resultado, exceto as duas ou três pessoas que te amam de verdade — e essas se importam com você, não com a sua medalha. Uma postagem em rede social gera curtidas e comentários no primeiro dia, mas depois passa. Portanto, a inscrição tem que ser por você e para você. Nas madrugadas do deserto, você estará completamente sozinho consigo mesmo. É a expectativa que você depositou em si — e não a dos outros — que te arrancará do buraco, que te fará superar a dor e que transformará a jornada em uma das vivências mais bonitas da sua vida. As ultras super longas são um mergulho definitivo no seu eu interior. Você está ali porque quer, e só vai terminar se tiver duas coisas: a ferramenta certa na caixa e uma vontade inabalável na cabeça.
Rafael Porto
Médico ortopedista e ultramaratonista de trilha e montanha
@dr.rafa_porto
Fotos: Arquivo pessoal.



