Quando o exemplo vira trilha: a primeira prova de montanha da minha filha! (por Cícero Barreto)
- Eric Akita
- 19 de jan.
- 2 min de leitura
Ser recebido pela minha filha, Rebecca, no Araçari Trail Fest, no Morro do Voturuna, foi uma surpresa que ficará para sempre na minha memória. Eu não fazia ideia do que me esperava ali. A emoção foi ainda maior ao descobrir que, além da surpresa, ela estava vivendo sua primeira prova de montanha, estreando com um segundo lugar na categoria. Naquele abraço, ficou claro que aquela chegada carregava muito mais do que o fim de uma corrida — era o encontro de duas histórias que seguem caminhando juntas.
Com o passar das horas, uma reflexão se impôs de forma natural: o exemplo arrasta. A Rebecca cresceu me vendo cruzar linhas de chegada em diferentes partes do mundo, acompanhando de perto minha paixão pelo esporte, minha dedicação aos treinos e, principalmente, a resiliência necessária para seguir mesmo quando o caminho é duro. Mais do que medalhas ou resultados, sempre tentei transmitir valores como respeito ao processo, disciplina, coragem e amor pelo que se faz. E hoje, de forma muito bonita, percebo que essa via se tornou de mão dupla — enquanto ensino, também aprendo; enquanto sigo, também sou guiado por ela.

Minha relação com o esporte sempre foi intensa. Joguei voleibol por 12 anos e foi ali que aprendi o valor do coletivo, da persistência e da entrega. Naturalmente, esse universo fez parte da infância da Rebecca. Ela se apaixonou pelo voleibol, construiu sua própria história e, com o apoio da família, alcançou a conquista de ser contratada pelo Osasco Voleibol Clube, onde hoje joga nas categorias de base. Acompanhar esse caminho, agora com ela também me ensinando sobre foco, leveza e presença, é um privilégio que vai além do orgulho.
O Araçari Trail Fest revelou-se o cenário perfeito para esse momento. Uma prova simples, mas carregada da essência mais pura do trail: ajuda ao próximo, cuidado, respeito pela montanha e pessoas que entendem que esse esporte vai muito além da competição. Ver minha filha inserida nesse ambiente, sendo acolhida por atletas que vivem esses valores, reforçou em mim a certeza de que crescer também é saber dividir aprendizados — na trilha, na vida, e nos silêncios entre um passo e outro.
Nós já tínhamos cruzado linhas de chegada juntos antes — em provas longas, intensas e em lugares distantes, como Valhöll, nos 80 km, e na Canyon Endurance Race, uma Major do UTMB, na Califórnia. Já conhecíamos a emoção de chegar lado a lado. Mas desta vez foi diferente. No Araçari Trail Fest, além de chegarmos juntos, eu assisti ao nascimento de um novo sonho: o dela, correndo sua primeira prova de montanha. Quando ela me disse que enfrentou a subida inicial e depois passou a curtir cada passo, finalizando com um simples “acho que prefiro a montanha”, entendi que alguns legados não são estáticos. Eles evoluem. E, hoje, seguem adiante em duas direções — pai e filha, aprendendo juntos, passo a passo, pelas trilhas.
Cìcero Barreto
(Diretor comercial, ultramaratonista e autor do livro ‘Correndo na trilha dos sonhos’)
@cicaobarreto

Imagem: Arquivo pessoal.



