Do climatério ao RP: Como a estratégia e o equilíbrio venceram Boston (por Lika Almeida)
- há 6 dias
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Correr a Maratona de Boston pela primeira vez foi muito mais do que participar de uma prova. Foi a realização de um sonho, daqueles que crescem silenciosamente dentro da gente até o momento certo de acontecer. Minha estreia em uma Major e também minha primeira vez nos Estados Unidos tornaram essa experiência ainda mais simbólica.
O plano e a evolução no ciclo
Cheguei para essa prova com um plano bem definido. O plano A era sustentar um pace médio de 4:35/km, enquanto o plano B variava entre 4:44 e 4:50/km. O objetivo principal era claro: melhorar meu tempo de Floripa, onde havia feito 3:31, resultado que também foi o índice que me trouxe até Boston.
Mas, mais do que isso, esse ciclo representava uma evolução pessoal importante. Durante a preparação para Floripa, ainda estava me adaptando às mudanças do climatério, lidando com oscilações e entendendo um novo momento do meu corpo. Na prova, não consegui encaixar o Plano A; precisei administrar a umidade alta, que acabou desencadeando uma crise de asma.

Saúde, equilíbrio e parceria
Para Boston, esse cenário foi diferente. Com a terapia hormonal, exclusivamente com hormônios femininos (estrogênio e progesterona), dentro das práticas permitidas para competições e com ajuste pra menos na dose de estrogênio, aliada a cuidados mais finos na rotina alimentar e na higiene do sono, alcancei um nível de equilíbrio que fez toda a diferença. Foi um ciclo mais forte, mais consciente e, principalmente, mais feliz. Um verdadeiro exercício de respeito ao corpo e à vida: fair play em todas as fases.
Outro fator que tornou essa experiência ainda mais especial foi ter feito a prova com meu marido, Ricardo Fechio. Ele escolheu estar ao meu lado durante todo o percurso, correndo ombro a ombro. Nos divertimos correndo juntos, tornando cada quilômetro ainda mais significativo.
A estratégia nas colinas de Boston
O percurso de Boston exige estratégia. Apesar de ser uma prova com mais descidas do que subidas, esse perfil pode enganar muitos atletas. As descidas iniciais exigem muito da musculatura, especialmente na fase excêntrica da corrida, sobrecarregando os quadríceps. Os treinos de musculação foram fundamentais para suportar essa característica técnica da prova. É comum ver corredores saírem do planejamento nesse início e pagarem o preço mais adiante. E a conta chega, especialmente quando surgem as Newton Hills, entre os quilômetros 25 e 34, culminando na famosa Heartbreak Hill, ponto mais desafiador da prova.
Com isso em mente, optei por uma prova constante, controlada e inteligente. A estratégia foi preservar as pernas no início para conseguir sustentar força no final. Mais do que buscar tempo, eu queria cruzar a linha correndo forte, com energia, consciente de cada escolha feita ao longo do percurso.
A emoção da chegada e o recorde pessoal
A energia da prova é indescritível. Passar por cidades como Ashland, Framingham (muitos torcedores brasileiros), Natick e Wellesley, com o apoio constante do público, torna tudo ainda mais especial. E quando finalmente chegamos à Boylston Street, após a curva na Hereford, a emoção toma conta de uma forma difícil de traduzir.
Completei a prova em 3:13:23, com pace médio de 4:33/km, frequência cardíaca média de 167 bpm e ganho de elevação de 301 metros. Mais do que números, foi uma corrida de controle, força e presença do início ao fim.
O objetivo foi alcançado. RP (Recorde Pessoal) em uma maratona Major, mas acima de tudo, respeitei o processo e o meu momento. Acredito que chegar exausta ao extremo nunca deve ser o objetivo. Todo corredor precisa respeitar seus limites e entender que fazer o seu melhor na maratona é resultado de um treino consciente para o esforço que será realizado.
O significado da vitória
No fim, correr uma maratona é, antes de tudo, um ato de saúde. É sobre equilíbrio, consistência e escolhas alinhadas com a vida. Cruzar a linha de chegada em Boston dessa forma inteira, forte e com energia para comemorar foi, sem dúvida, a maior vitória.
Boston agora faz parte da gente. E sei que essa experiência vai nos acompanhar para sempre. Esse resultado só foi possível graças a um trabalho muito bem direcionado pela consultoria do Alex Tomé e ao suporte impecável de hidratação da Mombora. Valeu, parceiros, juntos conquistamos o unicórnio mágico na terra do Tio Sam!
Dicas práticas: o que valeu pela experiência
Hospedagem e Logística: Ficamos em um Airbnb em Somerville, a cerca de 5 km do pórtico de chegada. A cidade abriga as universidades Harvard University e Massachusetts Institute of Technology. Nos hospedamos na casa de uma americana super querida e fizemos corridas leves pela região, passando pelo Charles River. Vale muito a pena, e o transporte de trem funciona super bem.
Conexão e Programação: Também entramos em um grupo de WhatsApp com mais de 700 brasileiros que iriam correr em Boston. Lá pegamos várias dicas legais, como jogo de basquete do Boston Celtics, View Boston, programação da Fan Fest e outras informações sobre os dias da maratona. O pessoal era super engajado, foi bem bacana.
O Dia da Prova: As drop bags ficam organizadas na chegada, dentro de ônibus escolares. Já a largada acontece em outro local, então todos os atletas precisam pegar traslado. O trajeto é longo, por isso é importante respeitar o horário da sua onda. No nosso caso, o embarque estava previsto para 8h, mas só conseguimos entrar no ônibus às 9h e chegamos cerca de 30 minutos antes da largada, às 10h40. Vale levar lanche e bebida.
Clima e Descarte: Outro desafio é o frio. Nessa época do ano costuma fazer bastante frio, então o ideal é ir bem agasalhado. Tudo o que você tira antes da largada é doado. Ficamos impressionados com a quantidade de casacos e tênis deixados pelos atletas. Os staffs recolhem tudo, já que é preciso considerar o longo deslocamento até a largada e o grande número de ondas da prova.
Lika Almeida
(treinadora e atleta de corrida de rua e de trilha)
@likalmeidafechio
@onfiremulheresportesaude
Imagens: Arquivo pessoal.















