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A alma corre: a Maratona de Roma além do preparo físico (por Nat Chaves)

  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

Desde 2017, a corrida ocupa um lugar essencial na minha vida; ela é remédio, terapia e ferramenta de equilíbrio. Em julho de 2025, no entanto, essa relação foi colocada à prova. Decidi me mudar para a Irlanda para aprimorar o inglês e, junto com o novo idioma, vieram o frio intenso, os dias curtos e um clima completamente oposto ao Brasil. A adaptação não foi simples.


Acostumada com o meu país tropical, abençoado por Deus, bonito por natureza e com a vida ao ar livre, encontrei dificuldades para manter a rotina de treinos. As baixas temperaturas e os ventos constantes tornavam qualquer saída um desafio físico e mental. Treinos indoor nunca fizeram parte da minha dinâmica, e a ideia de me refugiar em uma academia não me motivava. Aos poucos, as corridas foram ficando mais raras, até que, em algum momento, deixei de insistir. Me convenci de que era apenas uma fase e que, naquele período, a Natália intercambista não era corredora.



Meses depois, durante uma viagem a Portugal com a minha namorada, uma conversa mudaria o rumo dessa história. Entre taças de vinho e histórias compartilhadas, o assunto "corrida" surgiu à mesa. Ela, bem experiente em meias maratonas, ganhou um incentivo direto: estava na hora de encarar os 42 quilômetros. O que começou como provocação rapidamente virou compromisso. Naquele mesmo momento, escolhemos juntas uma prova: a Maratona de Roma.


A decisão foi impulsiva, quase inconsequente. Eu não estava sequer correndo 21 quilômetros naquela época. Ainda assim, a escolha estava feita: no dia 30 de setembro, estabelecemos que teria até 22 de março para me preparar. Seis meses pareciam suficientes. Mas a realidade foi outra.


De volta à Irlanda, o ciclo de treinos não engrenou. O clima continuava sendo um obstáculo e a disciplina, fragilizada. O treino mais longo aconteceu apenas em dezembro, com 14 quilômetros. Muito aquém do necessário para uma maratona. Ainda assim, a inscrição estava feita, as passagens compradas e a decisão tomada: eu iria.


Já em Roma, durante a retirada do kit, a insegurança falou alto. Compartilhei com amigos a possibilidade de não largar, com medo de lesões ou de não conseguir completar a prova. Mas foi ali também que encontrei o combustível que faltava. Entre as mensagens de incentivo, uma em especial me pegou em cheio: a de um amigo em tratamento oncológico, enfrentando uma metástase óssea. Sua força e sua fé foram determinantes para que eu não desistisse antes mesmo de tentar.


Naquele momento, o objetivo mudou. Não se tratava mais de desempenho ou tempo. Com um limite oficial de 6h30, a estratégia era simples: respeitar o corpo e seguir em frente. A corrida passou a ter outros significados: acompanhar minha amiga em sua primeira maratona e homenagear a luta de quem corria uma prova muito mais difícil fora dali.

No dia 22 de março, cerca de 30 mil corredores tomaram as ruas de Roma. Era a minha 19ª maratona, mas nenhuma havia começado com tanto medo. Chorei na largada, ao longo do percurso e, ainda assim, segui. Corri; quando precisei, caminhei; conversei com desconhecidos, fiz novas amizades e, acima de tudo, me permiti viver cada quilômetro com presença.



Completei; diferente do que imaginei, longe do tempo máximo da prova, ela foi concluída com 5:01:28. Mas, mais do que completar os 42,195 quilômetros, essa maratona foi um reencontro. A cada passo, relembrei por que correr sempre foi tão essencial para mim. Entendi, mais uma vez, que sou capaz de ir além dos meus próprios limites, inclusive daqueles que eu mesma crio.


No fim, a conclusão foi simples e poderosa: correr continua sendo meu remédio e minha terapia. E, em muitos dias, é também o que me salva.


Natália Chaves

(relações públicas, corredora, ultramaratonista, peregrina e ciclista.)



Imagens: Arquivo pessoal.

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