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O Fim do Mundo e um começo histórico: minha estreia nos 80K em Ushuaia (por Loana v. Gaevernitz Lima)

  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Tudo começou no final do ano passado, quando eu e algumas colegas da equipe ML Mix Run começamos a pensar em um desafio para o início do ano. Esse geralmente costuma ser um período mais tranquilo de trabalho (apesar do calor nos treinos do verão carioca) em que dá para focar mais nos treinos.


Depois de algumas pesquisas, encontramos a UTMB Ushuaia Valhöll. Conversando com colegas que já tinham feito a prova e com o nosso treinador, Manuel Lago, a decisão veio rápido. Vamos nessa!


A ML Mix Run é uma equipe unida. E aí começou algo histórico: um foi chamando o outro, e quando vimos já éramos mais de 20 corredores na prova. Cada um em uma distância, cada um com seus objetivos, mas todos com o mesmo espírito. Competir, se desafiar e viver a experiência única de correr no fim do mundo.



O meu ciclo preparatório foi cheio de incertezas. Era a minha estreia em uma prova de 80 km. Na verdade, 86,8 km com 3.677 metros de ganho de altimetria. Até então, minha maior distância tinha sido os 50 km na UTMB Bariloche. Ou seja, eu estaria avançando em uma nova fronteira. No meio do ciclo preparatório ainda tive alguns contratempos, mas com o apoio do Manuel, conseguimos ajustar tudo e construir um bom ciclo. No fim, eu me sentia preparada para encarar o desconhecido e disposta a vivenciar o que essa nova experiência me traria.


Fui a única da equipe que decidiu encarar essa distância. Por um lado, todo mundo achou meus planos um tanto ousados, e com certa razão. Por outro, recebi um apoio enorme, tanto dos que estavam lá quanto de outros colegas que compartilharam experiências e conselhos sobre provas longas. E isso fez toda a diferença.


Logo que chegamos em Ushuaia, já deu para perceber que o clima não ajudaria. E piorou ao longo dos dias. Tanto que a largada da minha prova foi antecipada das 6h para as 4h da manhã, por conta das rajadas de vento de até 50 km/h previstas para entrar no final da tarde, além das temperaturas muito baixas.


Eu venho do montanhismo de altitude, então frio e ambientes hostis não me assustam muito. Mas o que ninguém esperava era a lama e os famosos charcos da região, que pegam qualquer corredor que não seja da região de surpresa. E não é exagero: vi muitos corredores perdendo tênis, quebrando bastões e atolando até o quadril (exatamente meu caso…).



A prova, que parecia relativamente corrível no planejamento, se transformou na prática em uma prova de resistência, quase uma corrida entre trincheiras. De fato, a prova foi mais lenta e muito mais desgastante do que o planejado, mas eu pensava em vários momentos: “não é possível que esteja travado apenas para mim”.


E foi exatamente no meio daquela lama toda, chuva, vento e frio que eu me deparei com o que realmente me move: justamente quando já não se pensa mais no esforço, em que só se continua, muitas vezes de forma solitária e em um estado quase meditativo (alternado com momentos “walking dead”), que a magia da ultra acontece: descobrir uma força que você nem sabia que tinha, movida por uma sensação de liberdade, empoderamento (sim, ainda somos poucas), autoconhecimento, superação e um certo grau de obstinação. E que sensações maravilhosas são essas, quando misturadas com o sofrimento de uma prova dessas!


E é engraçado. Mesmo sendo uma prova tão dura, já bate saudade. Já dá vontade de planejar a próxima para viver esse turbilhão de emoções novamente.


Mas o mais marcante foi a chegada. Entrando na cidade, vários colegas vieram ao meu encontro para correr comigo os últimos metros. Gritando, vibrando, comemorando juntos, numa sensação térmica de -6°C onde eu só sentia o calor humano daquele momento que ficará para sempre na minha memória.


E aí veio o resultado, totalmente acima do esperado. Na minha estreia nos 80K, consegui um pódio geral feminino. Algo que eu nunca poderia imaginar.


Nada disso teria sido possível sem o apoio do meu treinador, que junto com duas amigas corredoras, Alessandra Moreira e Bárbara Mesquita, estiveram em vários PCs me dando suporte, energia e incentivo. Porque, no fim, nenhuma ultra é realmente solitária.

Levo essa experiência com muito carinho, com muito aprendizado e, acima de tudo, com uma enorme gratidão por todos que estiveram ao meu lado nessa jornada.


Que venham as próximas!


Loana v. Gaevernitz Lima

(economista e internacionalista, CEO da Câmara de Comércio Alemã e apaixonada por montanhas e trail running)



Imagens: Arquivo pessoal.

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