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Guardiões da Serra: a história e o futuro da Boi Preto, por Rafa Porto

  • Foto do escritor: Eric Akita
    Eric Akita
  • 23 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

A Festa do Boi Preto surgiu de forma quase acidental. Há cerca de dez anos, eu e dois amigos estávamos conectando trilhas no entorno de Belo Horizonte com o objetivo de criar uma rota de longo curso. Guardadas as devidas proporções, queríamos algo como a Pacific Crest Trail ou a 13 Picos, na África do Sul, para podermos realizar treinos longos na nossa região metropolitana.


Conseguimos unir trechos com relevância histórica e natural, passando por pinturas rupestres, ruínas coloniais do século XVIII e cachoeiras. Quando a trilha finalmente existiu no mapa, percebemos que ninguém a havia percorrido por inteiro. Convidamos, então, nossos melhores amigos — umas 12 pessoas — para a estreia. Por coincidência, era final de ano, época em que ninguém mais tinha compromisso com provas ou planilhas de treino.

Aquele dia, porém, foi brutal! O calor beirava os 40°C e, como as trilhas da Crista são de minério de ferro, o solo virou uma panela de pressão. Foi tão difícil que, dos 12 corredores, ninguém conseguiu terminar. Batizamos aquele episódio de "Dia do Boi", porque foi o dia em que o boi venceu todo mundo.


Rafa Porto, um dos idealizadores da Boi Preto.
Rafa Porto, um dos idealizadores da Boi Preto.

Uma festa contra a corrente


O cenário de provas de trilha no Brasil está crescendo, mas Belo Horizonte sempre ficou um pouco alheia a isso. Grande parte das nossas trilhas está em áreas privadas ou de mineradoras, o que torna as autorizações oficiais extremamente complexas.

Percebendo que as pessoas gostaram da mística da Boi Preto, decidimos oficializar o "Dia do Boi" como um evento anual de confraternização. Não somos contra as provas comerciais — pelo contrário —, mas, na ausência delas por aqui, o Boi virou a nossa "prova não oficial". É uma festa: não há medalhas, pódio ou grandes patrocínios.

Mantivemos a largada à meia-noite para oferecer algo que pouca gente experimenta: correr no frio, na chuva e na escuridão da montanha. Para muitos iniciantes e mulheres, fazer isso em grupo traz a coragem necessária. A maioria faz o loop de 28 km em um ritmo lento, apenas para contemplar o nascer do sol na Crista da Serra — uma experiência transformadora. E como é festa, a gente incentiva o lúdico: luzes, fantasias, cores e muita música nos postos de controle (PCs) madrugada adentro.



Filosofia lixo zero e navegação por GPS


Diferente de algumas provas que pecam na preservação, nós nunca criamos uma trilha sequer. Utilizamos caminhos que já existem há décadas; se o trecho exige asfalto para conectar dois pontos, nós usamos o asfalto, mas não cortamos a mata.

Outro pilar da Boi Preto é a ausência de marcação física. Não usamos fitas ou placas; tudo é via GPS e Wikiloc. Ensinamos os participantes a navegar e a compartilhar sua localização. Essa filosofia de "não deixar rastros" inspirou outros eventos na região, como o Clube Alpino e o São Brutão. Somos 100% lixo zero: cada um carrega o que consome. O pensamento é simples: deixar a trilha exatamente como a encontramos.



Se não frequentamos, não protegemos


Acredito que, se não frequentamos as trilhas, não as protegemos. Certa vez, correndo na Serra da Moeda, avistei pedras que pareciam propícias para registros arqueológicos. Fui explorar e encontrei pinturas rupestres inéditas. Procurei o IPHAN e a UFMG e, após a confirmação dos arqueólogos, a área foi catalogada e protegida por lei. Graças a essa descoberta feita durante um treino, conseguimos proteger o topo de uma montanha contra o avanço de uma mineração vizinha.


Esse espírito de proteção se estende à travessia completa de 85 km. Antes, muitas dessas trilhas estavam abandonadas. Hoje, com a fama da travessia, há movimento todo final de semana. Isso nos torna guardiões: somos os primeiros a denunciar focos de incêndio, biopirataria de orquídeas ou invasões de motos em áreas de proteção ambiental.



De grupo de amigos a FKT internacional


O nome "Boi Preto" veio de uma trilha antiga onde um boi bravo costumava avançar nos motoqueiros. Ele era o guardião do lugar. Hoje, os "bois pretos" somos nós. Criamos uma comunidade no WhatsApp com centenas de pessoas que se ajudam, resgatam quem se perde e apoiam os bombeiros em caso de fogo.


O evento cresceu organicamente. Durante a pandemia, quando não havia provas, atraímos a elite do trail nacional, como o Chico Santos e o César Piccinin. Foi nessa época que registramos a Boi Preto como o primeiro FKT (Fastest Known Time) brasileiro no site internacional. O percurso ganhou documentários, fotos e fama mundial, atraindo gente de fora para conhecer as montanhas de Minas.



O Futuro: a profissionalização para a eternidade


Em oito anos, o Dia do Boi cresceu de 12 para mais de 300 pessoas. Chegamos a um ponto em que o formato "clandestino" se tornou insustentável e arriscado. Embora tenhamos excelente trânsito com ONGs, prefeituras e órgãos ambientais, não temos a segurança de uma autorização formal.


Para que o Dia do Boi seja eterno e para que as próximas gerações possam corrê-lo, decidimos mudar nossa mentalidade. A partir do próximo ano, vamos formalizar o evento e transformá-lo em uma prova oficial. Estamos fechando parcerias com especialistas do mercado comercial para garantir que essa transição ocorra sem perder nossa essência, nossos princípios e o espírito da montanha. O objetivo é um só: garantir que a Boi Preto e suas trilhas continuem protegidas para sempre.


Rafa Porto

(médico ortopedista, ultramaratonista e um dos criadores da Boi Preto)



Imagens: @boipretoultra / @jota.alvezz


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