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Maratona da Cidade do Cabo: Do diagnóstico de lesão à linha de chegada (por Roberto Ferreira)

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Atualizado: há 1 dia

Na verdade, costumo dizer que foi Cape Town que me escolheu, e não o contrário. Isso porque o Mundial de Faixa Etária, organizado pela Abbott World Marathon Majors, funciona por meio de critérios estritos de qualificação: você precisa atingir um tempo específico em uma prova seletiva para ganhar o direito de correr a final mundial no destino definido pela organização para aquele ano.


Minha jornada para estar lá começou em 2023, quando fiz o tempo de 2h48min na Maratona do Rio, o que me classificou na faixa de 40 a 44 anos para o Mundial de 2024, que ocorreu dentro da Maratona de Sydney. No entanto, acabei não indo por causa da distância e da logística difícil. Desde então, participar desse evento passou a ser um grande sonho e um objetivo de vida na corrida. Tentei novamente para 2025, fazendo 2h47min em Chicago em 2024, mas não conquistei a vaga porque a seletiva daquele ano foi extremamente concorrida dentro da Maratona de Nova York. Como em 2026 eu mudaria de faixa etária para 45-49 anos, foquei em fazer um excelente tempo na Maratona do Rio 2025. Consegui registrar 2h47min novamente e, por critérios de ranking, esse resultado me carimbou especificamente para o mundial daquele ano, que a Abbott transferiu para a África do Sul. Foi assim que o destino me levou até lá. Dessa vez, não tive dúvidas e aproveitei a oportunidade.



Superando as dores e a incerteza


Particularmente para mim, a preparação foi extremamente difícil. Depois da Maratona do Rio em 2025, sofri uma lesão grave na banda iliotibial do joelho esquerdo. O pior é que eu estava com tudo organizado para correr a Maratona de Berlim, em setembro daquele ano. Meu ciclo foi todo comprometido e não consegui fazer nenhum treino longo. Corri a prova alemã no sacrifício, com dor, e acabei fechando em 3h03min. Depois disso, foquei somente na recuperação. Tive a ajuda de dois profissionais extremamente capacitados para reforçar meu trabalho de fortalecimento e reorganizar meus treinos de corrida: meu treinador Gabriel Zeitoune e minha fisioterapeuta Fabiana Terra Cunha.


Fiquei praticamente três meses sem correr, fazendo apenas reforço muscular, bicicleta e elíptico, para manter alguma capacidade cardiovascular. Até janeiro, eu ainda não sabia se conseguiria participar em Cape Town. Consegui me recuperar e, depois de fazer uma prova de 10 km no dia 1º de fevereiro — fechando em 39min30s praticamente sem treinar e totalmente sem dor —, soube que poderia me preparar para o mundial, almejando novamente um sub-3h. O ciclo começou de fato naquele momento, e foquei bastante no fortalecimento, em treinos leves e de limiar de lactato dentro dos treinos longos. Não fiz nenhum treino de tiros ou ladeiras e, sinceramente, não senti falta. Em março, meu tempo nos 10 km já estava em 37min34s e, em abril, fiz uma meia maratona preparatória em 1h22min.




Estratégia perfeita no dia da prova


O evento na África do Sul foi extremamente organizado, desde a expo até o pós-prova. Faltava apenas esta etapa para a prova virar uma Major oficial e, sinceramente, não vejo como não viraria. Ela não deve nada para as outras e até as supera em alguns aspectos. Uma grande preocupação nossa era o clima, que é muito imprevisível na cidade. Duas semanas antes tinha ocorrido uma tempestade enorme e a prova do ano anterior inclusive havia sido cancelada por mau tempo. Felizmente, as condições estavam perfeitas: praticamente sem vento, nublado e com temperatura em torno dos 14 graus.


O grande desafio da prova é o ganho de altimetria, que chega a 205 metros. Há muita variação no percurso, com pontos relevantes de subidas que precisam ser estudados antes, como nos quilômetros 6 e 31, sendo este último o mais desafiador devido ao momento em que ocorre na prova. Não é a melhor prova para buscar recorde pessoal (RP), mas dá para conseguir um bom tempo se o planejamento for correto. A prova começa de verdade após essa subida do quilômetro 31, guardando um trajeto rápido nos últimos 10 km.


Eu consegui o tempo de 2h52min13s, fazendo uma prova tática com split negativo (1h26min52s na primeira metade e 1h25min21s na segunda), mesmo sem treinar ladeiras na minha preparação, mas respaldado por um bom fortalecimento muscular. Tomei um gel de carboidrato a cada 6 km e cápsulas de sal nos quilômetros 14 e 28. Cheguei muito bem no final, com a musculatura inteira, pois soube escolher o momento certo para acelerar. Meus últimos 2 km foram no ritmo de 3:44 e 3:43 por quilômetro.



A atmosfera do Mundial Abbott Majors


Participar do Mundial da Abbott World Marathon Majors foi um verdadeiro sonho realizado. É um evento especial que certamente vai motivar muitos corredores e corredoras experientes a continuarem treinando e, até mesmo, evoluindo, apesar da idade. Vi atletas dez anos mais velhos do que eu fazendo tempos incríveis, abaixo de 2h40min. Isso motiva demais. Além disso, o evento em si oferece várias facilidades para os corredores do mundial, como jantares exclusivos, largada avançada e um pós-prova privilegiado. A cereja do bolo é a medalha, que coroa a conquista e é extremamente bonita e exclusiva.



Logística e turismo na Cidade do Cabo


Para quem pretende correr a Cape Town Marathon, a principal dica é se atentar à localização, pois tudo ocorre no estádio DHL e no seu entorno: a expo, as provas de 5 km e 10 km, a largada e a chegada da maratona. Tudo fica no bairro de Green Point, onde fiquei hospedado e fiz absolutamente tudo a pé. Foram dois pontos de largada para a maratona: no estádio e na praia. Eu larguei da praia, mas também era muito próximo do estádio. Há uma área vizinha, o V&A Waterfront, repleta de lojas e restaurantes, que fornece um ótimo suporte para toda a estadia.


Vale a pena ir à expo logo na quinta-feira de manhã para aproveitar os lançamentos e produtos exclusivos, pois eles esgotam rápido. Eu só consegui comprar o tênis Evo 3 porque cheguei cedo! Desembarquei na cidade na quarta-feira à tarde, o que me deu tempo para me adaptar ao fuso horário, que está 5 horas à frente em relação ao Rio de Janeiro.


Como a prova foi no domingo, guardei o turismo para a segunda-feira, fazendo um City Tour e visitando os principais pontos da cidade. Conhecer a Table Mountain é obrigatório, principalmente depois de passarmos tantas vezes na frente dela durante a prova. É um lugar muito bonito. Para mim, funcionou bem assim, pois meu foco principal era a corrida, e alcancei meu objetivo depois de tantos meses de incerteza, reabilitação e planejamento. O caminho não foi fácil, mas graças ao suporte profissional e apoio que tive da minha família, principalmente da minha esposa (Michelle) e do meu irmão (Fabiano), que me acompanhou na viagem e na prova, deu tudo certo.


É uma prova que eu com certeza faria de novo — e isso diz muito no mundo da corrida.


Roberto Ferreira

Médico cardiologista e corredor de rua



Imagens: Arquivo pessoal.

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