Performance também é saber pausar: Minhas reflexões pós-Ironman 70.3 Brasília (por Silvia Schreer)
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Que prova gostosa foi o Ironman 70.3 Brasília! Ela reforçou muito algo que vejo constantemente no dia a dia e também vivo na prática: em provas de endurance, chega um momento em que o corpo já fez boa parte do trabalho — e é a mente que passa a sustentar tudo.
A prova começou controlada. Natação encaixada, tudo dentro do planejado. Mas logo na saída da água veio o primeiro teste: uma cãibra forte na panturrilha. E nesses momentos existe uma disputa interna muito rápida. O corpo sente, mas é a mente que responde. O pensamento pode facilmente ir para um “acabou a prova”. Só que ali a escolha foi outra: respirar, ajustar, reorganizar e seguir.
No endurance, principalmente em provas longas, isso pode — e quase sempre vai — acontecer. Não necessariamente tudo acontece da forma como planejamos.

O pedal foi muito gostoso, rápido e, sim, exatamente como planejado com meu técnico. Em compensação, a corrida foi outra história. Bem mais dura. Dor constante no posterior, tendinite no glúteo/quadril, desconforto praticamente do início ao fim.
E existe um ponto importante nisso: não adianta entrar em guerra com a dor. Ela vai existir. O que muda é onde colocamos a atenção.
Fui trazendo a mente para o processo. Próximo passo. Próximo posto de hidratação. Contagem regressiva. Continuar me movendo. Não é ignorar o desconforto — isso seria impossível — mas também não deixar que ele tome completamente o controle das decisões.
Em vários momentos puxei a mente para algo maior do que o sofrimento momentâneo. A chegada. Meus filhos esperando. Estar ali com o Pedro no primeiro 70.3 dele, justamente no aniversário. Isso muda completamente o peso da experiência. Porque, no fim, a prova nunca é sobre tempo ou performance. É também sobre significado.
E talvez seja justamente aí que mora uma das maiores complexidades do esporte de endurance. O triathlon, especialmente em longas distâncias, organiza a vida do atleta. Os treinos estruturam a rotina, as decisões passam a girar em torno da prova, o calendário social muda, o descanso é calculado, viagens são planejadas em função do ciclo. Existe muita entrega — e também muita renúncia.
Abrimos mão de tempo, flexibilidade, momentos sociais e, muitas vezes, de outras partes importantes da vida para sustentar um objetivo esportivo. Durante o ciclo, isso parece absolutamente justificável. E muitas vezes é. O problema surge quando o esporte deixa de ser uma parte da vida e passa a ocupar espaço demais dentro da identidade. Por isso a importância dos ciclos: início, meio e fim.
Existe uma experiência emocional muito particular na linha de chegada de um 70.3 ou Ironman. Você cruza o pórtico depois de meses de preparação, encontra quem ama, recebe a medalha, sente alívio, orgulho, emoção. Mas, passado aquele pico emocional, muitas vezes surge um vazio silencioso. A rotina que organizava os dias desaparece. O grande objetivo acaba. E vem uma pergunta sobre a qual poucos falam: “e agora?”.
Não é raro que atletas sintam uma espécie de queda emocional após provas importantes. Porque encerrar um ciclo também envolve um pequeno luto. Principalmente quando percebemos tudo o que foi investido — física, emocional e mentalmente — para chegar até ali. E talvez maturidade esportiva tenha muito mais relação com aprender a regular isso do que apenas suportar mais carga.
Hoje, olhando para essa prova e para tudo que venho sentindo fisicamente, entendo que o próximo passo não é insistir. É ajustar. Estou tirando férias, desacelerando, fortalecendo o corpo e reorganizando lesões que vêm acumulando. E, honestamente, acredito que isso também faz parte da performance. Porque existe uma diferença importante entre desistir e se afastar estrategicamente. O corpo precisa recuperar, e a mente também precisa respirar.
A medalha e a vaga para o Mundial que conquistei importam, claro. Mas são consequência. O que realmente permanece é a experiência vivida, as pessoas com quem dividimos o processo, as conversas depois da prova, os significados construídos no caminho.
E talvez exista uma maturidade importante quando entendemos que performance não é apenas continuar. Às vezes, performance também é saber pausar, reorganizar e voltar de um jeito ainda mais inteiro.
Silvia Schreer
Psicoterapeuta com foco nas áreas clínica, esportiva e traumas (EFT)
@silschreer
Imagens: Arquivo pessoal.















