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São Silvestre: Muito além dos 15 quilômetros! (por Mariana Camargo)

  • Foto do escritor: Eric Akita
    Eric Akita
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Foi na primeira vez que completei 5 quilômetros corridos na esteira da academia do clube que percebi a minha capacidade de superar a mulher de 45 anos sedentária, com sobrepeso por mais de 15 anos — mãe de dois filhos já jovens, esposa, que divide a rotina entre a família e o trabalho com a fotografia — sedenta para expandir seu mundo. Era 2022, e a São Silvestre cruzou pela primeira vez meus pensamentos.


Alguns anos se passaram. E, com eles, alguns machucados, fisioterapia, musculação, nutricionista, mais quilômetros rodados num pace alto e vagaroso que chamo de “amor-próprio”. Sempre tentando não me comparar com as centenas de corredores velozes que me ultrapassavam no parque, mas sim celebrar o que conquistei com muita disciplina, trabalho, foco e determinação, características que não faziam parte da minha vida.


E o tão esperado dia chegou!!



Calorão! Largada num horário tardio nunca experimentado antes. Multidão. E muita gente já meio descontente com a organização da prova — e com razão, diante do caos da inscrição, da expo, retirada demorada de kits numa verdadeira sauna, da falta de camisetas. Uma atmosfera tensa, fantasiada de festa.


Lamento profundamente que muitas pessoas não tiveram a experiência que sonhavam e tanto esperavam. Mas, para mim, foi inesquecível do início ao fim.



Talvez porque não esperasse um evento de tamanha proporção perfeitamente organizado ou cartesiano. Ou porque nunca passou pela minha cabeça que uma aglomeração com mais de 50 mil pessoas eufóricas, fantasiadas, enlouquecidas para filmar, fotografar e postar – e eu me incluo – pudesse seguir padrões rígidos de fluidez "à la gringa" aqui no nosso Brasilzão, cheio de ginga, temperado com calor apaixonado que só o brasileiro tem e em plena Avenida Paulista.


Resolvi, então, olhar para cima, para além. Olhar para as pessoas de todos os tipos, cores, raças, orientações, credos, gêneros, idades, celebrando um dos esportes mais democráticos da humanidade. Pessoas encerrando um ano duro para muitos, desafiador para tantos outros, legitimando sua presença na maior e mais tradicional corrida de rua do país: a Centésima São Silvestre.



Foi difícil? Muito!! Altas temperaturas, umidade nas alturas, muitos caminhantes, subidas e descidas, alguns gargalos. E mais uma vez: “olha para cima!”


Passar por tantos pontos históricos do Centro de São Paulo, admirar a arquitetura magnífica, cruzar avenidas icônicas, ouvir as bandas animadíssimas, os grupos fantasiados. Foram muitos sorrisos, solidariedade, uma comunhão linda. Uma energia contagiante. Uma sensação enorme de pertencimento. Um povo que, em sua maioria, só queria deixar registrada sua parcela de contribuição nessa história.


A subida da Brigadeiro foi pura diversão. Foi o maior acúmulo de corredores de todo o trajeto – além da largada, claro – não dava para correr, nem se eu quisesse. Eu não quis. Ritmei num trotinho bem confortável, fiel ao ditado que mais sigo ultimamente: “devagar e sempre”. Curti cada passo embalada pelos gritos de “chupa Brigadeiro” e consegui esticar o braço para alcançar a festejada cerveja do famoso km 41.



Depois de 1 hora e cinquenta minutos intensamente vividos, avistei a linha de chegada! E as lágrimas começaram a transbordar. A alma, que já não cabia no corpo cansado, escorreu pelos olhos.


Senti uma emoção que há tempos o asfalto não me provocava. Algo genuíno, puro como na minha primeira prova de rua e que hoje revivo sempre que estou na montanha. Aquela excitação no seu modo mais cru e primário da criança quando descobre e se apodera de algo novo.


Cruzar a linha de chegada foi catártico!!! Um grande e profundo encontro comigo mesma! A sensação latente de ser parte do todo!


Mariana Camargo

(corredora e fotógrafa de arquitetura e interiores)

@marianacamargo_foto



Imagens: Arquivo pessoal.

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