Sol, chuva e gratidão: a rotina de um ultramaratonista (por Valdenir Jandosa)
- 9 de fev.
- 3 min de leitura
Muitas vezes me perguntam: "Valdenir, por que correr tanto?". No começo, eu mesmo achava essa pergunta curiosa, quase estranha. Mas com o passar dos quilômetros e das horas solitárias, a resposta se revelou com uma simplicidade desconcertante: eu corro tanto porque eu gosto de correr. O asfalto e as trilhas não são apenas caminhos; são onde eu me encontro.
O renascimento e a descoberta
Minha trajetória nas longas distâncias nasceu de uma provação. Em 2014, uma lesão grave me forçou a parar. Foram dois anos longe das competições, um período de silêncio para quem estava acostumado ao ritmo das maratonas. Quando voltei, em 2017, algo em mim buscava ir além dos 42 km. Comecei a aumentar o volume gradualmente e, em 2019, encarei o desafio que mudaria tudo: os 75 km de Bertioga a Maresias.
Foi ali, cruzando o litoral norte paulista, que percebi que meu corpo e minha mente tinham uma sintonia especial para o endurance. Descobri o prazer de atravessar cidades inteiras a pé, passando horas sozinho em lugares incríveis. A solidão da corrida se transformou em liberdade.

A engrenagem por trás dos 400 km semanais
Se você pensa que a rotina de um ultramaratonista é apenas colocar o tênis e sair, a realidade é muito mais complexa. A corrida, acredite, é a parte mais fácil. O verdadeiro treino acontece no que chamo de "treinamento invisível".
Minha rotina é baseada em rodagens por percepção de esforço, mas a estratégia muda conforme o alvo. Eu entendi que, para suportar o desgaste imenso, eu precisava ganhar força e potência dentro da própria especificidade da corrida. Por isso, treinos com alta altimetria são quase diários. Quando o objetivo é uma prova de circuito plano, mudo o terreno para ganhar velocidade sem o desgaste excessivo das subidas.

O volume de quilometragem não é um número fixo, mas uma construção. Em períodos de base, chego a rodar mais de 300 km por semana. Já cheguei ao pico absurdo de 428 km em apenas sete dias. Para sustentar isso, a disciplina é militar:
Sono: É o meu principal recuperador. Preciso de, no mínimo, 7 horas de sono de qualidade.
Nutrição: A alimentação tem que ser a mais limpa possível, com precisão na quantidade de proteínas e nutrientes. E conto com o apoio da Rucá Brasil e a Z2 na suplementação.
Hidratação: Não é só beber água; em dias de alto volume, a reposição de eletrólitos é a peça-chave para não quebrar.
A glória na Brazil 135: superando recordes A Brazil 135 Marathon ocupa um lugar especial na minha história. São 240 km pelo Caminho da Fé, de Águas da Prata (SP) a Paraisópolis (MG). É uma das provas mais difíceis do mundo, com subidas e descidas íngremes que acumulam mais de 7 mil metros de altimetria.
Concluí a prova em 28h46min, um tempo excelente, cerca de 4 horas abaixo do recorde anterior para aquela distância. Muitos sofreram com o calor, mas eu me preparei: treino sob o sol forte e faço sauna com frequência para que a temperatura não seja uma inimiga.
O sucesso ali não foi só meu. Foi do Itamar no volante, do meu grande amigo Thiago como pacer e do meu filho Matheus na assistência e filmagem. Em provas assim, a equipe é a sua alma. Passamos por cidades isoladas, vilarejos onde o tempo parece parar. Embora o foco total me impedisse de interagir muito, o som dos aplausos nos pontos de apoio e centros urbanos era o combustível que eu precisava. Depois da BR135, parece que tudo o resto fica mais fácil.

A filosofia do movimento A ultramaratona é uma escola de virtudes. Ela me ensinou foco, desenvolvimento mental, disciplina e, acima de tudo, paciência. Enquanto corro, tenho o privilégio de refletir sobre minha vida, meu trabalho, minha família e minha conexão com Deus.
Cada treino matinal, seja sob sol, frio ou chuva, é uma vitória antecipada. Eu saio de casa sabendo que aquele dia já deu certo porque eu tive a disciplina de cumpri-lo.
O horizonte de 2026 A temporada de 2026 será, sem dúvida, uma das mais intensas da minha carreira. Planejei um calendário com pelo menos 12 ultramaratonas e duas maratonas. O pontapé inicial é agora em fevereiro, com uma prova de 24 horas em pista de atletismo em Indaiatuba. Será um teste de resistência física e, principalmente, mental, girando em um circuito de 400 metros. Depois disso, seguirei o ritmo de uma a duas ultras por mês.
A corrida é a minha vida, e cada quilômetro é um novo aprendizado. A jornada continua.
Valdenir Jandosa
Analista de TI

Imagens: Arquivo pessoal.



