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Um brasileiro no topo: o título inédito no Mundial de Canicross

  • 26 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 26 de jan.

Conheci o canicross em 2012, por meio de uma atleta que participou de um evento de trail run que eu organizei. Na época, eu já tinha alguns cães resgatados da rua e praticava atividades físicas com eles. Comecei a correr com esses cães de forma recreativa, apenas para gastar energia, sem qualquer objetivo competitivo — até porque, naquele período, ainda não existiam competições da modalidade no Brasil.


Com o tempo, tornei-me um dos pioneiros na organização de provas no país, realizando os primeiros eventos na região Sudeste, passando por Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Mais adiante, surgiu o desejo de competir fora do Brasil. Foi quando tive meu primeiro cão especificamente voltado à performance: o Xico, um Braco Alemão que hoje tem 9 anos. Juntos, fomos campeões do Campeonato Sul-Americano.


Nesse período, fundei, com amigos, uma instituição esportiva. Posteriormente, desliguei-me do projeto para criar a Liga Brasileira de Canicross e Similares (LBCANIS), que hoje é filiada à Federação Internacional de Sleddog Sports (IFSS). Foi assim que minha jornada de fato começou.


Willian e Tonha em ação no Mundial de Canicross, nos Estados Unidos.
Willian e Tonha em ação no Mundial de Canicross, nos Estados Unidos.

A complexidade do treinamento

Muitas pessoas acham que introduzir um cão no canicross competitivo é simples, mas é um processo extremamente complexo. O treinamento começa cedo: desde que o cão chega à minha casa, muitas vezes aos dois meses de idade, tudo o que faço faz parte da preparação. A obediência básica constrói a comunicação que usaremos no esporte. Comandos como "direita", "esquerda" e o "vamos" da largada são trabalhados desde os primeiros dias.


Além disso, há o processo de socialização: apresentar o mundo ao cachorro — ruas, praças movimentadas, outros cães e os equipamentos de canicross e bikejoring. O primeiro treino específico acontece por volta dos sete meses, com distâncias curtíssimas (100 a 500 metros), focando apenas na compreensão da função de tração e no reforço positivo.


Hoje, treino a Tonha, uma cadela de quatro anos que, apesar de ser campeã mundial, ainda está em desenvolvimento. Ela treina todos os dias, mas o treino específico de tração ocorre apenas duas vezes por semana. Nos demais dias, focamos em condicionamento físico, força e resistência, respeitando a fisiologia animal. Minha rotina exige disciplina: acordo às três da manhã para alimentar e cuidar dos meus cinco cães antes de seguir para o meu próprio treino ou trabalho.


O desafio logístico rumo ao Mundial

Representar o Brasil exige esforço financeiro e logístico. Contei com apoios e patrocínios importantes da Drogavet, Neuvye, Syno experts e Sucal Mineradora e de uma vaquinha virtual que mobilizou centenas de pessoas para custear a passagem aérea da Tonha.


A viagem para o Campeonato Mundial, nos Estados Unidos, foi exaustiva. Como as aeronaves entre Rio e São Paulo tinham restrições de peso que não comportavam o tamanho da Tonha, tive que viajar de carro até São Paulo para embarcar em um voo direto de Guarulhos para Nova Iorque. Ao chegar, ela ficou retida por cinco horas no controle animal para os procedimentos de segurança sanitária, um atraso que já havíamos previsto. Depois, enfrentamos mais 17 horas de estrada até Wisconsin, chegando a Minocqua apenas na quarta-feira à noite.


Bastidores da competição e bem-estar do cão


No Mundial, a estrutura é focada na pista. O percurso de cross country era técnico, sem trechos planos, exigindo ritmo intenso (fizemos 3:18/km). Optamos por descansar a Tonha na véspera para preservá-la, já que correríamos quatro dias seguidos: dois de bikejoring e dois de canicross.


Um ponto fundamental é que o cão deve estar habituado à caixa de transporte; para a Tonha, aquele é o seu lugar de segurança e descanso. Em grandes eventos, o bem-estar animal é a prioridade absoluta. Antes da prova, há o check veterinário e controle antidoping tanto para o humano quanto para o cão. As regras são claras: a segurança do animal vem sempre em primeiro lugar.


O peso do ouro

Fui o primeiro campeão mundial do Brasil neste esporte. No início, eu estava lá sozinho, focado na minha rotina. Terminava as provas e voltava para a hospedagem, sem dimensão do que estava acontecendo nas redes sociais. Só entendi a magnitude da conquista quando recebi a ligação da minha esposa, Ana, e vi centenas de mensagens de pessoas que pararam o dia para torcer por nós.


Ver o Márcio Cerqueira, meu mentor e um dos maiores treinadores do país, fazendo uma live emocionado sobre nossa vitória, fez-me perceber que eu não estava correndo sozinho. Na manhã do segundo dia de canicross, a ansiedade era grande. Dividi a casa com atletas noruegueses e mantive meus rituais: jejum, oração e foco.


Quando cruzei a linha de chegada e percebi que havia garantido o título, a sensação foi indescritível. Ouvir o hino nacional no topo do pódio, sabendo de toda a jornada — desde os cães resgatados em 2012 até ali — foi algo que nunca esquecerei. O canicross me ensinou sobre manejo e respeito, mas, acima de tudo, me mostrou a força da conexão entre o homem e o cão.


Willian Oliveira

Educador físico e campeão mundial de Canicross com a cadela Tonha

@canicross_brasil

Willian, ao lado de Tonha no lugar mais alto do pódio, não segura as lágrimas ao ouvir o Hino Nacional sendo tocado.
Willian, ao lado de Tonha no lugar mais alto do pódio, não segura as lágrimas ao ouvir o Hino Nacional sendo tocado.

Imagens: Arquivo pessoal.

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