42 anos em 42 quilômetros: a minha estreia na maratona (por Francisco Bellesini)
- 2 de fev.
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O motivo pelo qual comecei a correr se transformou ao longo do tempo… Porém, eu continuei. De um jeito qualquer, sem muito sentido ou disciplina. Eu usava um Olympikus preto (antes de a marca se tornar o que é hoje) e roupas de algodão. Cheguei a fazer um percurso de carro só para saber a distância do meu trecho preferido na cidade e marcava o tempo no cronômetro do celular.
Foi assim até eu ler o livro "Suba, nade, corra, pedale (e aproveite a paisagem)", do Joel Kriger — o brasileiro mais velho a chegar ao topo do Everest. Li no final de 2022 e recomendo fortemente, principalmente para quem precisa de uma aula de disciplina.
A descoberta das trilhas e o sonho ultra Em janeiro de 2023, fiz minha primeira prova de rua: foram 4km, justamente em Ribeirão Preto. Depois veio outra, e mais outra... Eu gostava ainda mais de trilhas e corria pelos canaviais. Quando participei do Training Camp do Corre Junto, em julho de 2024, me apaixonei de vez pelas montanhas. Fiz mais algumas provas, incluindo uma na Argentina, e logo depois veio a La Misión.
Eu não tinha vontade alguma de fazer uma maratona, mas como sempre sonhei em ser ultramaratonista, sabia que, naturalmente, algum dia alcançaria os tais 42.195 metros. Com o desempenho que tive na La Misión, resolvi me inscrever para os 50k da KTR Campos do Jordão, que acontece em abril agora.
Em novembro completei 42 anos e, durante a madrugada do meu aniversário, fiz minha primeira maratona (não oficial). Foi aí que decidi me inscrever na Maratona de Ribeirão Preto, mas com a cabeça totalmente voltada para a KTR.

Preparação solitária, mas com o apoio da "tropa" Não treino com assessoria; até tentei o formato online, mas não me adaptei. Por outro lado, treino com um grupo muito bacana chamado Lalá's Running Club, sediado em Sertãozinho/SP, que é a cidade onde trabalho. Nos reunimos toda terça, quinta e sábado, às 5 da manhã, e muitas vezes nossos treinos passam de 150 pessoas. Isso é incrível e me deu um ânimo extra. No entanto, meus treinos específicos eu planejo sozinho, focado em volume. Como faço isso? Horas e horas de YouTube, filtrando informações de pessoas que têm relevância no esporte.
Escolhi a Maratona de Ribeirão Preto pela proximidade, para me desafiar, para ganhar volume e para suportar o calor ribeirão-pretano em pleno janeiro... É sério: 7 da manhã e o asfalto já está fervendo. Mesmo morando na região, não é fácil. Enfim, queria me expor a uma atividade desgastante, degradar o corpo e, principalmente, absorver aprendizados, sabendo que eu cometeria mais erros do que acertos. Na mesma cidade onde fiz minha primeira provinha de rua, lá estava eu para tentar minha primeira maratona oficial.

O desafio no asfalto quente Pouco antes da largada, às 5 da manhã, deu tempo de tietar um pouco o Nilson Lima — aquela era a maratona nº 426 da história dele! Saímos da frente do Teatro Pedro II, bem no centro, e logo estávamos na Avenida Francisco Junqueira. A prova é basicamente em avenidas, mas em todos os momentos em que saímos das principais, enfrentamos as subidas (são quatro no total). Não são super íngremes, mas são bem extensas.
Minha estratégia era simples: manter um pace que me permitisse terminar abaixo de 4h30. Fui excelente no planejamento até o km 28, mas depois notei que minha frequência cardíaca estava subindo demais. O sol já começava a maltratar. Fui diminuindo o ritmo, tentando administrar, mas por volta do km 33 senti demais e, no 35, eu já estava completamente quebrado.

A força que vem de casa Os últimos 7 km foram alternando entre trotes e caminhadas rápidas, junto com dezenas de outros corredores na mesma situação. Terminei a prova com pace médio de 6:36, fechando em praticamente 4 horas e 40 minutos, novamente em frente ao Teatro Pedro II (vizinho do famoso Pinguim).
O tempo todo, pensei nos meus filhos, beijei a medalha que tenho com os rostos deles e em momento algum cogitei desistir.
Fiquei muito feliz, mesmo acima do tempo estipulado. Durante a prova, cheguei a me visualizar cruzando a linha com 4h15, mas não foi dessa vez. Fui recebido por parte da minha "tropa" do Lalá's Running Club com a frase: "Você é maratonista!".
Eu digo que ainda não sou... serei por conta das ultras. Esse é o meu objetivo. Preciso aprender mais e, humildemente, vou seguindo meu caminho.

O maior presente da corrida E assim, em Ribeirão Preto, três anos após aquela primeira prova de 4km que completei sozinho e sem ninguém me esperando, fechei os 42km com muitos amigos ali por mim. Todos eles foram presentes que a corrida me deu.
Tem algo especial nisso tudo: eu acreditei em mim! E algo ainda mais especial: outras pessoas também acreditaram... E isso foi essencial.
Obrigado, CORRIDA, eu amo você!
Francisco Bellesini
(representante comercial e corredor de rua e de trilha)
@fb_run
Imagens: arquivo pessoal



