A conquista do bi do Brasileiro de Trail: entre o barro seco no jeans e o dever cumprido (por Francieli Kiekow)
- 9 de mar.
- 3 min de leitura
Quem diria, hein? Bicampeã. Depois do resultado, muitos disseram: “eu já sabia”, “era óbvio”, “não tem pra ninguém”, como se tivesse sido fácil tocar aquele sininho da chegada. The Hill Race, uma prova estreante que abrigou a disputa do 3º Campeonato Brasileiro de Corrida de Trilha e Montanha, com um tempo suficiente para fazer um barulho gigante na comunidade trail. Confirmei a participação sem falar com o treinador (quem nunca?), pensando em encarar como um bom treino e representar o meu clube, ANR.
Sem treino específico, mas sempre treinando, cheguei confiante para encarar a Serra do Baitaca. Nunca havia corrido por lá; através de vídeos do YouTube, conversas e comentários nos grupos de WhatsApp, pesquisas nas redes sociais e internet, fui construindo o percurso na mente e absorvendo tudo o que pudesse para a preparação. Sou dessas: fazer o melhor que posso nas condições que tenho.

Como prometi em reunião com a delegação do meu clube dias antes da prova, eu não iria medir esforço para buscar o melhor resultado, porque só de estar presente no evento, em meio aos melhores atletas, já era uma conquista e tanto. E foi exatamente o que fiz. Em um dia de clima perfeito, larguei controlada, enquanto o bonde da frente saiu explosivo. Teve quem ficou aflito(a) me vendo nas últimas posições. Não era estratégia, embora pudesse ser; era apenas eu, fazendo o que tinha combinado comigo mesma.
Aos poucos, o bonde da frente começou a ficar menos distante, enquanto eu sentia as pernas pedirem pra desenvolver mais e assim, km a km, fui conquistando a Serra, num percurso misto na medida para mim. As partes mais técnicas, de escalaminhada e via ferrata, já pareciam familiares, de tão virtualmente estudadas que foram. A partir do km 10 liderei a prova, muito Mombora pra dentro, não parei em nenhum ponto. Um bom dia se formava e tive a confirmação de que alinhar constância, estudo, confiança e boa energia são essenciais para um dia de “sorte”.
Confesso que a parte mais difícil da prova foi realizar o exame antidoping após a chegada. Eu estava fadigada e em um estado de desidratação avançado que dificultou a coleta. Foi mais de uma hora e meia para conseguir urinar o mínimo (90ml) para completar o exame. Com isso, não tive alternativa a não ser deixar banho e premiação de lado para seguir direto a São José dos Pinhais para o voo de retorno.
Voltei calçando Havaianas, vestindo uma calça jeans larga que cobria o barro seco da trilha, de camiseta da prova e número no peito; sem troféu, mas com a sensação de dever cumprido que só um bom desafio é capaz de proporcionar. O coração e a mente absorvendo o turbilhão de acontecimentos e emoções vividos naquele final de semana que se resumiu em: “ainda bem que eu fui”.
Defendi o Bi, defendi o nome do meu clube, defendi minha essência. Conquistamos mais uma etapa de crescimento do trail brasileiro e eu sou grata por fazer parte dessa construção, em meio a uma comunidade forte e empenhada. Gratidão a todos que torceram e vibraram por mim e pelo sucesso do evento, vida longa! Seguimos por mais! Pra frente e pra cima!
Francieli Kiekow
(empresária, corredora amadora, bicampeã brasileira de short-trail e apaixonada por esportes e experiências em trilha e montanha). @frankiekow
Imagens: CBAt / The Hill Race / Arquivo pessoal















