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A pesquisa como um instrumento coletivo de fala para as mulheres corredoras (por Aline Davila)

  • 12 de ago.
  • 3 min de leitura

O Movimento das Mulheres Corredoras realizou duas pesquisas de forma autônoma e independente, contando com o apoio de mulheres corredoras para a divulgação e expansão através do Instagram. A primeira pesquisa foi realizada em agosto de 2024, destinada a corredoras da cidade de Porto Alegre/RS, período e local em que o Movimento surge. A segunda pesquisa foi realizada em agosto de 2025, buscando compreender o cenário sobre violência sexual em um nível maior, sendo assim, destinada para mulheres corredoras a nível nacional.


Mesmo sendo realizadas em períodos diferentes e com um ano de diferença entre elas, ambas tinham como objetivo saber sobre as violências sexuais vividas por corredoras nos espaços públicos da cidade durante seus treinos de corrida. A pesquisa de 2024 contou com 517 participantes, contemplando apenas 1 cidade; a pesquisa de 2025 contou com 388 participantes, contemplando 16 estados brasileiros, sendo a maioria do Rio Grande do Sul e São Paulo, seguidos de Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal. Neste mês de agosto de 2026, que simboliza o mês de enfrentamento da violência contra mulheres, estaremos lançando publicamente os resultados da segunda pesquisa.



Nossa pesquisa é um instrumento novo nesta relação com o tema e com o meio, ainda não aglutinou uma ampla camada do conjunto das mulheres que correm a nível nacional, mas inaugura o caminho para apresentar uma dimensão mais coletiva e social de uma situação.


Para cada mulher que lê os resultados da pesquisa, certamente não se depara com algo novo, porque nós somos as pessoas que vivenciam estas violências no cotidiano e infelizmente conhecemos muito bem este cenário. Porém, quando todas as mulheres, quando todas as pessoas, independente da identidade de gênero, têm acesso aos resultados de uma pesquisa, visualizam essas respostas no seu formato mais coletivo, evidencia-se algo no seu sentido mais amplo.


Das 388 corredoras que responderam à pesquisa, 79,1% afirmam correr sozinhas, 83% utilizam os espaços públicos das cidades, como parques, orlas e pistas, 83% afirmam que não se sentem seguras nestes locais. Questionadas se o sentimento de insegurança e medo atrapalha seus treinos, 97,4% dizem que sim.



O que mulheres corredoras muitas vezes enfrentam sozinhas nas suas rotinas de treinos tem nome: 71,6% afirmam ter sofrido assédio sexual e 60,8% importunação sexual. Quando questionamos se estas violências sexuais ocorreram nos espaços públicos, 58% dizem que sim e 42% dizem que não, ou seja, nos espaços de treinamentos privados também estamos sendo violentadas. São 388 mulheres corredoras dando maior visibilidade para o problema que elas enfrentam, aparentemente sozinhas.


Ao responderem à pesquisa do Movimento, estas corredoras estão compreendendo a importância de também utilizar e existir mais este recurso para falar sobre a violência sexual nos espaços da corrida. O diferencial desta segunda pesquisa, além de sair da esfera de uma única cidade, foi também que ela teve maior foco em buscar compreender o que as mulheres pensam sobre possíveis prevenções, tanto na esfera individual quanto na esfera coletiva e institucional, a exemplo destes dois quadros:



Ao longo destes dois anos de Movimento, ficou evidente o tabu que existe nos espaços da corrida quando se fala em violência sexual e de gênero, e isso não é algo específico do esporte, mas uma expressão da sociedade como um todo, que nos faz, por diferentes instituições, motivos e métodos, silenciar diante destas violências. A educação do silêncio é uma segunda violência. A pesquisa também pode ser considerada um meio de abrir este caminho de romper com silêncios e fortalecer um lugar coletivo de fala, bem como ajudar a dar acesso e ampliar o conhecimento.


A pesquisa apresenta-se como um instrumento de opinião e, para nós como Movimento, também torna-se importante compreender o que as mulheres corredoras pensam sobre algo que está intimamente ligado à nossa existência e qualidade de vida. A exemplo da pergunta que fizemos se as corredoras sabiam a diferença entre assédio e importunação sexual, 15,5% responderam que não; 97,9% dizem não fazer boletim de ocorrência quando sofrem alguma destas violências, sendo que 24,3% não sabem como proceder nestes casos e 9,6% desistem pelas dificuldades no acesso online. E ainda, para 79,4%, as práticas de autodefesa podem ajudar as mulheres a se sentirem mais seguras.


A pesquisa pode e deve servir para uma reflexão individual e sobretudo coletiva, qualificar nossa leitura diante dos nossos espaços, relações e vivências, pode estimular um novo olhar e busca por mudanças diante desta cultura da violência contra mulheres, seja ela qual for. O Movimento com suas ações tem sido o pioneiro em colocar o problema na sua esfera pública e coletiva nos espaços da corrida, porque a violência sexual e de gênero é um problema coletivo, portanto, precisa ser falado, pensado e mudado de forma coletiva.


Acompanhe a divulgação dos dados da pesquisa no @movimentodasmulherescorredoras.


Aline Davila

Corredora de rua e propulsora do Movimento das Mulheres Corredoras

@aline.fdavila Imagens: @karol.feel.

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