O coração do corredor e a prevenção de tragédias nas ruas e nas trilhas (por Dr. Gustavo Carneiro)
- 4 de ago.
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Atualizado: 4 de ago.
Neste último domingo, durante a SP City Marathon 2026, fomos surpreendidos com a triste notícia da perda de um atleta de 50 anos — um corredor experiente que já havia cruzado a linha de chegada e conquistado sua medalha.
Como médico e apaixonado pela corrida, esse episódio me move a fazer um alerta fundamental a todos que praticam o esporte: independentemente da distância (sejam 5 km, 10 km, meia maratona ou maratona), do porte físico ou da idade, a realização de exames médicos e cardiológicos periódicos é indispensável.
A corrida de rua e de trilha cresce a passos largos no Brasil, trazendo superação, saúde e qualidade de vida para milhares de pessoas. Contudo, o esforço físico elevado exige muito do sistema cardiovascular, e fatalidades como essa geram um receio natural na comunidade esportiva. Nosso objetivo aqui não é desestimular a prática — muito pelo contrário —, mas conscientizar sobre a importância da prevenção.
Contexto e estatística
Pesquisadores estimam que a taxa de mortalidade em maratonas (Marathon Fatality Rate) seja extremamente baixa: cerca de 1 morte para cada 150.000 participantes. É essencial destacar esse dado para não desencorajar novos praticantes, lembrando sempre que infinitamente mais pessoas morrem todos os dias em decorrência das complicações do sedentarismo (como infarto, AVC e hipertensão não controlada) do que durante a prática do esporte. A corrida continua sendo uma das maiores aliadas da longevidade.
As causas de morte súbita no esporte
Para que o esporte traga apenas benefícios, precisamos entender o que está por trás dessas fatalidades, cujas causas variam significativamente conforme a faixa etária do atleta:
Até 35 anos: As causas mais frequentes estão ligadas a condições estruturais e elétricas do coração, como má formações congênitas, coronárias anômalas e doença arritmogênica.
Acima de 35 anos: A principal causa passa a ser a Doença Arterial Coronariana (DAC).
A DAC é caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura, colesterol e cálcio (processo conhecido como aterosclerose) nas paredes das artérias coronárias — os vasos responsáveis por irrigar e levar oxigênio ao próprio músculo cardíaco.
Com o passar dos anos, essas placas podem restringir o fluxo sanguíneo ou, pior, romper-se subitamente durante ou logo após um esforço físico de alta intensidade. Quando isso ocorre, forma-se um coágulo que bloqueia a artéria de forma aguda, podendo desencadear um infarto fulminante ou arritmias graves.
O maior perigo da DAC é ser uma doença frequentemente silenciosa: o atleta pode se sentir bem e ostentar um ótimo desempenho nos treinos até o momento do evento catastrófico. Por essa razão, a checagem médica periódica é o único caminho para identificá-la a tempo.
Tanto a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) quanto a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) possuem diretrizes bem estabelecidas sobre os exames necessários para a prática segura de exercícios. É uma responsabilidade compartilhada entre médicos, esportistas e organizadores garantir que essa rotina seja cumprida:
1. Exames e Avaliações Recomendados para Esportistas e Atletas (Geral)
Para qualquer pessoa que pratica ou deseja iniciar na corrida, o protocolo de rastreamento inclui:
Anamnese e Exame Físico (Avaliação Clínica Pré-Participação - APP): Consulta inicial direcionada para investigar o histórico pessoal e familiar, além de sintomas como síncope (desmaio), dor torácica, palpitações ou dispneia (falta de ar).
Eletrocardiograma de Repouso de 12 Derivações (ECG): Exame inicial básico para identificar arritmias e alterações na condução elétrica do coração.
Exames Laboratoriais de Rotina: Hemograma completo, glicemia de jejum, função renal (ureia e creatinina), eletrólitos (sódio e potássio), perfil lipídico completo, ácido úrico, função hepática (TGO, TGP, gama-GT, bilirrubinas), coagulograma (TP/INR) e urina tipo 1.
Exames em situações específicas: Eletroforese de hemoglobina (para treinos/provas em altitudes superiores a 2.000 metros) e sorologia para Doença de Chagas (para indivíduos vindos de áreas endêmicas).
Teste Ergométrico (TErg) / Teste de Esforço: Indicado no início de programas de treino de alta intensidade ou competição, e no início de temporada para atletas.
Teste Cardiopulmonar de Exercício (TCPE / Ergoespirometria): O exame de escolha para avaliar com precisão a capacidade aeróbica, determinar limiares de treino e identificar limitações ao esforço.
Ecocardiograma: Indicado quando houver suspeita clínica, histórico familiar relevante ou alterações no ECG/teste de esforço.
2. Exames Complementares para Praticantes com Mais de 35 Anos
A partir dos 35 anos, a Doença Arterial Coronariana passa a ser a principal causa de eventos cardiovasculares no esporte. A rotina para essa faixa etária exige atenção redobrada:
Eletrocardiograma (ECG) de Repouso de 12 Derivações [MANDATÓRIO]: Item obrigatório na avaliação pré-participação.
Avaliação Específica de Risco Coronariano: Estratificação detalhada do risco de desenvolvimento de DAC com base no perfil clínico e metabólico do paciente.
Teste Funcional (Teste Ergométrico ou Ergoespirometria):
Dos 35 aos 59 anos: Recomendado para rastreamento precoce de isquemia miocárdica e orientação do treinamento.
Acima de 60 anos: Faz parte do protocolo de rotina obrigatório.
Angiotomografia de coronária: Exame de imagem menos invasivo para diagnóstico de obstrução de artérias.

Recado Final aos Corredores
A medalha no peito é motivo de orgulho, mas a sua vida vale incomparavelmente mais. A avaliação médica periódica não é uma formalidade burocrática; é a ferramenta que garante a sua segurança.
O esporte salva vidas quando praticado com responsabilidade. Treine com orientação, escute os sinais do seu corpo e consulte um médico do esporte ou cardiologista antes do seu próximo desafio.
Dr. Gustavo Carneiro
Médico do Esporte e Cirurgião Cardíaco (@cardioexcelencia)
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