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Por que corro maratonas descalço (por Ícaro Novais)

  • há 6 dias
  • 2 min de leitura

Confesso que tenho uma brincadeira comigo mesmo que é a seguinte: toda vez que alguém me pergunta a razão de eu correr descalço — ou de sandálias —, dou uma resposta diferente. Nessa, me lembro de já ter dito que corro assim porque tênis é caro; porque meu pé é largo; porque é melhor pensando em longevidade; porque lesiona menos; porque, quem sabe, correr descalço é ser anticapitalista; porque tem uma dupla de ortopedistas estadunidenses que defende a corrida descalça; porque tem uma tribo mexicana, os Rarámuri, que corre assim a vida toda; porque os tênis — e sapatos — como os conhecemos hoje são uma invenção recente na história; porque dá uma brisa (e dá mesmo, rs)... e por aí vai.


Mas a verdade é que hoje eu corro assim porque, assim como o jejuador de Kafka que ainda não descobriu a comida de que gosta, eu ainda não descobri o tênis que me convença a abandonar meus próprios pés nus.



E digo isso como uma pessoa que já entrou na onda dos sneakerheads, acumulando seis pares de tênis, um para cada tipo de treino, na certeza de que aquele era o caminho certo a se seguir — o caminho da grande maioria dos corredores. A planta dos pés apertava, as unhas ficavam pretas, a canelite incomodava, mas, bem, fazia parte do jogo, é assim que as coisas são.


Até que um dia, já com apenas um tênis de corrida — um Saucony Kinvara 11 preto de que, confesso, tenho saudades —, deixou de ser assim. Tirei o tênis para fazer um longuinho de 12 km, debaixo do sol quente da cidade de São Luís, e tudo pareceu tão... certo. Era como tinha que ser. Foi assim porque eu era uma criança que brincava descalça na rua? Porque nossos ancestrais corriam assim? Porque é a forma mais natural de correr? Jamais saberei, de verdade. O que eu sei é que me pareceu certo, claro, fácil, como tudo devia ser.


Algo parecido acontece com o jejuador de Kafka, que mencionei há pouco: o homem passa mais de 40 dias sem comer, sendo uma atração de circo, porque... sim, porque é assim que as coisas são para ele. Ainda que seja uma atração de circo — como às vezes, admito, me sinto —, jejuar é somente a condição de vida dele. É o certo, é o fácil, é como tudo devia ser.


Não digo que um dia não possa correr de outra forma, usando tênis caro com placa de carbono, nem que todo mundo devia correr descalço; acredito, na verdade, que viver é mudar e que é bom estar de peito aberto para as coisas novas que a vida nos traz. Mas posso afirmar, com muita tranquilidade e satisfação, que correr maratonas com os pés nus nos asfaltos das cidades tem sido uma aventura e tanto — tal como é correr de tênis, de sandálias ou em cadeiras de atletismo.


Ícaro Novais

Apenas um professor correndo descalço

@correicaro



Imagens: Arquivo pessoal.

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