Locução de provas de corrida de rua: caminho que abri e sigo pavimentando (por Aline Davila)
em outubro completei dois anos trabalhando com locução esportiva de provas de corrida de rua. neste período transitei entre muitos pensamentos e sobre questões bem concretas de como eu deveria conduzir este trabalho. me deparei em ter que entender qual era o preço que eu deveria cobrar, de ser contratada com preços inferiores em relação aos homens locutores, tive indicações para realizar as locuções, tive alguns orçamentos negados, mandei mensagem para algumas empresas esportivas, levei alguns vácuos e alguns nãos. na maioria dos espaços em que realizei a locução fui muito bem acolhida pelos organizadores, corredores e corredoras.
fiz oito locuções até o momento, sendo o ano de 2026 o ano que mais realizei o trabalho, não foram muitas locuções neste período e ainda neste ano acredito que irei completar dez trabalhos realizados, mas, foi e ainda é um caminho que construo ativamente, porque é uma busca constante para tornar sólida a locução feminina de provas de corrida de rua e do meu papel na construção deste trabalho que exige reflexão e planejamento.
a locução entrou na minha vida por um acaso, destes bem bons. eu estava fazendo uma fala pública para corredores e corredoras no Salve Corre, um coletivo de corrida de rua que corre uma vez por semana pelo centro da cidade a noite, e em uma destas noite eu falava em um megafone em cima de um banco sobre a violência sexual contra mulheres corredoras nos espaços públicos da cidade. nesta noite do Salve Corre, o Alex e a Rô, proprietários de uma empresa de eventos esportivos estavam presentes e ao me verem disseram (conforme me contaram depois): ta aí a nossa locutora. ao conversar com eles expliquei que nunca havia feito este tipo de trabalho, então fui desafiada a faze-lo.

quando me lancei a este desafio não fiz planejamento, não pensei em perspectivas futuras, eu apenas queria me experimentar nisso, aprender sobre este trabalho. eu queria vivenciar o presente, o que estava posto. mas, mesmo que isso pudesse ser um experimento pontual, eu tive a preocupação de buscar saber quem eram as locutoras mulheres na minha cidade, no meu estado e no meu país.
mesmo eu sendo corredora de rua, participando de provas e espaços da corrida, a locução feminina não existisse pra mim e de fato não existia em Porto Alegre. eu nunca havia pensado sobre mulheres na locução de provas de corrida de rua, isso só passou a existir e me abrir para este olhar quando eu sou convocada a estar neste lugar. o fato de homens historicamente ocuparem os postos de trabalho no esporte, mas não só, faz com que ocorra esta normalização do masculino frente às ocupações de espaços de trabalho.
neste campo que se abre, me vi diante de algo completamente desconhecido, algo que eu precisava aprender e na pesquisa sobre este trabalho consegui descobrir e acessar mulheres locutoras, que me receberam muito bem, me trazendo o nome uma das outras, as cidades que estavam, dizendo os empecilhos deste campo, me dando as boas vindas, me incentivando a seguir e me deixando a porta aberta. em 2024, quando conversei com algumas locutoras, descobri que na época, nós mulheres locutoras ativas éramos aproximadamente umas 10 no país. pesquisei em plataformas digitais, conversei com corredores e corredoras, com locutores aqui de Porto Alegre e descobri que não havia uma locutora mulher na corrida de rua na minha cidade e no estado. então, eu entendi que o desafio era maior do que eu pensava.

me experimentando neste lugar, me trouxe, e ainda me traz, muitas indagações pessoais. eu tinha condições de ser uma locutora de corrida de rua sendo que não tenho aquela voz mais grave? como eu devo e quero construir essa narrativa nas provas, junto aos corredores e corredoras? os corredores e corredoras se importam com isso? eu como corredora me importava com a locução? o que eu quero e como quero me comunicar? eu gosto de estar ali naquela posição exposta ao olhar do outro, acertando ou errando?
são questionamentos que seguem em mim e muitos sem respostas concluídas. a locução de corrida de rua desde o início é um lugar de inquietações, me movimenta por outro ponto do esporte ao qual eu não tinha experiência, não tinha referência. e sinto que é um caminho meio solitário pra mim. é um trabalho em permanente construção e não me refiro só ao dia que executo o trabalho em si, porque ele não começa nem termina ali na prova, mas vem exigindo um certo planejamento e a construção de um objetivo melhor definido pra mim. ao longo do processo, que as locuções foram sendo ofertadas, acordadas e executadas, eu fui me perguntando: eu quero ser uma locutora de provas de corrida de rua?
parece que eu não sei dizer sim e também não sei dizer não, mas o fato é que eu sou uma locutora de prova de corrida de rua. eu sou a primeira na minha cidade e no meu estado. já achei que isso era pouco, nunca achei que fosse muito, mas foi e é um caminho que abri e sigo pavimentando.
Aline Davila
Locutora, corredora de rua e propulsora do Movimento das Mulheres Corredoras
@aline.fdavila / @movimentodasmulherescorredoras
Imagens: Amanda Zeni / Arquivo pessoal.



