Ciclo menstrual, segurança e autocobrança: treinar mulheres exige um olhar mais atento (por Gisele Campoli)
O número de mulheres que praticam algum esporte aumenta a cada ano. Nas Olimpíadas de Paris 2024, elas representaram 50% dos atletas, a primeira vez na história que houve paridade de gênero nos Jogos. Na delegação brasileira, foram a maioria: 153 mulheres em um total de 276 atletas.
Esse aumento também ocorreu no esporte amador. Hoje, temos mais mulheres praticando esportes e, por consequência, mais mulheres correndo. Nesse contexto, preparar um treino que atenda as demandas femininas é sempre desafiador e, pela minha experiência como treinadora, é importante levar em consideração três aspectos principais:
1) Compreender o ciclo menstrual: É preciso entender que isso ocorre de forma diferente em cada mulher e depende de fatores como idade e utilização de hormônios (seja no uso de anticoncepcionais, como também na forma de reposição para mulheres na menopausa). Muitas têm optado por utilizar recursos e não menstruar, e isso também altera o planejamento. Dessa forma, não existe uma regra para ser seguida. Cada mulher vai necessitar de um treino que atenda às suas necessidades específicas.
2) Outra questão importante é como e onde encaixar os treinos, já que nem todas têm acesso a um parque com estrutura e segurança para correr. Muitas acabam optando por treinar em esteiras porque se sentem mais seguras. É um problema de segurança pública e não ocorre apenas no Brasil. O meu papel é sempre tentar ajudar, fazendo ajustes nos treinos e reforçando que o melhor é correr, independente se for na esteira ou na rua.
3) Talvez o mais importante e desafiador dos fatores seja convencer a mulher de que ela não deve se cobrar tanto em um mundo que exige que ela seja ótima em tudo (no trabalho, na maternidade, nas relações familiares e sociais etc.). É fazer com que ela goste do esporte e que isso traga algo positivo para a sua vida. O que sempre procuro fazer é um trabalho de reflexão e aceitação, principalmente alertando para não se comparar com outras mulheres pois cada uma está em uma fase da vida e possui uma bagagem esportiva diferente.
Gisele Campoli
Treinadora e sócia da G+ Treinamento Esportivo @gisele_campoli / @gmaistreinamento

Imagem: Alécio Cezar



