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Memórias de um corpo altiplano (por Aline Davila)

  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

o corpo. esta matéria orgânica que nos transporta por esta dimensão de tempo e espaço que denominamos de vida. é ele quem nos conduz pelos mais variados caminhos, que enfrenta os obstáculos e que carrega a memória da trajetória. o corpo. é ao mesmo tempo transporte, território e história.


desde o dia que soube que iria para a oficina altiplano na Serra da Mantiqueira, eu entendi que colocaria meu corpo em um lugar estranho e que ele responderia de uma forma que eu talvez desconhecesse. um corpo que corre não necessariamente se coloca em total condições de correr em qualquer terreno, velocidade e distância.


o que aquele destino me reservava? era isso que eu me perguntava. meu corpo não havia cruzado por este caminho correndo, não havia história e memória sobre correr em trilhas e em trilhas altiplano. eu ia gostar? meu corpo daria conta?



ir para uma oficina e uma vivência de trail foi me colocar de frente para algo desconhecido, algo novo. isso gerava em mim uma curiosidade imensa. um frenesi. eu desconhecia o deslocamento entre as cidades, o tipo de treino que lá seria feito, desconhecia o território que eu iria correr, o equipamento, a técnica. desconhecia as pessoas que lá estariam. eu não sabia ao certo qual aline iria encontrar.


meu gosto e tesão na corrida estão na selvageria de treinar na sua dinâmica mais explosiva. meu lado mais passional se conecta aqui. e por alguma razão eu sabia que não era isso que eu iria encontrar no altiplano.


sábado, 14 de março de 2026. fizemos aproximadamente 10 km com 300 D+ que ficaram divididos entre as oficinas de bastão, subidas e descidas no Morro do Cupim, e um Fartlek no Circuito do Serrotinho. essa primeira parte foi toda bem coletiva, com trocas e interações e, em nenhum momento, estive correndo sozinha. neste primeiro momento de oficinas e circuitos, eu fiquei impressionada com as descidas. eu tive medo da velocidade que atingi em algumas descidas. medo de cair, sair rolando, ao mesmo tempo uma adrenalina intensa de fazer aquilo. eu ria. as descidas são avassaladoras.


após esta primeira parte, fizemos uma pausa e poderíamos fazer novamente o Circuito do Serrotinho ou o Circuito dos Lagos que seria de 16 km com 500 D+. fiquei na duvida se meu corpo daria conta, mas, decidi me experimentar na trilha dos 16 km.


em nenhum momento eu pensei em ligar gps ou até mesmo cronômetro para saber quanto tempo levaria fazendo as trilhas. eu saí para estes 16 km já levando o peso dos 10 km de trilhas altiplanos nas pernas. lembro que bem no início da trilha o primeiro pelotão saiu e eu segui atrás, ali eu me disse: vai com calma aline. meu ritmo me posicionou entre o primeiro pelotão e os demais. percorri sozinha os 16km e estar sozinha neste segundo momento permitiu uma vivência completamente diferente do anterior.



o Circuito dos Lagos era de uma paisagem ora de mata fechada, ora céu aberto. poder correr sentindo o frescor da mata era um alívio ao corpo. estava muito quente, o corpo precisava desse refresco. lembro que quando saí da mata fechada e cheguei no primeiro lago, parecia que haviam aberto um portal para eu atravessar. me senti em um cenário de filme. eu só sorria olhando aquilo. em uma outra parte do percurso, de estrada de chão

aberta inclinada e desregular, o calor pegou. eu caminhava a passos firmes com as mãos nos joelhos. o céu estava bem azul, as nuvens bem brancas e eu cavava força em mim pra seguir me movimentando.


em alguns momentos, as subidas pareciam ser intermináveis, quando eu achava que terminariam elas continuavam subindo. pareciam querer me fazer sucumbir, mas existia uma gana de vencê-las. eu ficava curiosa para saber o que viria depois delas, qual era a paisagem seguinte? quando as subidas terminavam geravam um alívio momentâneo e uma vontade de correr mesmo parecendo me faltar forças para fazer isso. eu me sentia exausta e continua querendo correr. meus tornozelos me diziam algo e as solas dos meus pés também. mas, qualquer desgaste muscular parecia extremamente contornável frente a minha vontade de correr ali naquele chão. mesmo quando eu precisei caminhar, eu queria correr.


meu corpo acabou esta experiência sentido uma exaustão e um alívio gigante ao mesmo tempo. imediatamente após finalizar, eu mergulhei minhas articulações das pernas e meu quadril em um lago de águas naturais e frias. foi uma delícia. depois aqueci o corpo numa boa ducha de água quente, o alimentei, estiquei-o sobre a grama e o expus ao sol a lagartear. proseei com as pessoas que lá estavam, ouvi suas experiências com trail, fiquei sabendo um pouquinho sobre suas vidas. à noite aqueci meu coração com conversas e uma boa taça de vinho antes de dormir.


a trajetória não começa no altiplano e nem termina lá, meu corpo cruzou por lá. trago nele a primeira memória sobre trilhas e esta pequena história que me permiti viver. e está em meu corpo a vontade de voltar.


Aline Davila

Corredora e propulsora do Movimento das Mulheres Corredoras

@movimentodasmulherescorredoras

@aline.fdavila


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Alina Davila participou em março do Corre Junto Oficinas Altiplano, um dia de treinamento de corrida de trilha na Serra da Mantiqueira com orientação de treinadores, apoio de hidratação e alimentação, fisioterapia, médica socorrista e ambulância. Se você quer viver essa experiência, saiba mais em: https://www.instagram.com/correjunto.br/.


Imagens: Alecio Cezar

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