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Não é sobre desafio, nem superação. É sobre a vida e as suas surpresas (por Rosa Noronha)

  • Foto do escritor: Eric Akita
    Eric Akita
  • 29 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Minha conexão é com o trail e as montanhas. E talvez por conta disso, nunca passou pela minha cabeça fazer uma maratona. Há uns 3 anos nosso então treinador de corridas montou um grupo para percorrer, durante 4 dias, o Caminho da Fé. Foram 140km de caminhada de São Sebastião do Paraíso (MG) até Aparecida do Norte. Quando acabei, pensei: "se consegui fazer tão bem, acho que algum dia consigo fazer uma maratona".


Em 2023 acabei fazendo a Maratona de Berlim e achei que tivesse "ticado" isso da lista. Mas aí veio a Maratona de Xangai e a notícia de que ela estava buscando entrar para o circuito das Majors. Com nosso filho morando em Xangai e com a minha admiração (paixão) pela China, entramos quase que de brincadeira no sorteio. E fomos sorteados. Tudo casando direitinho: já tínhamos planos de ir para o final do ano, a maratona sendo em 30 de novembro, hospedagem na casa do filho. Tudo certo! Só que não.



O imprevisto no percurso


Como sempre digo, "a vida não combina as coisas com a gente". No dia 12 de outubro fui internada com uma diverticulite de perfuração contida. Durante dois dias, fiquei com um pé no centro cirúrgico e outro no quarto de hospital, antibióticos na veia.


Não precisei operar, mas o prognóstico foi de mais duas semanas extras de antibióticos, zero esforço, mínima movimentação, esquece corrida, esquece treino, nada de academia, acho que nem yoga poderia. A viagem estava mantida, afinal o Natal e o Ano Novo seguiam na programação familiar. Maratona? Ah, vamos lá, a gente pega o kit, os brindes e paciência... não vamos correr.


A decisão na Expo Xangai


Seis semanas se passaram entre a internação e o dia de pegar os kits na Expo Xangai. Até então, diante do prognóstico de "treinos só em janeiro", a única coisa que fiz foram quatro (literalmente isso) caminhadas de 10k, arriscando trotar 1k e caminhar 2k.


Na retirada do kit, começou a bater aquele friozinho na barriga. E se nós fôssemos só para ver a largada? Já estamos inscritos mesmo! A gente vai, tira umas fotos, de repente trotamos um pouquinho uns 5 ou 10k e deu... No domingo, dia 30, estávamos lá com os 38 mil corredores, mas com zero expectativa, até porque Xangai coloca pontos de corte a cada 5km: não passou ali no horário, você é retirado da prova. Ou seja, mais um argumento para nem pensar em linha de chegada dentro do tempo máximo da prova.



A prova da resiliência


Só que, se a vida não combinou comigo que eu teria uma diverticulite, eu também não combinei com ela que não tentaria a maratona. Quando demos conta, estávamos nos 10k. E o corpo sem dar nenhum sinal de alerta os quais eu tive que passar a prestar atenção desde a internação (dor, febre, sangramento, vai pro hospital imediatamente!).


Vieram os 15k, terceiro ponto de corte superado com margem boa de tempo, zero dor. Olha aí os 25k, mais da metade da prova, tudo normal. O que? Já estamos no 35k? Sem o famoso muro? Não estou sentindo nada? Agora falta pouco. Quando me dei conta, eu estava cruzando a linha de chegada dos 42k 195m (a distância exata eu faço questão de lembrar) com um tempo de 5h45m. Longe de ser o tempo que fiz na Maratona de Berlim, mas muito mais longe de todos os prognósticos dos médicos do hospital de que seria impensável participar.



Reflexões de uma "Louca Responsável"


Seis semanas sem treinar nada, sem fazer fortalecimento, sem a planilha da minha treinadora Thelma D'Amelio, sem as orientações nutricionais da Glaucia Lippel nem as mãos profissionais da Fernanda Rizzo. Encarei e finalizei uma maratona. Repetiria? Não. Recomendaria? Claro que não. Jamais seria irresponsável de dizer para qualquer pessoa "vai que dá". Precisa de treino, fortalecimento, plano nutricional, fisioterapia preventiva, precisa do ciclo completo.


Mas deu. E acho que o que mais contou foi a torcida silenciosa das pessoas que me apoiaram moralmente durante as semanas pós-internação. Foi o carinho da minha médica do esporte Raquel Marques Luz, das minhas amigas do grupo de corrida. E foi o apoio do Celso, que também tinha desistido dos treinos para ficar comigo, porque literalmente nós somos #correjunto. Cruzamos a linha de chegada juntos, rindo e chorando de alegria porque somos dois loucos 60+. Mas somos loucos responsáveis.



Dicas para correr em Xangai


E finalizo meu relato com algumas dicas para quem pretende correr a Maratona de Xangai algum dia:


- Site Oficial: O site oficial da Maratona de Xangai é o https://static.shang-ma.com/web/index.html. Já estão mostrando a contagem regressiva para 2026.


- Pagamentos e Apps: A maratona de Xangai segue a regra dos sorteios. Se você for sorteado, baixe o aplicativo Alipay e cadastre o seu cartão de crédito, porque uma vez lá, tudo será pago com ele. Na China o uso das maquininhas de cartão não é muito comum. Transporte, comida, Uber (lá se chama Didi), tudo é feito nesse app.


- Visto e Entrada: Brasileiros não precisam de visto, mas na chegada no aeroporto tem que preencher um documento dando suas informações (hotel, tempo de estadia).


- Fuso Horário: A China é do outro lado do mundo, o ideal é chegar com pelo menos 4 dias antes da prova para se acostumar com o fuso. Se tiver como quebrar a viagem parando 1 a 2 dias na Europa ou Dubai já ajuda a dar uma aliviada.


- Hospedagem: Reserve o hotel com a máxima antecedência para pegar boas tarifas.


- Alimentação: Em Xangai você encontra comidas do mundo todo, mas você irá encontrar mais comidas chinesas. Como comerá mais carboidratos, terá muitas opções de lámen a preço baixo. Mas no geral a comida, assim como o transporte, é muito barato. Só tem que tomar cuidado com a pimenta.


- Treinos e Lazer: Muitas estações do metrô levam a parques na beira do rio. Você não irá se arrepender de correr nesses lugares com toda infra de banheiros a cada 500m com água potável, além de cafés e lanchonetes.


- Vejo muita ignorância sobre a China: mitos sobre segurança, controle excessivo ou hábitos alimentares caricatos. Há quem ache, inclusive, que a polícia baterá na sua porta sem motivo. Estude e conheça bem qualquer lugar para onde você pretenda ir — seja o Nordeste brasileiro, a Europa, um país árabe ou a Ásia. O grande erro do brasileiro é achar que o mundo inteiro deve se adaptar à sua cultura, quando o esforço deve ser o contrário.


Rosa Noronha

Educadora física, acupunturista e microfisioterapeuta




Imagens: Arquivo Pessoal / @shanghai.marathon


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