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Superando grandes desafios para voltar a correr: a redescoberta de um propósito (por Silvia Schreer)

  • Foto do escritor: Eric Akita
    Eric Akita
  • 9 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Voltar a correr depois de uma grande adversidade é mais do que um retorno ao esporte. É um reencontro com o próprio corpo, com a própria história e com a própria identidade. Nos meus anos de terapeuta atuando na área esportiva, percebo isso com uma certa frequência: atletas que já performaram muito, mas que, de repente, se veem frágeis, vulneráveis, inseguros - e ao mesmo tempo, com uma vontade imensa de recomeçar.


Esse processo não é linear. Ele exige coragem, exige paciência, exige olhar interno. Vou contar sobre dois exemplos inspiradores recentes: o paciente do cardiologista e médico do esporte Dr. Gustavo Carneiro, que correu a Meia de Sampa após uma "reconstrução do coração" (termos técnicos e detalhes da cirurgia vou deixar para ele um dia contar....mas sei que foi algo grandioso) e a paciente que tive o prazer de acompanhar no final da  preparação para a Maratona de Nova York depois de finalizar um tratamento contra um câncer de mama, alguns meses antes. Ambos tinham algo em comum: o receio e a insegurança de não dar conta e a profunda vontade de se provar vivos, presentes e capazes.


Quando a insegurança encontra o desejo profundo de superar


É muito comum que atletas que já performaram bem no passado sintam uma mistura intensa de insegurança e sede de superação quando precisam recomeçar. A mente compara automaticamente com "quem eu era" - o pace que eu tinha, o corpo que respondia, a confiança interna.


Mas recomeçar depois de um trauma, lesão, adoecimento ou interrupção prolongada é entrar em uma nova fase da vida esportiva - uma fase que não exige ser igual ao passado, mas que convida a construir algo novo.


O medo aparece porque o corpo não responde como antes. A mente duvida. A comparação interna ativa frustração. E ainda assim... há um desejo enorme de seguir. Essa é a beleza do processo. Da nova jornada desafiadora. Quando a insegurança e o desejo coexistem, nasce uma oportunidade para o desenvolvimento psicológico do atleta.


Enfrentar o medo não é eliminar o medo - é aprender a correr com ele


Tanto no caso da Meia de Sampa quanto no caso da Maratona de Nova York, o medo estava presente o tempo todo. Medo de falhar. Medo de decepcionar. Medo de sentir dor. Medo de não completar. Medo de "não ser mais o mesmo". Mas o medo não é sinal de fraqueza - é sinal de importância. Tudo aquilo que importa, dá medo.


Porque importa, mexe com a identidade, mexe com valores, mexe com histórias internas profundas.  E como trabalhar isto psicologicamente? Basicamente dou algumas dicas: 

* Nomear o medo (dar forma e entender a origem). Ele não desaparece, mas ele muda de lugar. Te acompanha, não te paralisa.

* Diminuir a fobia do pior cenário ("e se... e daí?").

* Criar âncoras de segurança (frases, imagens, respiração, visualizações, músicas).

* Relembrar a história de superação (de onde veio, o que já enfrentou).

* Construir confiança baseada no processo, não no pace.


Para quem já foi atleta e hoje performa menos - por idade, rotina, lesões, doença, ou qualquer processo de vida - a motivação precisa ser ressignificada.

Essa é uma das maiores dificuldades. Querendo ou não, o atleta compara:

"Eu corria muito mais."  "Meu pace era X."

"Antes eu fazia isso sem esforço."

"Eu já fui melhor."

Só que a pergunta que transforma é:

"Por que isso importa tanto para você agora?"


E, geralmente, as respostas são:

* Porque quero me sentir vivo de novo.

* Porque quero um objetivo que me lembre quem eu sou.

* Porque quero provar para mim que ainda posso.

* Porque quero honrar minha história.

* Porque o esporte me conecta com algo maior.


Quando o atleta encontra esse "porquê", ele se reencontra. E isso faz toda a diferença.


A maratona depois do câncer: correr como renascer


A paciente que correu a Maratona de Nova York após o tratamento contra o câncer não estava apenas correndo 42km. Ela estava correndo pela vida dela. Pelos filhos. Pelo marido. Pela família.  Pelo corpo que resistiu. Pela história que poderia ter sido interrompida. Por gratidão. E, ainda assim, tinha pouquíssima experiência com corrida. Esse contraste é extraordinário. Para ela, a corrida não foi performance - foi significado.


Não foi pace - foi presença. Não foi resultado - foi renascimento.


E é exatamente esse tipo de história que nos lembra que o esporte é maior do que números. Ele é ferramenta de identidade, esperança, coragem e reconstrução.

Reparem que em ambos os casos, cada paciente enfrentou seus próprios medos, cada um à sua maneira. Tanto o atleta que voltou para a Meia de Sampa quanto a paciente que encarou a Maratona de Nova York depois de um tratamento difícil recomeçaram de um lugar vulnerável, onde a dúvida e a esperança convivem lado a lado.


Antes de se sentirem fortes novamente, passaram por fases em que se perceberam mais frágeis, mais lentos, mais inseguros. Ainda assim, seguiram. E essa persistência só foi possível porque tiveram apoio emocional e mental bem estruturado, alguém para sustentar o processo enquanto reconstruíam a confiança no próprio corpo e na própria trajetória. No fim, ambos descobriram algo essencial: não precisavam ser "os mesmos" de antes - só precisavam estar presentes, inteiros naquele momento. Voltaram a correr não para provar nada a ninguém, mas para se reconectar com aquilo que os mantinha vivos por dentro.


Escrever sobre grandes desafios é, no fundo, escrever sobre humanidade. Porque, apesar das histórias diferentes, todos nós deveríamos retomar aquilo que nos faz sentir quem realmente somos. Voltar a correr depois de um trauma - seja o câncer, seja a pandemia, a depressão, uma lesão ou qualquer período difícil - não tem relação com pace, medalhas ou performance. O que está em jogo é a coragem. É presença. É a chance de voltar a confiar no corpo e acreditar novamente na própria história. É permitir que o esporte se transforme em um novo capítulo, e não em uma comparação constante com o que já foi. E, no fim,  descobrir que a verdadeira linha de chegada não está no pórtico, mas no instante exato em que decide recomeçar.


E você? Já passou por algo assim ou conhece alguém que pode se identificar com estas histórias? Que estas narrativas inspirem você, ou alguém ao seu redor, a perceber que recomeçar também é um ato de força, humanidade e profundo respeito pela própria história.


Silvia Schreer

Triatleta e corredora amadora, e psicoterapeuta com foco nas áreas clínica, esportiva e traumas (EFT)

@silschreer



Imagem: FreePik


"Quando a insegurança e o desejo coexistem, nasce uma oportunidade para o desenvolvimento psicológico do atleta", escreve a psicoterapeuta Silvia Schreer.
"Quando a insegurança e o desejo coexistem, nasce uma oportunidade para o desenvolvimento psicológico do atleta", escreve a psicoterapeuta Silvia Schreer.

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