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100 km, tempestade e duas entorses: A minha história no UTMB (por Carlos Fonseca)

28 de set.
4 min de leitura

Meu choque de realidade veio logo no primeiro treino que minha amiga e eu fizemos no domingo, dia 23 de agosto, lá em Chamonix, na França. Subimos até o pico da Aiguille du Midi de teleférico e descemos correndo. Ali percebi que a galera realmente leva o esporte a sério e respira a montanha — tanto no trail run quanto no trekking e no hiking.


Durante a semana, acompanhamos as primeiras largadas das provas: PTL, MCC, YCC e TDS. Só íamos para o apartamento tomar banho ou dormir, pois passávamos muito mais tempo na rua vibrando do que em casa.


Minha preparação para a minha largada na sexta-feira (28) começou na quarta-feira (26). Deixei meus equipamentos e suplementação prontos para apenas largar, já que, na quinta-feira (27), eu iria apenas acompanhar a prova da minha amiga Michele.



Diferenças do terreno e a largada


Chegou o dia da minha largada: sexta-feira, dia 28, às 9h15 do horário local (4h15 no horário de Brasília).


Uma característica marcante dessa prova é que as subidas e descidas são extremamente longas. Você encara 10 km com 1.100 m de ganho de elevação e, logo em seguida, uma descida de 9 km perdendo 700 m. Não temos isso no Brasil, e essa escala me assustou muito.


Larguei de Courmayeur muito forte e comecei a primeira subida de 9 km no pelotão da frente da minha bateria, alcançando até os corredores mais lentos da bateria anterior. Nessa parte, havia muita exposição ao clima e eu sentia forte o vento vindo de baixo. Pedrinhas e grãos de areia voavam com a força da ventania, e aquele trecho inicial impressionou.


Consegui contornar todo o primeiro congestionamento, ultrapassando quando surgia espaço e sempre mantendo o power hiking. Na descida até o primeiro PC (Ponto de Controle), Bertone, mantive um ritmo constante, ultrapassando e acompanhando o pelotão.



O susto da lesão e a queda


Saindo do primeiro PC, cerca de 2 km à frente, tive uma entorse no tornozelo. Na hora, pensei: “Ferrou”. Eu estava com quase 20 km de prova e ainda faltavam 88 km. Meu emocional foi ao chão. Pensei em abandonar e chorei muito, mas decidi continuar e tomar uma decisão definitiva apenas no próximo PC.


Como já estava com o pé inseguro e descendo com medo, me distraí quando gritaram: “Brasileiroooo!”. Dei uma escorregada e fiz aquele “peixinho”, igualzinho ao do vôlei.

Fui levando a prova até o PC seguinte, onde consegui me limpar da terra. Foi ali que tomei a decisão de ir até o fim.



Estratégia adaptada e reencontro


No segundo PC, avisaram que o percurso havia mudado e não seria mais o mesmo do arquivo GPX. Como a altimetria atualizada estava impressa atrás do número de peito, parei de olhar o relógio para isso. Comecei a contar apenas as distâncias entre os PCs, e essa estratégia deu super certo.


Cheguei ao km 54 e encontrei a Michele, que estava fazendo meu suporte. Cheguei com boa sobra do tempo de corte, e reencontrá-la me trouxe um alívio físico e emocional enorme.


Depois da metade da prova, não me lembro de tudo com tanta clareza quanto no início, pois entrei em um verdadeiro estado de flow.



A tempestade e a subida desumana


Houve uma tempestade na região e, por isso, ocorreu uma nova alteração no nosso percurso, que passou a ser o mesmo da MCC e da OCC. Pegamos as principais subidas da região.


Liguei minha headlamp às 20h30, próximo ao Vale de Martigny — que, por curiosidade, é um vale localizado quase ao nível do mar. Cheguei ao PC com quase 70 km acumulados. Depois dali, encarei uma subida de 10 km com 1.000 m de ganho, e aquilo foi DESUMANO. O terreno não era tão técnico, mas era de uma inclinação contínua que parecia nunca ter fim.


Essa foi a subida em que mais senti cansaço, e fiquei indignado por terem nos colocado para subir aquilo com quase 80 km nas costas.


Alucinações e os quilômetros finais


Chegando ao km 90, vi a Michele pela última vez. Faltavam 18 km para cruzar o pórtico. Eu não sentia fome, mas comi por pura necessidade e segurança.


Alucinei durante a noite por não ter parado para dormir; cheguei ao ponto de confundir um tronco de árvore com a Michele.


Meu relógio estava descarregando e eu tentava completar os 100 km antes que a bateria apagasse. Foi quando virei o pé pela segunda vez. Ali, decidi terminar apenas caminhando, pois a situação já estava ficando arriscada demais.


Me juntei a um pelotão que descia mais devagar e fomos em power hiking até o final da última trilha.


A chegada em Chamonix


Chegando a Chamonix, há uma última trilha que contorna a cidade por fora antes da travessia do rio. Ali, entreguei tudo o que me restava. Cruzei o rio quando o dia já tinha amanhecido. Passei a madrugada inteira correndo nesses últimos 30 km, e o que me deu forças para não parar foi a galera na cidade incentivando e a certeza de que a minha amiga estaria me esperando na linha de chegada.


Terminei correndo e bem. Foram 22h50min de pura superação


Carlos Fonseca Profissional de educação física e criador de conteúdo para o Instagram @cadufons


Imagens: Arquivo pessoal.

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