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A Alma da Serra Fina: O caminho que trilhei até a vitória dos 55k da La Misión (por Izabela Germano)

há 3 minutos
5 min de leitura

Meu primeiro contato com a corrida de montanha aconteceu há cerca de dez anos. No início, eu não imaginava que aquele contato com a natureza e com as trilhas fosse se transformar em algo tão grande na minha vida. Aos poucos, fui me apaixonando pela sensação de correr em meio à natureza, pelos desafios das subidas, pelas descidas, pelo contato com a montanha e, principalmente, pela superação que cada treino e cada prova proporcionavam.


Acho que o meu verdadeiro “chamado da montanha” aconteceu quando percebi que eu não corria apenas para chegar ao final de uma prova. Eu corria porque me encontrava naquele ambiente, porque cada montanha me ensinava alguma coisa e porque sempre existia um novo limite para superar. Hoje, depois de tantos anos, a montanha faz parte de quem eu sou. É onde eu me desafio, me fortaleço e encontro uma conexão muito especial comigo mesma e com a natureza.



A ligação com a La Misión e o vínculo familiar


A La Misión Brasil entrou na minha história de uma forma muito especial. Desde o primeiro contato com a prova, percebi que ela era muito mais do que uma competição. A dimensão da montanha, o percurso, a energia das pessoas e toda a experiência que envolve o evento fizeram com que ele ganhasse um espaço diferente na minha trajetória. Com o tempo, esse significado ficou ainda maior: a La Misión se tornou um lugar de encontro entre desafios, emoções e histórias muito importantes para mim. Correr aqueles 55 quilômetros em Passa Quatro (MG), pela Serra Fina, foi uma experiência que carregou um significado muito profundo, especialmente por toda a relação que tenho com meu pai e pela forma como a montanha também passou a representar esse vínculo.


Foi uma prova que me exigiu fisicamente, mas que também me transformou emocionalmente. Cruzar aquela linha de chegada como campeã dos 55 km foi muito mais do que conquistar um resultado — foi sentir que eu tinha vivido algo que ficaria para sempre na minha história. Hoje, quando penso na La Misión, penso em desafio, superação, emoção e, principalmente, em uma conexão muito forte com a montanha e com tudo aquilo que ela representa para mim.



Preparação consciente e estratégia de alto rendimento


A preparação para a La Misión Brasil 2026 foi muito intensa e, ao mesmo tempo, muito especial. Eu já conhecia a dimensão do desafio, então dessa vez buscamos fazer um trabalho ainda mais específico e estratégico, principalmente porque sabia que seriam 55 km em um terreno extremamente exigente. Tive ao meu lado uma equipe fundamental durante todo o processo: minha treinadora Débora, da Life Runners, minha nutricionista Laís, além do acompanhamento dos meus fisioterapeutas. Cada profissional teve um papel determinante para que eu chegasse à prova preparada, não apenas fisicamente, mas também com a cabeça muito bem trabalhada.


Olhando para os ciclos anteriores, acho que a principal diferença foi entender ainda mais o meu corpo e respeitar o processo. Trabalhamos bastante a especificidade para a montanha, os treinos longos, a estratégia de alimentação e hidratação e, principalmente, a capacidade de administrar o esforço durante muitas horas. Também contei com marcas e parceiros que fazem parte da minha rotina como atleta, como a Sudract, que esteve comigo na estratégia de reposição de carboidratos, a WR e o Hospital Ibiapaba. O apoio dessas empresas foi muito importante e tornou possível viver esse esporte da maneira que vivo. Foi um ciclo em que tentei aproveitar cada treino como parte da preparação: não foi apenas treinar mais, mas treinar melhor, com mais consciência, estratégia e experiência. Cheguei para a largada sabendo que tinha feito tudo o que estava ao meu alcance.



Força mental e homenagem


A prova foi muito especial e também muito desafiadora. Eu já sabia que seria uma jornada dura, então fui com bastante respeito pelos 55 km e por tudo o que a La Misión representa. Antes da largada, eu tinha uma estratégia bem definida: começar com calma, controlar o ritmo, principalmente nas subidas, cuidar bastante da alimentação e hidratação e tentar guardar energia para a parte final. Eu também sabia que teria adversárias muito fortes. Tenho uma admiração enorme por todas elas, são atletas que eu acompanho, respeito muito e que também são inspiração para mim. Ao mesmo tempo que queria competir e dar o meu melhor, sabia que estaria correndo ao lado de mulheres incríveis.


Durante a prova, procurei não pensar tanto no resultado e focar em fazer o que eu tinha treinado. Claro que tiveram momentos muito difíceis, em que precisei buscar força e controlar a cabeça, mas consegui manter a calma e confiar na minha preparação. E essa prova teve um significado ainda maior por causa do meu pai. Eu estava vivendo um momento muito delicado e, desde o início, sabia que aquela prova seria por ele. Em muitos momentos, principalmente quando estava cansada ou passando por alguma dificuldade, pensava nele e buscava força para continuar. Era como se cada quilômetro fosse uma forma de homenageá-lo e de levar um pouquinho dele comigo naquela montanha.


Eu não estava correndo só pelos meus objetivos ou pelo resultado. Estava correndo por ele, pela nossa história e por tudo que ele representou na minha vida. Quando cruzei a linha de chegada, foi uma mistura de sentimentos que nem consigo explicar: tinha a alegria de ter conseguido, mas também muita saudade e emoção. Foi uma prova que vou levar para sempre comigo, porque naquele dia senti que, de alguma forma, meu pai estava ali ao meu lado.



Conselhos para quem quer encarar os 55 km da La Misión


Para quem quer encarar os 55 km da La Misión, a primeira dica que eu daria é: respeite a distância e respeite a montanha. Não é uma prova para começar forte. É um desafio em que você precisa ter muita paciência no início e saber guardar energia, porque a prova realmente começa quando o corpo já está cansado. Também acho fundamental chegar bem preparado: fazer um treino específico para a distância, trabalhar força, treinar as subidas e descidas e, principalmente, testar durante os treinos a alimentação e a hidratação que você pretende usar na prova — não dá para deixar isso para descobrir no dia.


Outra coisa muito importante é ter uma estratégia e confiar nela. Vai ter momento em que você vai se sentir muito bem e vai querer acelerar, mas é preciso lembrar que ainda tem muita montanha pela frente. E também vão existir momentos difíceis em que a cabeça faz toda a diferença. Por fim, minha principal dica é: aproveite a experiência. A La Misión é muito mais do que correr 55 km. É uma prova que exige, te tira da zona de conforto e proporciona momentos incríveis. Vá preparado, respeite seus limites, confie no processo e não esqueça de olhar ao redor, porque quando você cruza aquela linha de chegada, percebe o quanto tudo valeu a pena.



Próximos passos: UTMB e Seleção Brasileira


Meu próximo desafio já está aí: a UTMB Paraty, nos 55 km. Depois da La Misión, o foco agora é recuperar bem, ajustar os últimos detalhes e chegar preparada para mais esse desafio. Estou muito animada e quero aproveitar cada momento, colocando em prática tudo o que venho trabalhando nos treinos para buscar o meu melhor resultado.


Olhando um pouco mais para frente, um dos meus grandes objetivos é o Campeonato Brasileiro de Corrida de Trilha e Montanha. Estou muito na expectativa e bastante focada nessa competição, porque sei que ela pode ser o caminho para conquistar uma vaga para o Campeonato Mundial no ano que vem. Representar o Brasil novamente é um sonho muito grande. Quero fazer uma preparação impecável, chegar forte ao Brasileiro e, se Deus quiser, conquistar essa oportunidade de vestir novamente a camisa da Seleção Brasileira. Tenho desafios importantes pela frente e sigo motivada, respeitando cada etapa e aproveitando muito essa caminhada!


Izabela Germano Corredora de trilha e montanha, produtora de conteúdo e administradora de empresas

@izabela_tgermano

Imagens: Arquivo pessoal.

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