Como a Maratona de Buenos Aires me manteve de pé no momento mais difícil (por Taís Kunert)
Até meados de 2025, nunca tinha passado pela minha cabeça correr uma maratona. Eu já treinava com consistência e estava me preparando para os meus primeiros 30 km. Quase quebrei no final daquela prova, mas saí de lá com duas certezas: a vontade de correr uma maratona e a convicção de que precisaria de uma orientação profissional.
Em dezembro de 2025, me planejei e dei o primeiro passo: me inscrevi na Maratona de Buenos Aires e comecei logo em seguida a treinar com assessoria esportiva. A vivência pré-maratona foi praticamente uma gestação de nove meses. Exigiu pequenas adaptações no estilo de vida, mas, acima de tudo, muita dedicação, disciplina e preparo mental.
Vento contra e a força para continuar
No meio do ciclo, tive uma lesão na panturrilha e o chão estremeceu, mas dois meses depois eu já estava recuperada. Logo no início da fase de pico e aumento de volume, meu pai teve complicações de saúde e descobrimos um câncer, ainda em estágio inicial. Meu chão caiu, a base ficou fraca e surgiram várias intercorrências.
Num primeiro momento, meu pensamento foi: "Vou desistir de tudo". No entanto, logo em seguida me questionei: "Por que não usar todo esse furacão para me manter em movimento e focada?". E foi exatamente esse ciclo de treinos que me manteve de pé e firme. Em um ciclo de preparação — assim como na prova e na vida —, a gente tem que saber lidar com os momentos de vento contra, de desânimo e de desespero.
O dia da prova: Torcida, estratégia e emoção
O clima estava bom, o céu limpo e o percurso era plano. Eu tinha me dedicado ao máximo nos últimos meses e, um dia antes da prova, meu treinador me passou toda a estratégia. Fui com a inocência de quem não sabia exatamente onde estava se metendo, mas, ao mesmo tempo, respeitando muito os 42,195 km.
Lá estava eu, em um país vizinho, sozinha (fui só, mas voltei com muitos amigos), em meio a 16.000 corredores e uma multidão de torcedores vibrando e sentindo a cidade. Me emocionei muito a cada aglomeração da torcida. Foram lágrimas de felicidade e superação, em uma mistura de choro e riso!

Segmentei a prova em blocos de 7 km e fui avançando aos poucos. Nos 21 km, fiz aquele check de controle: não estava lesionada, mas também não estava sobrando muito ritmo, então achei melhor manter a velocidade. Não tive nenhum "muro" mental. Estava bastante concentrada na hidratação, na alimentação e em viver cada quilômetro. Mas vale ressaltar que, por volta do quilômetro 34 ou 35, lembrei que tinha joelhos (lembrar que a gente tem uma articulação nunca é bom sinal!) e comecei a rezar para as panturrilhas aguentarem até o final. Embora os 200 metros finais tenham parecido eternos, consegui cruzar a linha de chegada bem e cheia de aprendizados.
Lições e a magia da comunidade
A lição principal que levo é que a maratona exige respeito, entrega, humildade (muito treino) e saber escutar o corpo e tudo o que acontece ao redor. Vi muita gente quebrando depois do quilômetro 25 — inclusive corredores com várias maratonas no currículo — e muitos sofrendo com cãibras após o quilómetro 33.
Foi um caminho de muita superação e emoção. Na minha cabeça, queria emanar essa energia positiva para todos aqueles que passam por momentos difíceis. Queria dizer que não há mal que dure para sempre e que a gente sempre tem meios de tornar o caminho mais leve, inclusive o daqueles que estão ao nosso lado. Vi muita gente se ajudando e se incentivando ao longo de todo o percurso; a comunidade da corrida é extremamente acolhedora!
E não posso deixar de mencionar o meu melhor "doping": minhas duas amigas sensacionais, Michele Melo e Thalita Lima, que passaram a corrida inteira me mandando mensagens de incentivo a cada leitura do meu chip. Foi um combustível incrível!
Dicas de Viagem da Taís
Hospedagem e Transporte: Fiquei em um Airbnb no bairro Palermo e fui a pé para a prova com um grupo de corredores do Mato Grosso do Sul que conheci em um restaurante na noite anterior.
Onde Comer:
O melhor restaurante para o almoço pré-prova foi o La Alacena Trattoria (comida incrível!).
Para empanadas, recomendo muito o El Hornero, no Mercado de San Telmo.
Para a dose diária de alfajores e doce de leite, os melhores são os da Dulce de Leche & Co.
Passeio Imperdível: Não deixe de visitar a El Ateneo Grand Splendid, um antigo teatro espetacular reformado e transformado em uma livraria maravilhosa.
Taís Kunert Cirurgiã-dentista, corredora e, agora, maratonista.
Imagens: Arquivo pessoal.



