Eu, minha irmã e 118 km: Como venci a Ultramaratona 24h de Campinas (por Camila Kaori)
Participei da Ultramaratona 24h de Campinas com objetivo de utilizá-la como treino para o próximo desafio que irei enfrentar: a Extremo Sul Ultramarathon, onde percorrerei 226 km, saindo da cidade de Chuí, na divisa com o Uruguai, até a Praia do Cassino/RS. Assim como nesta prova, o percurso da Extremo Sul também é predominantemente plano e com regime de autossuficiência. Por isso, a prova de 24 horas seria uma excelente oportunidade para testar, na prática, diferentes estratégias de alimentação e hidratação, roupas, equipamentos e, principalmente, entender como meu corpo e minha mente respondem a um longo período de exposição contínua à atividade.

A preparação e a rotina de treinos
Meu treinador, Luiz Torres, montou a planilha de treinos no início de julho com foco na resistência e tempo de exposição em atividade. Às segundas e quartas-feiras, os treinos eram compostos, em sua maioria, por corridas no formato Fartlek com distâncias que variavam entre 6 e 10 km. Já aos sábados e domingos, o foco principal era o tempo de exposição. Começamos, na primeira semana, com 4 horas de corrida no sábado e 2 horas no domingo. Ao longo da preparação, fomos aumentando progressivamente esse volume, até chegar ao pico de 8 horas no sábado e 3 horas no domingo. A maior parte dos treinos era realizada em ritmo moderado e em terreno plano. Em alguns dias, o treino também incluía períodos de caminhada forte alternados com corrida.
Infelizmente, peguei uma forte gripe que durou cerca de um mês e os treinos deram uma avacalhada... Voltei desse período com a imunidade baixa. Pensei na possibilidade de não participar dessa prova... Mas como seria somente para treino, fui mesmo assim. Outro detalhe que acho válido comentar é que trabalho no ramo de cultivo de flores e plantas ornamentais e passo a maior parte do tempo carregando peso e caminhando bastante, então por mais que não estivesse entregando os treinos no período que estava doente, estive sempre em movimento kkkk.

A estrutura da prova e a estratégia do apoio
A organização montou uma base de apoio ao lado do pórtico que continha toda parte de hidratação (água, isotônico, coca cola) e alimentação (amendoim, bala de goma, frutas variadas) e em alguns horários específicos serviam comida quente como macarrão caseiro, sopa, purê de batata, arroz com frango e picolé. Havia banheiros perto da base e também uma empresa terceirizada fazendo massagem, bota de compressão, vibro e piscina com gelo (pago à parte).
Mais à frente, do lado direito ao longo da pista, havia uma área para montagem de tendas e barracas dos atletas/assessorias que participavam da prova. Levar barraca e equipe de apoio era opcional. Dava tranquilamente pra usufruir da base de apoio da prova, porém eu optei por levar uma barraca de camping e minha irmã. Era permitido o Apoio correr/acompanhar o atleta das 22h até 6h. Durante a madrugada, minha irmã me acompanhou pra me manter acordada.
Desafios físicos e imprevistos no percurso
O maior desafio foram as assaduras por causa do sol. Largamos às 10 horas da manhã de sábado. Estava muito quente e desidratei. Quando bati o Km 50 decidi me presentear com uma sessão de massagem. Enquanto a massagista fazia seu trabalho, reclamei dizendo que parecia que estava passando uma lixa na minha coxa kkkk e ela disse que era sal...
Pós massagem, meu corpo relaxou e fui ao banheiro... Descobri que estava com assaduras nos glúteos e início de infecção urinária devido ao excesso de sal e o tipo de shorts que estava usando que segurava a umidade. Decidi me limpar e trocar de roupa. Ainda assim, foi bem difícil dar continuidade à prova. Consegui correr mais 20km e depois tomei uma decisão: fazer uma pausa prolongada para cuidar das assaduras e bolhas nos pés.

A virada de chave e a disputa acirrada
Na minha categoria de 18 a 29 anos, havia somente eu e outra atleta. No momento que decidi fazer a pausa, estava 5 voltas à frente dela. Então estava tranquila. Um tempo depois, retomei a atividade mas não conseguia mais correr ou caminhar forte por causa da assadura... Nunca havia acontecido antes. No meio do caminho, encontrei minha rival... E estava bem baqueada, já caminhando com meia e chinelo por causa das bolhas. Com esse cenário estava pensando em desistir. Voltei pra barraca e conversei com minha irmã que me sugeriu descansar.
Após 1h30 de descanso, acordei já mais disposta e as feridas estavam mais “cicatrizadas”. Entrei no site de cronometragem e vi que minha rival estava 1 volta na minha frente... Daí pensei: Putz! Vou ter que fazer 2 voltas a mais pra alcançá-la... Nessa hora, não pensei 2 vezes... Corri como se não houvesse amanhã kkkkk. Passei 3 voltas e não encontrei ela no caminho... Ou seja, ou ela está correndo ou fez uma parada para descanso.
Olhei no site e ela estava fazendo mais voltas! Toda vez que passava pelo pórtico, outros apoios, atletas e pessoas que nem conheciam estavam vibrando! Foi uma energia muito boa! E uma disputa bem acirrada kkkk. Dei mais 2 voltas e fui acompanhar minha colocação e vi que já tinha alcançado ela nessas últimas voltas. Ela acabou parando no km 90... A partir desse momento, minha meta era entregar tudo o que eu pudesse nas últimas 3 horas de prova. E faltando 7 minutos pra fechar as 24 horas, passei com minha última volta entregando 118km. Daí só comemorar!
Dicas para quem quer encarar o endurance
Dicas que daria para alguém que tenha vontade em fazer um desafio de endurance como foi o meu:
Dica 1 - Escolha do apoio: Saber escolher a pessoa que será seu apoio. Não é uma tarefa fácil pra nenhum dos lados, do atleta e da pessoa que irá apoiar... Ser apoio é uma tarefa cansativa, ficar várias horas acordado e à disposição do atleta. O apoio deve ser uma pessoa proativa, alguém que você tenha intimidade e que consiga te acompanhar até o final da prova. Já me deparei com muitos apoios mais atrapalhando do que ajudando, atletas exaustos e acabou falando de forma grosseira com seus apoios, apoio que passou mal e deixou atleta...
Dica 2 - Fortalecimento: Fortalecimento é pra mim a base pra começar uma ultra. Sem ela, você não vai longe!
Dica 3 - Escolha da prova: A Ultramaratona 24h Campinas é uma excelente prova para quem quer começar uma ultra. Você tem o conforto em todos os sentidos.
Dica 4 - Preparo mental e imprevistos: Quando você estiver disposto a correr uma ultramaratona, deve saber que: É UMA ULTRAMARATONA, ALGUMA COISA VAI DAR ERRADO. Você pode planejar, treinar, estar com melhor equipamento e chegar preparado... Mas, em algum momento, alguma coisa vai sair do previsto. E é aí que entra uma das partes mais importantes: saber lidar com os obstáculos e recalcular a rota quantas vezes forem necessárias. Muito se fala do mental, que deve ter um mental forte... Pra mim, há momentos que sinto que tenho que enganar meu cérebro... Descartando os pensamentos intrusivos que chegam timidamente e atacam forte nos momentos de frustração e obstáculos que aparecem no caminho.
Camila Kaori
Produtoras de flores e ultramaratonista.
Imagens: Arquivo pessoal.



