Além dos Km: O impacto da saúde bucal na performance do trail (por Dr. Vanessa Moredo)
- há 3 dias
- 4 min de leitura
No esporte de alto rendimento, cada detalhe conta. O atleta de corrida de trilha e ultra-endurance passa horas blindando sua mente, fortalecendo a musculatura e ajustando a estratégia nutricional. Porém, existe uma fronteira da performance que muitos negligenciam até que seja tarde demais: a cavidade bucal.
Durante a atividade física prolongada, o corpo entra em um estado de estresse oxidativo severo. O que poucos percebem é que esse processo se reflete diretamente na boca do atleta. Compreender a conexão entre o sistema estomatognático (cavidade bucal) e o rendimento físico não é apenas uma questão de saúde bucal, é uma estratégia metabólica e neurofisiológica para cruzar a linha de chegada.
O ambiente hostil do endurance: boca seca e açúcar
Durante provas e treinos longos, o organismo sofre uma redução drástica do fluxo salivar (xerostomia) provocada pela desidratação e pela respiração bucal constante. A saliva não serve apenas para o conforto; ela é o principal escudo protetor da cavidade oral, essencial para a deglutição e a imunidade local.
Sem a proteção salivar, o cenário se complica quando o atleta consome altas cargas de carboidratos e suplementos para manter seus estoques de glicogênio ativos. O contato constante desses compostos com uma boca seca acidifica o pH oral. Esse ambiente ácido e propício a inflamações facilita:
Lesões cariosas rápidas;
Desgaste acelerado do esmalte dentário;
Hipersensibilidade dentária.

A conexão sistêmica: Como uma infecção bucal afeta a musculatura
O perigo silencioso de negligenciar a saúde bucal vai muito além de uma dor de dente. Quando há um processo infeccioso ou inflamatório na boca, as bactérias patogênicas não ficam isoladas. Elas entram na corrente sanguínea e circulam por todo o corpo.
Em atletas, cuja circulação é hiperativa devido ao metabolismo acelerado, essas bactérias se disseminam rapidamente e têm uma afinidade perigosa: elas se “alimentam” do colágeno das fibras musculares. Esse foco inflamatório sistêmico prejudica diretamente a performance, podendo causar lesões musculares inesperadas ou retardar drasticamente o processo de recuperação e reparação tecidual após os treinos.
Além disso, existe o fator oclusal. Problemas na mordida ou perdas dentárias alteram a posição da mandíbula, o que modifica o posicionamento da cabeça em relação à coluna vertebral. Essa sutil alteração oclusal gera compensações posturais que quebram a eficiência biomecânica e os gestos motores da corrida. Da mesma forma, disfunções na Articulação Temporomandibular (ATM), frequentemente agravadas pelo apertamento dentário em momentos de estresse físico, prejudicam a fala, a oclusão e, crucialmente, a capacidade respiratória do corredor.
A própria posição da língua é um fator determinante na estabilização crânio-cervical e nas vias aéreas. Uma língua mal posicionada interfere na dinâmica respiratória e na postura global do atleta.

O 'hack' cerebral do mentol nas provas longas
Diante desse cenário, surge uma estratégia de campo simples e altamente eficaz. Em atividades que ultrapassam as 3 ou 4 horas de duração, a escovação dos dentes ou o bochecho com enxaguante (sem álcool) que contenha mentol atua como um recurso ergogênico potente.
O mentol atua diretamente nos neuroceptores localizados nas papilas gustativas e na cavidade oral (especificamente nos receptores de frio TRPM8). Ao ser ativado, ele envia um sinal elétrico ao cérebro que gera duas respostas centrais:
Atenuação da Fadiga Percebida: O cérebro interpreta o estímulo sensorial como um sinal de alívio, diminuindo a Percepção Subjetiva de Esforço (RPE), permitindo que o atleta mantenha a intensidade por mais tempo.
Conforto Térmico Perceptual: O mentol promove uma sensação de resfriamento ilusório. É importante destacar que não há redução da temperatura corporal fisiológica, mas sim uma alteração na percepção térmica central. O cérebro entende que o corpo está mais "fresco", garantindo maior conforto psicológico em ambientes quentes.
Adicionalmente, em respiradores bucais, a redução da carga bacteriana por meio da higiene diminui a ingestão de microrganismos que poderiam afetar o sistema gastrointestinal. Para um ultramaratonista, evitar qualquer tipo de desconforto gástrico é o divisor de águas entre terminar a prova ou abandonar a competição.

Como manter sua saúde bucal sem perder performance
Não deixe para testar novas estratégias no dia da prova; simule o cenário nos treinos longos. Para garantir dentes protegidos e rendimento máximo, adote estas orientações básicas na sua rotina:
Escove os dentes após o pré-treino: Mesmo que o suplemento seja consumido em formato líquido, faça a escovação para remover os resíduos iniciais antes de começar a correr.
Bochecho com água após o gel: Logo após ingerir o seu gel de carboidrato durante o treino ou prova, faça um bochecho rápido com água limpa para ajudar a remover o excesso de açúcar grudado nos dentes.
Durante o treino ou prova, faça a manutenção salivar com pequenos goles de água.
Não faça bochecho com suplementos: Evite reter soluções energéticas ou suplementos na boca.
Estratégia para treinos e provas longas (+4h): Em atividades acima de 4 horas, faça uma escovação rápida ou realize um bochecho utilizando um enxaguante bucal sem álcool e com mentol para garantir o "reset" sensorial e o alívio da fadiga.
Higiene pós-atividade: Assim que finalizar seus treinos ou competições, faça uma escovação completa e minuciosa para remover todo o biofilme e resíduos acumulados ao longo das horas de esforço.
Manutenção preventiva: Mantenha visitas periódicas ao cirurgião-dentista com atuação na Odontologia do Esporte. O acompanhamento profissional é indispensável para a prevenção de lesões de esmalte, ajuste da oclusão e manutenção da saúde sistêmica.
Não deixe para cuidar do seu sorriso apenas quando sentir dor. Trate a sua saúde bucal como parte do seu cronograma oficial de treinos e garanta que seu corpo funcione em perfeita harmonia da cabeça aos pés.
Dra. Vanessa Moredo Alonso
Cirurgiã-Dentista e Atleta de Corrida de Montanha de Alta Performance
CRO 98290
@va.trail.nessa
@dra_vanessamoredo
Imagens: Salomon / @cocodona250 / Näak



