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Além dos Km: O impacto da saúde bucal na performance do trail (por Dr. Vanessa Moredo)

  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

No esporte de alto rendimento, cada detalhe conta. O atleta de corrida de trilha e ultra-endurance passa horas blindando sua mente, fortalecendo a musculatura e ajustando a estratégia nutricional. Porém, existe uma fronteira da performance que muitos negligenciam até que seja tarde demais: a cavidade bucal.


Durante a atividade física prolongada, o corpo entra em um estado de estresse oxidativo severo. O que poucos percebem é que esse processo se reflete diretamente na boca do atleta. Compreender a conexão entre o sistema estomatognático (cavidade bucal) e o rendimento físico não é apenas uma questão de saúde bucal, é uma estratégia metabólica e neurofisiológica para cruzar a linha de chegada.


O ambiente hostil do endurance: boca seca e açúcar

Durante provas e treinos longos, o organismo sofre uma redução drástica do fluxo salivar (xerostomia) provocada pela desidratação e pela respiração bucal constante. A saliva não serve apenas para o conforto; ela é o principal escudo protetor da cavidade oral, essencial para a deglutição e a imunidade local.


Sem a proteção salivar, o cenário se complica quando o atleta consome altas cargas de carboidratos e suplementos para manter seus estoques de glicogênio ativos. O contato constante desses compostos com uma boca seca acidifica o pH oral. Esse ambiente ácido e propício a inflamações facilita:


  • Lesões cariosas rápidas;

  • Desgaste acelerado do esmalte dentário;

  • Hipersensibilidade dentária.


Em 2024, a Salomon lançou o colete S/LAB Ultra Spark que continha uma escova de dente de fibra de carbono, pasta de dente nutritiva e fio dental retrátil.
Em 2024, a Salomon lançou o colete S/LAB Ultra Spark que continha uma escova de dente de fibra de carbono, pasta de dente nutritiva e fio dental retrátil.

A conexão sistêmica: Como uma infecção bucal afeta a musculatura

O perigo silencioso de negligenciar a saúde bucal vai muito além de uma dor de dente. Quando há um processo infeccioso ou inflamatório na boca, as bactérias patogênicas não ficam isoladas. Elas entram na corrente sanguínea e circulam por todo o corpo.


Em atletas, cuja circulação é hiperativa devido ao metabolismo acelerado, essas bactérias se disseminam rapidamente e têm uma afinidade perigosa: elas se “alimentam” do colágeno das fibras musculares. Esse foco inflamatório sistêmico prejudica diretamente a performance, podendo causar lesões musculares inesperadas ou retardar drasticamente o processo de recuperação e reparação tecidual após os treinos.


Além disso, existe o fator oclusal. Problemas na mordida ou perdas dentárias alteram a posição da mandíbula, o que modifica o posicionamento da cabeça em relação à coluna vertebral. Essa sutil alteração oclusal gera compensações posturais que quebram a eficiência biomecânica e os gestos motores da corrida. Da mesma forma, disfunções na Articulação Temporomandibular (ATM), frequentemente agravadas pelo apertamento dentário em momentos de estresse físico, prejudicam a fala, a oclusão e, crucialmente, a capacidade respiratória do corredor.


A própria posição da língua é um fator determinante na estabilização crânio-cervical e nas vias aéreas. Uma língua mal posicionada interfere na dinâmica respiratória e na postura global do atleta.


Durante provas de ultra-distância é comum ver corredores escovando os dentes ao passarem por pontos de apoio, como fez Rachel Entrekin durante a Cocodona 250, uma prova de 400km.
Durante provas de ultra-distância é comum ver corredores escovando os dentes ao passarem por pontos de apoio, como fez Rachel Entrekin durante a Cocodona 250, uma prova de 400km.

O 'hack' cerebral do mentol nas provas longas

Diante desse cenário, surge uma estratégia de campo simples e altamente eficaz. Em atividades que ultrapassam as 3 ou 4 horas de duração, a escovação dos dentes ou o bochecho com enxaguante (sem álcool) que contenha mentol atua como um recurso ergogênico potente.


O mentol atua diretamente nos neuroceptores localizados nas papilas gustativas e na cavidade oral (especificamente nos receptores de frio TRPM8). Ao ser ativado, ele envia um sinal elétrico ao cérebro que gera duas respostas centrais:


  1. Atenuação da Fadiga Percebida: O cérebro interpreta o estímulo sensorial como um sinal de alívio, diminuindo a Percepção Subjetiva de Esforço (RPE), permitindo que o atleta mantenha a intensidade por mais tempo.


  2. Conforto Térmico Perceptual: O mentol promove uma sensação de resfriamento ilusório. É importante destacar que não há redução da temperatura corporal fisiológica, mas sim uma alteração na percepção térmica central. O cérebro entende que o corpo está mais "fresco", garantindo maior conforto psicológico em ambientes quentes.


Adicionalmente, em respiradores bucais, a redução da carga bacteriana por meio da higiene diminui a ingestão de microrganismos que poderiam afetar o sistema gastrointestinal. Para um ultramaratonista, evitar qualquer tipo de desconforto gástrico é o divisor de águas entre terminar a prova ou abandonar a competição.


Algumas marcas de suplementação esportiva, como a Näak, já estão apostando no mentol como componente de seus géis de olho nos benefícios para performance.
Algumas marcas de suplementação esportiva, como a Näak, já estão apostando no mentol como componente de seus géis de olho nos benefícios para performance.

Como manter sua saúde bucal sem perder performance

Não deixe para testar novas estratégias no dia da prova; simule o cenário nos treinos longos. Para garantir dentes protegidos e rendimento máximo, adote estas orientações básicas na sua rotina:


  • Escove os dentes após o pré-treino: Mesmo que o suplemento seja consumido em formato líquido, faça a escovação para remover os resíduos iniciais antes de começar a correr.


  • Bochecho com água após o gel: Logo após ingerir o seu gel de carboidrato durante o treino ou prova, faça um bochecho rápido com água limpa para ajudar a remover o excesso de açúcar grudado nos dentes.


  • Durante o treino ou prova, faça a manutenção salivar com pequenos goles de água.


  • Não faça bochecho com suplementos: Evite reter soluções energéticas ou suplementos na boca.


  • Estratégia para treinos e provas longas (+4h): Em atividades acima de 4 horas, faça uma escovação rápida ou realize um bochecho utilizando um enxaguante bucal sem álcool e com mentol para garantir o "reset" sensorial e o alívio da fadiga.


  • Higiene pós-atividade: Assim que finalizar seus treinos ou competições, faça uma escovação completa e minuciosa para remover todo o biofilme e resíduos acumulados ao longo das horas de esforço.


  • Manutenção preventiva: Mantenha visitas periódicas ao cirurgião-dentista com atuação na Odontologia do Esporte. O acompanhamento profissional é indispensável para a prevenção de lesões de esmalte, ajuste da oclusão e manutenção da saúde sistêmica.


Não deixe para cuidar do seu sorriso apenas quando sentir dor. Trate a sua saúde bucal como parte do seu cronograma oficial de treinos e garanta que seu corpo funcione em perfeita harmonia da cabeça aos pés.


Dra. Vanessa Moredo Alonso

Cirurgiã-Dentista e Atleta de Corrida de Montanha de Alta Performance

CRO 98290

@va.trail.nessa

@dra_vanessamoredo



Imagens: Salomon / @cocodona250 / Näak

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