Anti-inflamatórios e corrida: o que você precisa saber antes da próxima dose (por Dr. Fernando Assunção)
- 5 de mai.
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Você já pensou em tomar um ibuprofeno antes de uma corrida ou treino pesado? Se sim, você não está sozinho. Estudos mostram que entre atletas de endurance — como maratonistas e triatletas — o uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) é comum, muitas vezes feito de forma preventiva, sem prescrição e sem real noção dos riscos.
O problema real: enganar o corpo tem custo
A sensação de "tô bem" que o aproporciona vem à custa de mecanismos fisiológicos importantes. O ibuprofeno, o diclofenaco, a nimesulida e outros da mesma classe bloqueiam enzimas chamadas ciclooxigenases (COX). Com isso, impedem a produção de prostaglandinas — substâncias que, além de gerar dor e inflamação, também protegem os rins, o coração e o trato gastrointestinal.

Riscos para o atleta saudável
Mesmo que você seja jovem e tenha “exames normais”, os riscos existem e se amplificam com esforço prolongado:
1) Rins
AINEs reduzem a perfusão renal durante o exercício, especialmente em treinos longos e sob calor.
Podem causar injúria renal aguda (IRA) e, com uso repetido, doença renal crônica silenciosa
2) Coração
Aumentam o risco de infarto, hipertensão e arritmias, especialmente com uso frequente ou em doses altas.
Performance e adaptação
Podem prejudicar a hipertrofia muscular e a adaptação ao treino, interferindo no processo inflamatório natural necessário para a evolução física.
E paracetamol, pode? Mesmo o paracetamol, que é visto como “leve”, pode atenuar o estímulo anabólico do exercício e comprometer o ganho de performance com o uso crônico.
Uso recorrente de analgésicos e doping
Um estudo com quase 3.000 triatletas competitivos identificou que o uso frequente de analgésicos estava associado a uma maior probabilidade de uso de substâncias dopantes. O analgésico vira uma “porta de entrada” para estratégias cada vez mais arriscadas.
Como agir com responsabilidade
Não tome AINEs antes de provas ou treinos longos.
Evite o uso contínuo sem avaliação médica.
Se tiver dor persistente, procure entender a causa, não apenas mascará-la.
Em casos de dor aguda, use com indicação, menor dose possível e curta duração.
Cuide da tríade básica: sono de qualidade, alimentação anti-inflamatória (rica em vegetais, ômega-3, antioxidantes) e recuperação ativa.
Conclusão
Como médico e atleta, vejo cada vez mais corredores jovens apresentando lesões renais discretas, mas progressivas, por uso crônico e desinformado de anti-inflamatórios. Dor é um sinal. Silenciá-la sem entender a causa é como desligar o alarme de incêndio e seguir dormindo.
Dr. Fernando César Menezes Assunção Nefrologista, clínico, triatleta, corredor e apaixonado pela longevidade e qualidade de vida @drfernandocesarassuncao Imagens: Freepik



