Anti-inflamatórios e corrida: o que você precisa saber antes da próxima dose (por Dr. Fernando Assunção)
Você já pensou em tomar um ibuprofeno antes de uma corrida ou treino pesado? Se sim, você não está sozinho. Estudos mostram que entre atletas de endurance — como maratonistas e triatletas — o uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) é comum, muitas vezes feito de forma preventiva, sem prescrição e sem real noção dos riscos.
O problema real: enganar o corpo tem custo
A sensação de "tô bem" que o aproporciona vem à custa de mecanismos fisiológicos importantes. O ibuprofeno, o diclofenaco, a nimesulida e outros da mesma classe bloqueiam enzimas chamadas ciclooxigenases (COX). Com isso, impedem a produção de prostaglandinas — substâncias que, além de gerar dor e inflamação, também protegem os rins, o coração e o trato gastrointestinal.

Riscos para o atleta saudável
Mesmo que você seja jovem e tenha “exames normais”, os riscos existem e se amplificam com esforço prolongado:
1) Rins
AINEs reduzem a perfusão renal durante o exercício, especialmente em treinos longos e sob calor.
Podem causar injúria renal aguda (IRA) e, com uso repetido, doença renal crônica silenciosa
2) Coração
Aumentam o risco de infarto, hipertensão e arritmias, especialmente com uso frequente ou em doses altas.
Performance e adaptação
Podem prejudicar a hipertrofia muscular e a adaptação ao treino, interferindo no processo inflamatório natural necessário para a evolução física.
E paracetamol, pode? Mesmo o paracetamol, que é visto como “leve”, pode atenuar o estímulo anabólico do exercício e comprometer o ganho de performance com o uso crônico.
Uso recorrente de analgésicos e doping
Um estudo com quase 3.000 triatletas competitivos identificou que o uso frequente de analgésicos estava associado a uma maior probabilidade de uso de substâncias dopantes. O analgésico vira uma “porta de entrada” para estratégias cada vez mais arriscadas.
Como agir com responsabilidade
Não tome AINEs antes de provas ou treinos longos.
Evite o uso contínuo sem avaliação médica.
Se tiver dor persistente, procure entender a causa, não apenas mascará-la.
Em casos de dor aguda, use com indicação, menor dose possível e curta duração.
Cuide da tríade básica: sono de qualidade, alimentação anti-inflamatória (rica em vegetais, ômega-3, antioxidantes) e recuperação ativa.
Conclusão
Como médico e atleta, vejo cada vez mais corredores jovens apresentando lesões renais discretas, mas progressivas, por uso crônico e desinformado de anti-inflamatórios. Dor é um sinal. Silenciá-la sem entender a causa é como desligar o alarme de incêndio e seguir dormindo.
Dr. Fernando César Menezes Assunção Nefrologista, clínico, triatleta, corredor e apaixonado pela longevidade e qualidade de vida @drfernandocesarassuncao Imagens: Freepik



