Desafio ‘Deus Me Livre’: quando a corrida vira comunidade (por Amilton Cruz)
- há 7 dias
- 5 min de leitura
O Desafio Deus Me Livre já existe há seis anos em São Bento do Sapucaí (SP). Sempre realizada no dia seguinte ao término da Indomit Pedra do Baú. Este ano, aconteceu a sexta edição. E, mesmo não tendo participado do primeiro ano, eu posso dizer com tranquilidade: essa prova faz parte da minha história. Dos seis anos de evento, eu estive presente em cinco — e em papéis completamente diferentes. Nos dois primeiros, fui torcedor. Aquele tipo de torcedor que não fica parado. Eu estive na largada, sentindo o frio na barriga dos atletas. Depois, fui subindo a serra por diferentes pontos do percurso, encontrando a galera no meio do esforço, gritando nomes, batendo palma, entregando energia até o último metro. Ali, mesmo sem correr, eu já estava dentro da prova. No terceiro ano, veio o convite. Fui “agraciado”, como quem participa da prova costuma dizer. E aí… veio uma das experiências mais marcantes que um corredor de trilha pode viver: passar pelo corredor humano. Gente dos dois lados da trilha, sinos tocando, palmas, gritos, alguém berrando seu nome como se te conhecesse há anos. Quem é do trail e já viu imagens de Zegama sabe do que eu estou falando.
Para mim, o Deus Me Livre é a nossa Zegama brasileira. Arrepia. De verdade. Nos dois anos seguintes, vivi o evento de um outro lugar: os bastidores. Ajudei na organização, na preparação, no dia da prova. Recepcionando atletas, anotando tempos, auxiliando quem chegava esgotado no final do percurso. É ali que você entende o tamanho real de um evento — não pela dificuldade da trilha, mas pelo cuidado com as pessoas. Este ano, foi diferente de novo. Fiquei mais “embaixo”, na muvuca boa do receptivo. Conversei com muita gente, ouvi histórias, vi ansiedade, vi alegria. Depois, fui para o meio do percurso, no trecho do pasto, torcer pela galera da bateria final. Acompanhei homens e mulheres por parte da prova, sentindo aquela mistura de silêncio da natureza com o som da respiração pesada de quem está dando tudo. Mais uma experiência única.

Bastidores que dizem muito sobre o que é o Deus Me Livre
O Desafio Deus Me Livre é organizado por um grupo de atletas, orientados pelo Seo Beija, e acontece na propriedade do amigo João Silveira, que fica nos metros iniciais do percurso.
E talvez o mais bonito desse desafio seja exatamente isso: não existe fim lucrativo. Para participar, você precisa ser convidado. E a “inscrição” não é dinheiro. É um pé de moleque do Félix ou uma broa de milho do Seu Vicente. Dois comércios simples, tradicionais, próximos da largada. Uma forma inteligente — e extremamente humana — de fomentar a economia local e valorizar quem faz parte da história da região. E aqui vem uma das partes mais bonitas deste ano. Um dia antes da prova, passei no Seu Vicente para comprar broas, como sempre faço para levar para São Paulo (quem conhece sabe: congela e continua perfeita). No dia da prova, minhas broas literalmente entraram no cardápio dos atletas. Então, na volta para casa, precisei passar lá de novo. Perguntei para ele: — Seu Vicente, como foram as vendas este ano? Ele sorriu e respondeu: — Nunca vendi tanta broa. Fornada atrás de fornada. Graças a Deus. E isso diz muito. Porque os atletas não levaram só o “mínimo”. Teve gente que levou pacote fechado de pé de moleque; outros levaram 2, 3, 4 broas. E até quem foi apenas assistir levou também. Tudo isso vira uma grande mesa coletiva: broa cortada, pé de moleque dividido, litros e litros de café passando de mão em mão. Atletas, voluntários, torcida — todo mundo junto. Isso é trail running na essência.
Pessoas, histórias e o que realmente importa
No receptivo, eu conhecia a maior parte dos atletas. Vi a alegria estampada no rosto de quem chegou. Vi a emoção de quem voltou e a apreensão do Seca Pimenteira (são os suplentes; caso alguém falte, eles assumem o lugar deles). Tivemos a Maria Elisa, a atleta mais jovem, com cerca de 12 anos, participando pelo segundo ano seguido. Tivemos a Leninha, com 69 anos, cruzando a linha de chegada. Um esporte difícil? Sim. Mas profundamente inclusivo. E tivemos o João. O João perdeu uma perna em um acidente há 17 anos. Perdeu parte do movimento de um braço. Nesse mesmo acidente, perdeu a esposa. E, anos depois, perdeu a filha para o câncer. Ele mesmo conta que pensou em desistir da vida. Mas foi no esporte, no treino e nesse desafio que ele encontrou suporte para continuar. Hoje, ele não lamenta. Ele celebra a vida e os 17 anos de renascimento. No fim das contas, o esporte ensina muito mais do que correr. Ele ensina a continuar.
Os campeões e o que eles representam
Por fim, não dá para encerrar essa edição sem falar dos grandes vencedores do Desafio Deus Me Livre. No feminino, a final foi disputada por Gabriela Rossato e a Gi Martins. A Gabriela vem, nos últimos anos, defendendo a seleção brasileira, enquanto a Gi também já representou o Brasil em campeonatos brasileiros e mundiais. As duas chegaram à final, e quem levou o título desta edição foi a Gabriela Rossato, com um tempo excelente — muito próximo e ainda acima do recorde histórico, que pertence à Lúcia Magalhães. Uma performance de altíssimo nível.
No masculino, o que vimos foi algo realmente fora da curva. O grande campeão foi Thiago Henrique, que disputou a final com o Vinicius Jamaica. Foi um embate forte, intenso, daqueles que prendem a atenção até o último segundo. No fim, a vitória ficou com o Thiago, com um tempo simplesmente absurdo: 12 minutos e 32 segundos. Para se ter uma ideia do que isso representa, esse tempo foi mais de um minuto abaixo do antigo recorde, que pertencia ao João Luiz de Passa Quatro e vinha sendo mantido há três edições consecutivas. Todo mundo imaginava que esse recorde cairia algum dia — talvez segundos, no máximo. Mas não assim. O mais impressionante é que o Thiago nunca havia estado em São Bento do Sapucaí, nunca tinha corrido o Deus Me Livre. No dia anterior, ele havia sido o segundo colocado geral nos 21 km da Indomit e, ainda assim, chegou e fez história. Vai ser difícil alguém bater esse tempo. E aqui cabe uma observação importante sobre a comunidade do trail. Mesmo com o espírito competitivo — seja contra os outros ou contra nós mesmos — o trail é um esporte extremamente coletivo. As pessoas se ajudam, se apoiam, puxam umas às outras para cima.
E o Desafio Deus Me Livre é isso: Uma prova que não é só sobre subir e descer trilha. É sobre comunidade, superação, pertencimento e humanidade.
Amilton Cruz
(arquiteto de TI, corredor de trilha e de provas de aventura e amante das montanhas)
Imagens:















