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Equilibrando pratos e cumes: A rotina de um atleta de performance que também bate ponto (por Diego Tales)

há 3 dias
3 min de leitura

O meu despertador toca às 4:30 da manhã. Das 5h às 6h, o treino é meu. Às 6h, ele passa a ser dos meus alunos, no treino presencial da minha assessoria de corrida. Às 8h, eu troco o tênis pelo crachá e começo o expediente como analista de redes.


Quando o trabalho acaba, na maioria das vezes tem mais um treino para ser feito e, depois, montar planilha, responder atleta, cuidar da casa e da família. Lá pelas 22h, eu desligo, e no dia seguinte começa tudo de novo.


Essa é a rotina de quem, no início de 2024, cruzou a linha de chegada do Ultra-Trail do Mont-Blanc (UTMB), em Chamonix, cravando o melhor tempo masculino brasileiro da história da prova: 26 horas e 40 minutos em volta do Mont Blanc.



A realização de um sonho de oito anos


Não tinha multidão me esperando. Estavam lá o meu treinador, alguns amigos, outros brasileiros que participavam do evento e a família acompanhando de longe. No entanto, a primeira coisa que passou pela minha cabeça não foi o tempo cronometrado; foi a realização de um sonho que começou oito anos antes.


De lá para cá, vieram outros grandes resultados, como o segundo lugar nos 130 km do UTMB Ushuaia. Também carrego na bagagem um segundo lugar marcante nos 110 km do Paraty Brazil by UTMB, os vices-campeonatos brasileiros de Long Trail e Short Trail, além da convocação para a Seleção Brasileira de Corrida de Trilha e Montanha.


Os custos do sonho


Mas existe um lado que quase ninguém vê na foto do pódio, algo que simplesmente não aparece. Uma viagem para correr o Ultra-Trail do Mont-Blanc custa entre 15 a 20 mil reais, somando passagem, hospedagem, inscrição e tudo o que vem junto. Quem pagou a minha foi o meu salário de analista de redes.


Contudo, o dinheiro é apenas uma parte da conta. Na Europa, muitos dos atletas que largam ao meu lado vivem exclusivamente do esporte; eles têm o que mais me falta, como horas ideais de sono, recuperação adequada e volume de treino pleno. Enquanto isso, eu gerencio uma hora de treino antes do sol nascer, treinos longos no fim de semana e, no meio da semana, muitas vezes acumulo dois treinos no mesmo dia.



Quando o trabalho e a paixão batem de frente


Há dias em que as duas vidas colidem de frente: um plantão no trabalho próximo a um treino essencial ou na semana de uma prova-chave. Nesses momentos, não há discussão; a prioridade se inverte e quem paga a conta vem primeiro. Eu já recusei uma convocação para participar do Campeonato Sul-Americano de Corrida de Trilha e Montanha justamente por causa do trabalho.


É por isso que eu digo que manter uma profissão fora do esporte não é uma questão de escolha, mas sim o que financia essa brincadeira. E foi exatamente isso que me ensinou a principal lição que levo para os meus atletas: não existe dia perfeito; existe o dia possível, repetido à exaustão.



O futuro e a busca por constância


O que vem pela frente? Em 2027, o plano é voltar para Chamonix — já estou inscrito —, com o objetivo de baixar o meu próprio recorde. Antes disso, em abril, encaro a Patagonia Run nas 100 milhas, além da possibilidade de representar o Brasil no Campeonato Mundial de Trilha e Montanha na Cidade do Cabo, em outubro.


Para chegar inteiro a todos esses objetivos, o desafio não é apenas físico; é encontrar alguém que acredite e abrace os meus projetos junto comigo. Para quem quiser conhecer mais da minha jornada, deixo aqui a minha página: https://www.instagram.com/diegotaless/.


E para quem lê este relato acordando cedo para treinar antes de encarar o expediente: eu sei exatamente como é. E garanto que dá. No fim das contas, não se trata de talento ou de sorte, mas de constância e continuidade.


Diego Tales

Analista de redes, corredor de trilha e montanha e treinador de corrida

@diegotaless / @dtendure



Imagens: Arquivo pessoal.

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