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Estreia nos 3 dígitos: Como superei o vento, o granizo e o intestino na Evolution Itatiaia (por Léo Kenichi)

  • 13 de jul.
  • 5 min de leitura

Antes de falar sobre os 100k que corri na Evolution Itatiaia, eu preciso mencionar sobre os 64k. Ambas as distâncias no mesmo lugar e com a mesma organização. As duas provas foram algo que não planejei muito para estar concluindo, pois foi tudo de momento do que eu vivo e as oportunidades que me aparecem por onde eu vou. Os 64k eu acabei ganhando a inscrição no camp do Chico Santos; sem querer acabei ganhando no sorteio. Quando a gente não quer algo, a gente ganha mesmo não querendo, né? E na época, não tinha distância intermediária: dos 21k já ia para os 64k. Então decidi me jogar nos 64k sem saber se conseguiria terminar; queria apenas viver essa experiência em um lugar tão especial para quem gosta de montanha e muito também pelo desafio que a prova é. Gostei tanto de correr lá que até hoje foi a minha melhor performance em prova acima de 50k, e isso também o ITRA confirma.


E com os 100k não foi muito diferente; só não ganhei a inscrição, mas decidi encarar ela "do nada", pois já tinha algumas provas no currículo que me davam o aval para esse desafio. Como já conhecia quase 70% do percurso e sei que a organização entrega um excelente evento, não pensei muito para estrear nos 3 dígitos nela, mesmo tendo um nível técnico bem elevado, o que não é muito comum ou recomendado para quem vai estrear distâncias novas.



Corpo forte, altitude e a nutrição impecável 


A minha preparação física não foi 100% do que queria. Me condicionei muito bem; o volume de treino foi um pouco abaixo do que queria. Consegui só fazer 1 treino na altitude graças ao camp do Corre Junto; dormir e ir fazer reconhecimento e adaptação à altitude foi essencial. Meu treino de base foi o melhor, pois eu fiz natação, boxe, musculação... tudo isso para ficar com um corpo forte e solto. Já na corrida foi o que faltou: um pouco mais de volume, mas fiz o mínimo para ser finisher. A parte nutricional foi a melhor: consegui emagrecer uns 5kg e manter o intestino bem saudável. Mesmo na semana da prova experimentando milhares de comidas diferentes na Naturaltech, o meu intestino não ficou tão prejudicado para a prova; isso só mostra que o meu dia a dia na alimentação foi impecável.


O pré-prova foi bem tranquilo. Chegamos na hora em que começou a retirada na sexta, fiz o check dos equipamentos obrigatórios, peguei o kit, entreguei os drop bags e logo voltei para casa para tentar descansar o máximo que desse.



Granizo, perrengue intestinal e a virada mental


Para a prova cheguei "atrasado", uns 15 minutos antes da largada. Ingeri um gel e tentei focar na largada, mesmo com a expectativa baixa que estava no dia. E quando deu a largada, saí bem de boa com o corpo um pouco travado; não estava conseguindo desenvolver uma boa corrida. No km 8 tive dor intestinal; aí depois disso fui administrando para não sofrer muito. Continuei seguindo mesmo assim até chegar no primeiro drop bag (30k, no Abrigo Rebouças) bem acima do que havia planejado, que era entre 3h40 e 4h40 — eu cheguei com 5h. Mantive a calma, troquei de tênis e meia, me nutri, reabasteci e continuei numa dura noite em que estava um vendaval com chuva de granizo. A minha sorte é que eu uso óculos, então pude continuar correndo mais "tranquilo". Assim continuei passando pelas trilhas da Pedra Furada sem conseguir correr direito; alternando entre trote e caminhada segui assim até o second drop bag (51k, PC Adalto), onde já planejava ficar por lá mesmo, já que meu intestino não permitia correr.


Chegando lá eu fiz tudo o que tinha direito: comi pizza, troquei de roupas, me hidratei melhor. Então não pensei em nenhum momento em desistir; só pensei que talvez eu iria brigar contra o tempo limite, já que estava tão acima do planejado. E como eu estava bem, sem nenhuma dor, não tinha motivo para desistir. Olhei para o relógio, era quase 10h de prova; então comecei a subir sem ter noção das subidas que tinha até o 70k. Durante a subida o meu corpo foi melhorando, a bad mental foi passando, me sentia já melhor; porém eu fui bem de boa até a Pedra do Sino, queria chegar o menos desgastado para fazer uma boa descida. Ao chegar na Pedra do Sino, senti aquela atmosfera surreal, uma energia natural inexplicável, parecia que tinha colocado os meus 80g de carbo para dentro; então comecei a descer bem e consegui imprimir um bom ritmo pelas pedras do percurso até chegar no Rebouças novamente, e sem pensar em mais nada do que me aconteceu antes, apenas seguindo no flow!



O "Kilian Jornet" de Itatiaia e a queda antes do pórtico 


Quando cheguei no Rebouças, eu parecia outro atleta. Sem perder muito tempo, troquei de roupa, reabasteci minhas garrafas, deixei ajeitado sem precisar tirar a mochila pelo caminho e estava com a sensação de como se estivesse largando na prova; blindei a mente e desci muito bem e forte. Me senti o Kilian Jornet fazendo a última descida da UTMB em Chamonix; foi a única parte que corri bem do jeito que queria e feliz! Ao chegar na arena, eu subi a escada; quando terminei e fui virar para o pórtico, chutei o chão e caí kkkkkkk. E isso ninguém viu porque estava escuro e o pórtico era uma rampa para subir e descer. Lembrava um pouco a estrutura do Ironman, tanto que a Fabi me zoou dizendo que não era Ironman, porque cheguei e logo mexi no relógio para encerrar minha atividade. Fiquei muito feliz em concluir, e receber aquele quadro com o mapa do percurso foi uma surpresa que tornou o momento mais especial. É bem bizarro isso, mas a minha ultra foi invertida do que normalmente acontece, mas pelo menos a parte de se divertir eu tive.



Conselhos de finisher


Fiquei hospedado em uma casa com amigos e fizemos a própria comida para não correr risco de passar mal. Treinem bastante, inclusive o condicionamento físico, e principalmente a nutrição, que faz e foi o maior diferencial para mim na prova. E se puderem, treinem no terreno da prova; correr na altitude sempre será o ponto mais crítico, e isso ajuda muito a compreender mais a montanha, pois é bem fácil se desesperar ou passar mal quando não se tem base de montanhismo.


Muito obrigado a toda a equipe Corre Junto pela oportunidade. Nos vemos por aí nas trilhas.


Léo Kenichi

Educador físico com foco em fortalecimento para corredores de trilha e de rua

@leokenichi


Imagens: Arquivo pessoal.

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