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Evolution Itatiaia: quando uma prova nasce do respeito à montanha (por Amilton Cruz)

  • há 6 dias
  • 5 min de leitura

Para falar da Evolution Itatiaia e da organização fantástica por trás dessa prova, eu preciso voltar no tempo. Mais precisamente ao ano de 2022, quando a Evolution entrou pela primeira vez no Parque Nacional do Itatiaia. Em abril daquele ano, recebi um convite especial da minha grande — e pequena — amiga Lígia. Ela e o Chico Santos haviam sido chamados pela organização para representar um sonho antigo do Edvaldo: realizar uma corrida que realmente passasse pelas principais trilhas do parque. Até então, muitas provas usavam o Itatiaia como vitrine. O parque estava no nome, na propaganda, nas fotos… mas não no percurso principal. A Evolution veio para mudar isso. O vídeo promocional da primeira edição já dizia tudo. Começava com a filha do Edvaldo e um amigo ainda crianças, olhando para o Pico das Agulhas Negras. Depois, a cena se projetava no futuro: Lígia e Chico correndo, materializando aquele sonho de criança.



Reconhecimento: amor à primeira trilha

Esse convite era para um treino de reconhecimento. Saímos de Maromba, subimos a Serra Negra, cruzamos a parte alta e, por fim, encaramos a famosa e temida "descida infinita" da Ruy Braga. Paisagens absurdamente lindas. Trilhas desafiadoras. Aquilo foi amor à primeira vista. Ali, tive também a oportunidade de conhecer pessoalmente o Chico Santos, um verdadeiro ícone do trail brasileiro. Depois daquele dia, nos encontramos outras tantas vezes e a admiração acabou virando amizade. A autorização para a prova veio na gestão do Aragão e, já ali, ficou claro que essa não seria uma corrida comum. O Edvaldo deixou uma coisa bem clara: não haveria fitas plásticas na marcação do percurso. Nada de poluir o parque. Nada de correr o risco de um animal ingerir aquele material. A solução encontrada foram estacas de madeira, feitas com cabo de vassoura, cada uma com refletores fixados. Junto disso, nasceu a campanha PET2, voltada para a confecção de madeira plástica. Esse material foi doado ao parque e utilizado na reforma e construção de pontes da travessia Ruy Braga — algo que até hoje continua sendo feito.



Minha experiência como atleta

Naquela edição de 2022, corri os 64 km. A largada foi em Maromba, ainda de madrugada. Saímos de van da parte baixa até o ponto inicial. Lembro perfeitamente: conforme subíamos, a vegetação estava congelada. Na parte alta, senti os efeitos da altitude. Não estava passando tão bem. Mesmo assim, segui e concluí a prova. Depois, conversando com outros atletas, ouvi a mesma coisa de muita gente: a experiência tinha sido simplesmente fantástica. Na edição seguinte, por conta de um contratempo, a largada e a chegada precisaram ser feitas na entrada do parque, na parte baixa.



2023: ajustes, aprendizados e novas trilhas

Em 2023, a largada mudou para o Hotel Donatti. O grande desafio daquele ano foi o estacionamento. Próximo à largada, praticamente não havia vagas. A orientação pré-prova era clara: estacionar na área do antigo Hotel Simon e descer a pé ou aguardar as vans. Foi também nesse ano que aconteceu algo muito importante: a recuperação da trilha dos Três Picos. Era uma trilha antiga, estreita, pouco usada, com sinalização precária e bastante fechada. Durante cerca de um mês, quatro pessoas trabalharam intensamente na limpeza e recuperação. O resultado foi fantástico. A trilha passou a ser utilizada e mantida pelo parque, entrou no percurso das distâncias 23 km e up/down, e hoje faz parte da rotina do local. A grande lição daquele ano foi clara: era preciso melhorar a experiência de transporte. Mais uma vez, competi nos 64 km.



2024: transporte resolvido e trilhas históricas de volta

Em 2024, a largada e a chegada continuaram no Hotel Donatti, mas o transporte deu um salto de qualidade. Atletas e acompanhantes eram levados por vans que partiam de um ponto antes da entrada do parque. Nesse mesmo ano, outra conquista enorme: a reativação da trilha dos Colonos. Uma trilha com mais de 50 anos, usada antigamente para acesso à Ruy Braga e ao Chalé Alpino. O Edvaldo e o Dudu levaram mais de um mês para mapear e limpar o caminho. Hoje, essa trilha também é mantida pelo parque e é muito utilizada por observadores de aves. Silenciosa, fechada, perfeita para quem busca contato puro com a natureza. Algumas das estacas de madeira foram substituídas por fibra de carbono, o que facilitou muito para quem marca o percurso, pois antes o peso de todas as estacas era muito grande. Em 2024, vivi a prova como staff. Fiquei na Ruy Braga orientando, torcendo, gritando, badalando sino. Foi uma experiência incrível.



2025: a virada definitiva

Em 2025, veio a grande mudança. A arena de largada e chegada de todas as distâncias passou a ser na antiga área de lazer do Hotel Simon, abandonada havia mais de cinco anos. Mato alto, piscina tomada pela vegetação, tudo largado. Onde muitos viam problema, o Edvaldo viu possibilidade. Com um trabalho árduo, aquela área ganhou vida novamente. E, de quebra, resolveu o maior gargalo de todas as edições: o estacionamento. O espaço é enorme. O local ficou tão bom que o próprio Parque Nacional do Itatiaia passou a utilizá-lo como área oficial de eventos — algo que não existia antes. Quase 100% das estacas de marcação foram substituídas por fibra de carbono. Nesse mesmo ano, a CBAt procurou a Evolution para sediar o Campeonato Brasileiro. Mesmo em cima da hora, a estrutura já criada permitiu que tudo acontecesse — e aconteceu muito bem.




2026: detalhe, cuidado e respeito

Em 2026, eu seria staff novamente, no km 51, no ponto conhecido como PC do Adauto. Duas semanas atrás, estive em Itatiaia com o Edvaldo e mais cinco pessoas, analisando as condições do percurso na parte alta. Esse é outro grande diferencial dele: o Edvaldo coloca a mão na massa. Ele conhece cada trecho, cada trilha, os moradores e cada rota de fuga. Trabalha com uma equipe médica excelente e é extremamente detalhista. Alguns dos que trabalham na prova são pessoas que nasceram e vivem na região. Existe também um limite rigoroso de atletas, imposto pelo parque. E, dentro dessa limitação, dá para dizer sem exagero: o Edvaldo faz milagre para entregar tudo o que a prova oferece. Conhecendo praticamente 100% dos percursos, posso afirmar: quase tudo é trilha. A parte baixa é densa, fechada, preservada. A parte alta é um espetáculo à parte, com montanhas rochosas simplesmente deslumbrantes. Na minha opinião, Itatiaia e toda a região formam o melhor parque de diversões para o trail e o esporte outdoor no Brasil. Fica aqui o convite: participem da Evolution Itatiaia e venham conhecer esse lugar único.



Falando da Evolution e do Edvaldo, tenho o seguinte entendimento: não é à toa que ele conseguiu a autorização para usar o parque e continua utilizando; ele sempre entrega uma ótima contrapartida para o parque e para quem o utiliza. Isso é um grande diferencial e penso que é assim que deveria ser em qualquer prova, pois fazer um evento e não levar nenhum benefício para onde ele vai ocorrer não se sustenta.


Amilton Cruz

(arquiteto de TI, corredor de trilha e de provas de aventura e amante das montanhas)

@amiltoncs



Imagens: Arquivo pessoal.

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