O valor estratégico de se afastar: quando parar também faz parte da performance (por Silvia Schreer)
- há 1 dia
- 4 min de leitura
No esporte, especialmente nas modalidades de endurance, existe uma associação quase automática entre consistência e evolução. A ideia de que é preciso estar sempre treinando, sempre performando, sempre avançando. Essa lógica, embora tenha sua base, desconsidera um aspecto fundamental: performance sustentável não se constrói apenas com estímulo, mas com a capacidade de regular esse estímulo ao longo do tempo. (Aqui entra um tema para outro artigo... a questão da longevidade). E, em determinados momentos, isso inclui se afastar.
A noção de progresso linear é uma das principais armadilhas para atletas amadores. Existe uma expectativa implícita de evolução contínua, como se disciplina fosse suficiente para garantir melhora constante. Na prática, a performance se organiza em ciclos que incluem momentos de construção, pico, recuperação e transição. É justamente nessa fase de transição, frequentemente negligenciada, que o organismo — físico e mental — reorganiza recursos para sustentar novos avanços. Quando essa etapa é "deixada de lado", o resultado tende a ser o acúmulo de fadiga, queda de rendimento, abertura de espaço para lesões e desgaste psicológico.
Portanto, é muito importante encarar o afastamento como parte integrante do processo. Não se trata de abandonar o esporte, mas de ajustar a forma como se está nele. Ressalto que existe uma diferença importante entre se afastar de forma estratégica e ter que se afastar por motivos "de força maior". Uma decisão consciente de reorganização e afastamento pode envolver redução de carga, pausa em competições, mudança temporária de modalidade ou uma revisão mais ampla de prioridades.

Fisicamente falando, há redução da fadiga acumulada, melhora na recuperação e maior qualidade no retorno. Mas... é no plano psicológico que o afastamento se torna mais complexo — especialmente quando o esporte ocupa um lugar central na identidade do indivíduo.
Em muitos casos, o atleta não apenas pratica o esporte, mas passa a se definir por ele. "Ser atleta" deixa de ser uma condição funcional e contextual e se transforma em uma identidade predominante. Este assunto é bem discutido na literatura de psicologia do esporte como identidade atlética, conceito que descreve o grau em que um indivíduo se identifica com o papel de atleta. Estudos clássicos mostram que quanto mais essa identidade se torna exclusiva e central, maior tende a ser a vulnerabilidade psicológica em momentos de afastamento, lesão ou transição, já que tais períodos passam a ser vividos não apenas como mudanças de rotina, mas como ameaças à própria identidade (Brewer, Van Raalte & Linder, 1993).
Diversos relatos recentes de atletas em diferentes modalidades reforçam esse achado de forma prática: o afastamento das competições raramente é apenas uma decisão física. Ele costuma emergir de um acúmulo de tensão interna, frustração com a inconsistência de resultados e dificuldade crescente de sustentar expectativas próprias e externas.
Nesse cenário, a decisão de se afastar é frequentemente ressignificada. Em vez de ser entendida como desistência, passa a representar uma tentativa de reorganização do processo. Ainda assim, o que torna essa decisão psicologicamente complexa não é apenas a interrupção do treino, mas o impacto sobre a identidade do atleta em si. Quando o esporte ocupa um lugar central na construção do "eu", interromper a prática pode ser vivido como uma espécie de descontinuidade de si mesmo.
Como consequência, o afastamento deixa de ser apenas um intervalo físico e passa a ser também um espaço vazio no tempo e na mente. Um espaço que, quando não é elaborado, pode ser rapidamente preenchido por ansiedade, comparação e sensação de perda de valor pessoal. Mas que, quando bem utilizado, abre uma oportunidade relevante: a ampliação da identidade para além do esporte.
Isso significa reconhecer que o atleta não "é" o esporte, mas "está" no esporte em determinados períodos da vida. Essa distinção, embora sutil, é clinicamente e psicologicamente importante.
Hoje, o cenário das redes sociais acaba deixando esse desafio ainda mais intenso. A exposição constante passa a sensação de que tudo precisa seguir sem pausa, como se qualquer interrupção fosse sinônimo de retrocesso ou perda de relevância tanto no esporte quanto na vida pessoal. Isso cria uma pressão externa que muitas vezes entra em choque com a necessidade interna de ajustar, recalibrar. Bancar decisões que não aparecem — e que nem sempre são validadas no ambiente digital — exige mais maturidade psicológica e, principalmente, critérios internos bem definidos.
Quando bem conduzido, o afastamento não interrompe a trajetória esportiva; ele a reorganiza. Há uma recuperação física, mas também uma reorganização da relação com o próprio esporte. O retorno tende a ser mais consciente, mais estável e menos dependente de validação externa.
Existe uma maturidade no esporte que vai além da capacidade de suportar carga ou manter consistência. Ela envolve a capacidade de regular, ajustar e, quando necessário, se afastar. Nesse sentido, parar não representa perda de identidade. Representa a possibilidade de reconstruí-la de forma mais flexível, mais integrada e mais sustentável ao longo do tempo.
Vou deixar aqui algumas aplicações práticas para atletas amadores que podem ajudar na estruturação do processo:
Planeje pausas: Inclua momentos de menor carga ou afastamento no seu ciclo — não espere a exaustão para isso.
Observe sinais precoces: Queda de rendimento, irritabilidade, desmotivação e dores recorrentes são indicadores relevantes.
Diferencie disciplina de rigidez: Disciplina sustenta o processo. Rigidez ignora o contexto.
Normalize o ajuste: Nem todo desvio de rota é um erro. Muitas vezes, é uma correção necessária.
Gerencie o ambiente: Reduzir a exposição em momentos de ajuste pode facilitar decisões mais coerentes.
Conclusão Performance não é apenas continuidade. É a capacidade de sustentar um processo ao longo do tempo. E, para isso, parar — em alguns momentos — não é uma falha. É estratégia.
Silvia Schreer
Psicoterapeuta com foco nas áreas clínica, esportiva e traumas (EFT) @silschreer
Referências Brewer, B. W., Van Raalte, J. L., & Linder, D. E. (1993). Athletic identity: Hercules' muscles or Achilles heel? International Journal of Sport Psychology, 24(2), 237-254. Imagem: Marcos Credie.



