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Não existe tênis ruim, existe o tênis errado para você (por Ian Homem de Mello)

  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Quero começar a correr e preciso de um tênis. Por onde eu começo? Quando chega o momento de escolher um tênis para começar a correr — ou até escolher um tênis novo —, é difícil saber por onde começar com a quantidade de opções que existem hoje no mercado. Não é só uma variedade enorme de modelos, mas também uma diferença muito grande de preço. Mas, para começar, é importante entender que nem todo tênis é para todo mundo, mas existe tênis para todo mundo. 


Eu sou designer e, pelo Kickstory, trabalho e pesquiso sobre tênis, tanto de performance quanto casual, há mais de 10 anos, e corro há um pouco mais de 4 anos. Aqui vão algumas considerações e insights pautados nos meus conhecimentos e experiências para te guiar nessa decisão. 


Corredora calça o On Cloudsoma durante evento do Corre Junto.
Corredora calça o On Cloudsoma durante evento do Corre Junto.

Tênis é uma das peças de vestuário mais complexas de se produzir. São muitos processos, etapas e logística para um tênis ir da sua concepção até as prateleiras da loja. Cada peça de um tênis representa um molde ou uma operação de máquina. Uma sola e entressola, entre diferentes tipos de espuma, borracha do solado e peças de estabilidade, podem chegar a ter 4 ou 5 componentes diferentes. Isso significa 4 ou 5 moldes diferentes. Agora multiplica isso por todos os tamanhos da grade masculina e feminina. 


Os moldes de entressola, feitos de metal ou alumínio, podem custar de R$ 3.000 até mais de R$ 20.000 por molde, e esses valores ainda podem variar dependendo do tipo de espuma e do método de aplicação. 


Muito além do desenho inicial, existe um time de designers e engenheiros com a missão de transformar aquele conceito em algo físico, reproduzível e que funcione dentro de um determinado custo. No caso do tênis de corrida, só montar o tênis não é suficiente para levar o produto ao mercado. São necessários testes, estudos e pesquisas para criar um tênis que aguente o estresse da repetição, o calor extremo – tanto do solo quanto do corpo – e a umidade. Todo acabamento e material adiciona peso ao tênis; até adicionar cor na espuma da entressola é algo complexo, porque isso pode alterar as propriedades do material. 


A diferença de preço entre um tênis mais básico, de entrada, e um tênis mais caro – ou até um supertênis de competição – normalmente está nos materiais e nos processos utilizados. Um tênis de R$ 200 ou menos provavelmente não vai entregar a mesma qualidade, durabilidade e, principalmente, tecnologia que um modelo mais caro pode oferecer. Uma entressola de EVA mais simples tem sensação e custo muito diferentes de uma superespuma proprietária de alguma marca. 


Ian já teve a oportunidade de conversar com equipes de desenvolvimento de diversas marcas esportivas e conhecer os conceitos por trás da criação de um modelo de tênis esportivo.
Ian já teve a oportunidade de conversar com equipes de desenvolvimento de diversas marcas esportivas e conhecer os conceitos por trás da criação de um modelo de tênis esportivo.

Com tantas opções no mercado, eu não diria que existem tênis ruins. Existem tênis certos e errados para determinadas pessoas ou momentos. Às vezes, é um tênis mais técnico que exige mais experiência, mais maturidade na corrida e na musculatura. Enquanto outros são mais “democráticos”, funcionando melhor para um grupo maior de pessoas. 


Na hora de escolher um tênis, o ideal é prestar atenção no que realmente é confortável para o seu pé. O ideal é conhecer como você pisa e entender o que você gosta, mas isso é algo que normalmente se adquire com o tempo e com o uso. No começo pode ser um pouco chato, quase um processo de tentativa e erro. 


Por isso, acho que vale escolher um tênis menos técnico nas primeiras escolhas. Buscar opções que pareçam o mais naturais possíveis no pé. Um tênis que não pareça estar forçando seu pé a fazer algo com o qual você ainda não está acostumado, como um drop muito alto ou uma geometria que te impulsione demais para frente. Também vale procurar um modelo que permita que o pé se expanda de forma natural durante a corrida. Conforme você for ganhando confiança, força e experiência, aí sim experimentar algo mais técnico, mais responsivo, até entrar no universo das placas de propulsão. 


Inicialmente, não me preocuparia tanto com o peso do tênis, porque às vezes vale muito mais um tênis que encaixe bem no pé e tenha sensação de leveza do que um tênis realmente leve, mas desengonçado, que passe sensação de pesado durante a corrida. 


A melhor experiência provavelmente vai vir quando você tiver esse conhecimento sobre o que funciona para você e passar a procurar tênis com essas características, em vez de simplesmente ir atrás “do melhor tênis” ou do modelo que está mais em alta. Mas também nada está escrito em pedra. Aqui as coisas são muito mais uma sugestão do que regras. 


Também é importante lembrar que, quando alguém diz que o tênis é muito confortável, isso é relativo. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. E existem muitos fatores que influenciam o conforto em um tênis de corrida além da maciez: resposta da espuma, controle, estabilidade e transição da passada. 


Às vezes, é um tênis mais técnico que exige mais experiência, mais maturidade na corrida e na musculatura. Enquanto outros são mais “democráticos”, funcionando melhor para um grupo maior de pessoas. 
Às vezes, é um tênis mais técnico que exige mais experiência, mais maturidade na corrida e na musculatura. Enquanto outros são mais “democráticos”, funcionando melhor para um grupo maior de pessoas. 

A durabilidade também é algo tão subjetivo quanto o conforto. Seu peso, a forma como o pé aterrissa, o tipo de terreno, o quanto seu pé transpira e até sua mecânica de corrida afetam diretamente a vida útil do tênis. Obviamente existem materiais mais resistentes que outros, mas isso é muito difícil de comparar, principalmente em relação à experiência de outros corredores. Um corredor pode ter um tênis com 300 km e a sola praticamente intacta, enquanto outro pode destruí-la com apenas 100 km. E não é só a borracha da sola que determina a vida útil de um tênis de corrida. A espuma também possui uma “vida útil”, um limite de tempo em que ela mantém suas propriedades sem comprometer a qualidade e o desempenho do material. 


E não menos importante: a estética. Na maioria das vezes isso não afeta diretamente a performance — embora às vezes tenha impacto no custo —, mas eu entendo que o design e o visual dos tênis são onde você consegue colocar história, identidade e narrativa dentro do produto. É também onde as marcas direcionam diferentes públicos e permitem que um tênis transite entre ambientes diferentes, fazendo com que um modelo possa virar algo que vai além da performance e esteja presente na moda e no uso casual. 


Eu parto do ponto de que um tênis de corrida tem que falar algo sobre você. Na minha opinião, ele precisa ter alguma coisa que chame atenção, e muitas vezes isso é o que faz eu me interessar – ou não – por um modelo. 


É possível correr com qualquer tênis, mas isso não quer dizer que não existam opções que possam melhorar a sua experiência, ou que sejam mais adequadas para as suas especificações. Existe muita informação na internet, funcionários bem treinados e muitas outras formas de buscar uma ajudinha para escolher o tênis que faça sentido para você. Experimentar o tênis ao vivo é imprescindível: dê aquele trotinho na esteira da loja e, se possível, preste atenção em como está pisando, no que funciona para você e no que você gosta. 


Ian Homem de Mello

Co-fundador da Kickstory, plataforma focada na cultura de tênis

@ianhomem

@_kickstory



Imagens: Alécio Cezar / @ianhomem


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