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O percurso interrompido: violência de gênero e a luta pelo direito de correr (por Aline Davila)

  • Foto do escritor: Eric Akita
    Eric Akita
  • 6 de jan.
  • 4 min de leitura

Ao longo do desenvolvimento humano e da organização social, o papel imposto às mulheres e aos homens foi se (re)configurando conforme as necessidades sociais, políticas e econômicas de cada período. A transição do feudalismo para o capitalismo foi determinante para a institucionalização e a homogeneidade destes papéis. a urbanização, símbolo da civilização e modernização, concretiza as cidades como um palco aberto das brutais tensões sociais, e nós mulheres hegemonicamente não estamos mais seguras dentro ou fora de casa. O Estado legítima a violência contra nós e conviver com o medo, com a dor, com a culpa e com o silêncio torna-se insanamente habitual.


Anos de lutas de classes sociais e lutas na perspectiva feminista, permitiram mudanças, ainda que limitadas, e passamos a ter mais acesso ao Estado democrático de direitos. Não diferente de tudo que compõe esta superestrutura social, o direito à prática ao esporte também ocorre com resistência e enfrentamento por parte das mulheres.


Na Grécia antiga, era permitida a participação, tanto atleta quanto espectador, apenas aos cidadãos; mulheres e pessoas escravizadas não eram considerados cidadãos. Com os avanços das lutas sociais, a inserção da mulher no esporte em um primeiro momento foi de espectadora das práticas masculinas, posteriormente, o acesso, ligado às classes sociais mais elevadas, permitia que as mulheres praticassem modalidades ligadas à estética e à beleza dos movimentos corporais, como o golfe, o tênis e a patinação.


Foi apenas em 1964 que ocorreu a liberação para a participação das mulheres nos jogos olímpicos, no esporte por equipe, no vôlei, e no atletismo. Somente em 2012 foi permitida a participação em todas as modalidades, a nossa proibição por anos no esporte, não somente em jogos olímpicos, conforma parte do papel de contenção de nossos corpos, de limitação da construção de nossa identidade, do nosso desenvolvimento na sua totalidade. Nos conceder o acesso é um passo importante, porém tem se mostrado insuficiente.


Corrida e a cultura que alicerça o percurso


A prática da corrida de rua tem como estrutura os espaços das cidades, portanto, quando pensamos nestes espaços, sabemos que não é seguro transitar com nosso corpo mulher, sejamos corredoras ou não. Se faz necessário que sejam asseguradas pelas instituições públicas melhorias para as cidades, a exemplo de segurança e iluminação pública, mas há algo que precisamos atentar: para a cultura que alicerça o percurso.


Quando sofremos uma importunação sexual pelas ruas da cidade, estamos falando sobre a cultura do estupro, a qual se caracteriza pela construção social de um comportamento que permite com que os homens pratiquem qualquer violência sexual contra as mulheres; trata-se também da normalização, por parte de homens e mulheres, destas violências a partir de uma visão de objetificação, inferioridade e subordinação das mulheres. É este comportamento social que também sustenta as relações sociais desta sociedade. a cultura do estupro precisa ser aniquilada, caso contrário seguiremos percorrendo no ritmo do medo.


A violência sexual não pode fazer parte do percurso


A importunação sexual sofrida por uma corredora na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, dá origem ao @movimentodasmulherescorredoras. O Movimento é instrumento de combate à violência sexual, que têm por objetivo acolher, informar e expor os casos de violências sexuais nos espaços públicos das cidades e nos espaços privados de treinamento.


Quando nos organizamos como Movimento, percebemos que precisávamos falar também entre nós sobre estas violências, muitas de nós desconheciam o tipo de violência que passavam, os meios de denúncias e sobretudo não mais silenciar, não mais conter nossa indignação ao sermos violentadas. No Brasil, apenas em 2018 foi sancionada uma lei sobre a importunação sexual, violência que os homens praticam há séculos. Frente aos números alarmantes da violência contra as mulheres, se faz necessária nossa organização também nos espaços da corrida.


Em pesquisa realizada pelo Movimento com 517 corredoras de rua de Porto Alegre, em agosto de 2024, revela-se que 85,5% já deixaram de sair para correr por medo; 67,7% já sofreram importunação sexual enquanto corriam e destas apenas 3,5% fizeram boletim de ocorrência. Os motivos? Por desconhecimento (10,1%), vergonha ou constrangimento (16,5%), medo (18,3%), falta de informação (22,9%) e descrença na eficácia das instituições responsáveis (32,15).


Sobre o que estamos falando na hora do jantar?


21 de novembro de 2025, Caterina Kasten, 31 anos, não pode chegar ao seu treino de natação naquela manhã, pois teve seu trajeto interrompido por um homem, que a estuprou e a assassinou. 24 de dezembro de 2025, Tainara Souza Santos, 31 anos, morre após 25 dias de internação, após passar por cirurgia para amputação das pernas, por ter sido dilacerada pelas ruas de São Paulo por um homem. Até o primeiro semestre de 2025, foram 718 casos registrados de feminicídio no Brasil, média de 4 mulheres mortas por homens por dia. os registros de estupro chegaram a 187 casos por dia em 2025. e infelizmente, estes números ainda não correspondem ao real.


Século XXI, ano de 2025, seguimos perdendo nossas vidas, sendo invadidas, expostas, inferiorizadas e pré-julgadas pelas violências (crimes) que os homens praticam contra nós. Leve este assunto para a mesa do jantar com seus filhos, maridos, namorados, pais, tios, avós, netos, irmãos, amigos. Se faz necessário manter diariamente viva e quente a indignação sobre a mesa.


Aline Davila

Corredora de rua e propulsora do Movimento das Mulheres Corredoras

@movimentodasmulherescorredoras

@aline.fdavila



Em 1967, a universitária alemã Kathrine Switzer ficou mundialmente conhecida por ter se tornado a primeira mulher a correr a Maratona de Boston com um número de inscrição oficial, em 1967. O detalhe: a presença de mulheres era até então proibida e Kathrine só conseguiu se inscrever porque colocou apenas a inicial de seu nome. O diretor da prova (de roupa preta na foto) tentou retirar ela à força da prova, mas foi impedido por outros corredores.
Em 1967, a universitária alemã Kathrine Switzer ficou mundialmente conhecida por ter se tornado a primeira mulher a correr a Maratona de Boston com um número de inscrição oficial, em 1967. O detalhe: a presença de mulheres era até então proibida e Kathrine só conseguiu se inscrever porque colocou apenas a inicial de seu nome. O diretor da prova (de roupa preta na foto) tentou retirar ela à força da prova, mas foi impedido por outros corredores.

Imagem: Boston Globe


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