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O Rito das 12 Horas: Meu relato n'A Maldição do Corpo Seco (por Carlos Arruda)

  • há 6 dias
  • 5 min de leitura

A Maldição do Corpo Seco tem um perfil muito específico, o endurance puro; busca quem sabe onde se mete. Desde o desafio de 6 horas numa pista de atletismo, soube que a ideia de repetição era o que eu curtia. Fazer a mesma coisa por horas pode tirar muitos do foco, mas é onde mora o meu talento. Fui junto com a Sal Running, que nessa edição patrocinou o evento, e com o apoio da Fila Brasil. Participar da Maldição não é uma escolha, o seu “currículo da corrida” tem que ser aprovado pela organização, a fim de apenas colocar na largada quem é capaz de suportar o rito das 12 horas. É um chamado.



Preparação física e mental


A preparação foi rápida. Vim da Pedra Grande Ultra Trail Challenge - 55km, onde peguei o 2° lugar na categoria, e em um intervalo de 20 dias fui para a Maldição. O meu volume ainda estava alto e deu para encaixar. Sabia que na Maldição, por ser um desafio estilo “backyard” ("quintal" em inglês), a preparação mental tinha que ser muito bem feita. A prova se ganha pelo cansaço mental, então trabalhei segmentos em meus treinos longos que passavam e acumulavam muitos quilômetros e elevação de uma vez só. Um treino crucial para entender a prova foi o que fiz subindo a Serra de Santos.


Lidando com o frio e a privação de sono


Muitas coisas se correlacionam quando nos preparamos para uma ultra — o sono com a alimentação, a hidratação com a suplementação, enfim —, mas para a Maldição tinha um detalhe com o qual eu não tinha lidado antes: a privação de sono, por conta da largada à meia-noite, e o frio, que chegou a bater os 5°C (com a sensação térmica bem menor). Tive que, durante a semana, dormir mais cedo, acumular um sono melhor, e me vestir totalmente diferente do que geralmente faço para correr, com calça legging, manga longa e anorak. Não posso deixar de comentar o planejamento de terceiros que aconteceu, afinal um grupo de nove amigos esteve presente para me auxiliar a completar a Maldição, revezando durante a madrugada para se manterem acordados em tal frio e sono. Eles também conquistaram junto as 12 horas.



O rito na trilha "Deus Me Livre"


Resumir a Maldição como uma ultramaratona de montanha é diminuir totalmente o que ela representa. A Maldição é um rito. São 12 horas subindo a emblemática Deus Me Livre, em São Bento do Sapucaí, aos pés da Pedra do Baú. São 4,5 km com 410 metros de desnível positivo. Largávamos no Paiol, subíamos a Deus Me Livre e íamos até o Mirante do Bauzinho. A largada era à meia-noite. A soma do frio com a altimetria castigava, e ali deu para entender que todo o “misticismo” das próximas 12 horas era real. Era uma maldição — não das que fazem mal, mas das que nos desafiam —, e eu estava totalmente preparado para entrar nela.


A trilha Deus Me Livre dispensa comentários; só pelo nome ela transmite o que representa. Segmentada em alguns trechos, sendo a maioria técnica, com pedras soltas e raízes expostas, a Deus Me Livre cumpre o seu papel crucial na Maldição: quebrar a sua expectativa e a sua coragem. Faz sentido encararmos ela. A subida era dolorosa, o lactato apertava, e logo após tínhamos um trecho de estrada até o Mirante do Bauzinho. O frio apertava ainda mais, estávamos a 1.700 metros de altitude. Ali tinha um fiscal de arbitragem anotando os nossos números de peito, para assim a nossa “volta” ser cronometrada. Descer o que tínhamos subido com muito esforço... a descida era incrível, uma explosão de adrenalina, até chegarmos na largada, com outro fiscal anotando nosso número de peito. Ali, o que tínhamos de grande diminuía, pois a Deus Me Livre estava imóvel para a nossa próxima subida. Doze horas disso.



A magia da madrugada e o amanhecer


Correr de madrugada de alguma forma é estranho. Parece que eu estava fazendo algo errado, sabe? Somos uma espécie diurna, a noite serve para fechar a janela do dia. Porém, especialmente nessas 12 horas, a janela estava aberta, e podíamos encarar a madrugada como um mundo à parte. O senso de localização se perde, tudo parece estar longe, e a floresta? Ela chama. Respira, calma, como se nada acontecesse, mas ciente de tudo.


O céu era rasgado de estrelas, um espetáculo à parte. O frio estava o suficiente para doer, mas tinha tantas sensações envolvidas que tudo virava um background. O importante era continuar seguindo, conquistando a madrugada e se preparando para o amanhecer, que pela primeira vez consegui acompanhar do começo ao fim. O laranja do sol contornando a Serra da Mantiqueira, contrapondo o denso escuro do céu ainda estrelado... aquilo não passava nem perto de ser uma maldição.



O fim do prazo e as contas finais


O dia amanhece e o que eram 12 horas vira algumas horas, que posteriormente viram minutos e segundos. O final da prova foi puxado. O meu corpo não reagia muito bem, parecia que eu estava correndo desde meia-noite (risos); porém, não conseguia deixar de esbanjar a minha felicidade.


Não consegui completar as 12 voltas. Parei na nona, com 45 km e 3.700m de desnível positivo em 12 horas de prova. Longe de sair como “perdedor”, terminei a prova muito bem, sorrindo e curtindo com os meus amigos, e isso é o que importa. O Corpo Seco conseguiu dessa vez, a maldição me dominou. Fechei o meu cadeado na porteira que está no começo da Deus Me Livre e a chave ficou com o João (organizador da prova). Para quebrar a maldição e destravar o meu cadeado, eu vou precisar ser finisher em outra edição. Até lá, uma parte de mim fica em São Bento do Sapucaí e outra em Santo André.



Conselhos para quem quer desafiar a Maldição


Para quem quer encarar esse desafio, a minha dica é: não encare como uma prova, um longo caminho que você deva seguir. A Maldição acontece em cada volta; sem uma feita, a outra não existe. A importância de um corpo preparado acima de tudo é real! Não é gel de carboidrato ou algum gear high-tech que você tenha que vai te salvar. A Maldição começa no material e vai para o mental; se você não estiver focado, ela te domina. A madrugada consome e o dia incendeia. Lembre-se de que, independente de dogmas, a floresta é um ambiente sagrado. Devemos respeitar a sua imponência e força; não tente medir o seu tamanho com tudo que exista dentro dela.


Aquele que chegar não será o mesmo que partiu.


Carlos Arruda

Analista fiscal, universitário e ultramaratonista

(@carlosrruda)


Imagens: Leandro Belini / Felipe Paschoal

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