Quando as montanhas mudaram a direção da minha vida (por Ana Paula Massucato)
- 10 de ago.
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Minha história na corrida de trilha e montanha foi semeada em julho de 2024, vinda de uma mudança de Campinas para Cruzeiro, no Vale do Paraíba, que transformou a minha forma de viver após ter passado por questões relacionadas à minha saúde.
A vontade de sair da cidade grande sempre existiu e, quando recebi uma oportunidade de trabalho por aqui, do ladinho das montanhas da Serra da Mantiqueira, isso se tornou minha realidade.
Sempre fui apaixonada pela natureza. Passei minha infância e adolescência em um sítio aos pés da Serra do Japi, em Jundiaí, e isso moldou meus valores, meus hábitos e quem eu sou.

O encontro inesperado com a corrida de trilha
Quando eu e meu marido, Felipe, nos mudamos, não tínhamos a dimensão de que a região onde agora morávamos era cenário de grandes montanhas, como a Serra Fina e o Parque Nacional do Itatiaia.
Em um sábado de agosto de 2024, fomos conhecer Passa Quatro (MG), a cerca de 40 minutos da nossa casa. Quando chegamos, fomos surpreendidos pela movimentação. Os trilheiros já devem imaginar o que estava acontecendo: a La Misión Brasil.
Ficamos encantados. Até então, não tínhamos conhecimento da corrida de trilha e, por acaso (ou talvez destino), fomos parar justamente na maior festa trail do país. Ver a superação estampada no rosto de cada atleta, sentir a energia do evento e conhecer a potência da Serra Fina despertou em mim a certeza de que eu precisava viver aquilo.

O início dos treinos e os primeiros pódios
Foi então que comecei a procurar uma assessoria que pudesse me ajudar a alcançar esse objetivo. Fiz minha inscrição para os 25 km da La Misión Brasil mesmo sem nunca ter corrido 5 km sem parar.
Encontrei o Jeferson Braga, treinador da Tribus Trail Runners de Itamonte/MG, um profissional experiente em Trail Running e conhecedor das montanhas da região. Comecei a correr oficialmente em novembro de 2024, seguindo um planejamento robusto para essa meta ousada.
Para que eu ganhasse experiência em provas e chegasse melhor preparada à La Misión Brasil, minha primeira corrida da vida foi a Tutan Transmantiqueira, em abril de 2025. Para minha surpresa, conquistei o 2° lugar na minha categoria nos 12 km. Depois vieram a Evolution (12 km) e a Terras Altas (15 km), onde alcancei meus primeiros pódios gerais: 4° e 3° lugar, respectivamente.
Viver a La Misión Brasil em 2025 foi uma experiência maravilhosa, e ainda cruzei a linha de chegada como a 13ª mulher no percurso dos 25 km, uma grande surpresa. Fechei a temporada na WTR Campos do Jordão, nos 36 km, conquistando o 5° lugar geral.

Performance, disciplina e equilíbrio
Minha intenção inicial com a corrida passava longe da performance, mas os resultados que fui alcançando e o autoconhecimento obtido despertaram em mim a vontade de continuar e descobrir até onde eu poderia chegar. Eu estava, e ainda continuo, vivendo algo completamente novo que tem feito muito sentido.
Minha evolução na corrida tem sido rápida, mas acredito que ela também é fruto de uma base construída em mais de dez anos na dança. Fui bailarina de jazz e dança contemporânea, e algum esporte sempre fez parte da minha vida.
Conciliar a rotina de atuar como engenheira CLT com a rotina de atleta amadora é desafiador. Meus treinos de corrida, planejados pelo Jeferson Braga, variam de 3 a 6 vezes na semana. Faço fortalecimento, fisioterapia, além de yoga e terapia. Apesar da rotina intensa, busco encontrar um equilíbrio que faz tudo isso valer a pena e me motiva a seguir evoluindo.

O desafio na Terras Altas Trail Run
Comecei 2026 ainda mais focada em me desafiar. Neste ano, minhas conquistas na corrida de trilha e montanha somam 4 vitórias: UD Passa Quatro (15 km), WTR Agulhas Negras (33 km), Evolution Itatiaia National Park (23 km) e Terras Altas Trail Run (25 km), além de dois 3° lugares gerais na WTR Arraial do Cabo (30 km) e Indomit Pedra do Baú (21 km).
Dentre elas, a Terras Altas teve um significado especial para mim. As montanhas de Itamonte fazem parte do meu "quintal mineiro", a apenas uma hora de casa, onde costumo treinar com a galera da Tribus Trail Runners.
A prova contou com percursos de 7 km, 15 km, 25 km, 35 km e 55 km, passando por cenários marcantes de Itamonte, como a Pedra do Picu, o Pico da Boa Vista e a Pedra do Cabrito, com chegada na charmosa Praça da Igreja Matriz.
Desta vez, decidi aumentar o desafio e me inscrevi nos 25 km. Eu e meu marido fomos para Itamonte na manhã de sábado. Uma grande amiga retirou nossos kits na noite anterior e nos encontramos na arena da prova, próximo de onde saía o ônibus para a largada, no bairro Colina. Gostei bastante dessa logística, que funcionou muito bem.

Caldeirão de emoções e a força das montanhas
Todos esperavam o frio, e minha mochila estava com os itens obrigatórios focados nesse cenário, mas a largada, às 10 horas, foi acompanhada de sol e calor.
Os primeiros 5 km foram de subida intensa, com 900 metros de ganho de elevação até o Pico da Boa Vista — um percurso bastante exigente, mas que, em compensação, tinha uma vista para as montanhas de Itamonte, a Serra Fina e o Parque Nacional do Itatiaia que fazia qualquer esforço valer a pena.
Fui a primeira mulher a alcançar o cume em 58 minutos. Parte da descida foi pelo mesmo caminho da subida, com sinalização excelente — aliás, um ponto forte de toda a prova.
Os pontos de apoio estavam no km 9,5, no Sítio Nova União, e no km 20. Parei nos dois para reabastecer e aqui entra o charme de Minas Gerais: doce de leite, goiabada e queijo, além de água e refrigerante. O percurso ainda contava com um ponto de hidratação em uma nascente, que foi perfeito para aliviar o calor.
Como o próprio nome da prova sugere, as subidas não deram trégua. Encarei mais um trecho de 1,5 km com 200 metros de ganho de elevação, passando entre pastos e mata fechada, enquanto lidava com sensações imprevisíveis: enjoo, dores no diafragma e muito calor.
Perto do km 20, eu estava focada em chegar, com o olhar fixo em cada passo, quando ouvi um corredor à frente dizer: "Que coisa mais linda!". Levantei a cabeça e vi a mata se abrir para um horizonte tomado por montanhas: o Campo dos Ramos. Foi impossível não me emocionar. Sem dúvida, esse foi o momento mais marcante da prova.

A chegada vitoriosa e a hospitalidade mineira
Os 5 km finais foram de longas descidas em estradas de terra. Aqui já estava muito desafiador física e mentalmente, pois confesso que prefiro as trilhas. Nos 25 km, o desnível negativo supera o positivo: foram cerca de 1.600 metros de descida contra 1.340 metros de subida dos quais minhas pernas se lembraram durante alguns dias.
Durante toda a corrida, eu sabia que liderava entre as mulheres, mas foi quando avistei a Igreja Matriz, já próxima da chegada, que tive a certeza de que seria a campeã.
Completei o percurso em 03h06, fui a 6ª colocada geral e conquistei minha terceira vitória consecutiva em menos de 30 dias.
A Terras Altas entregou exatamente o que promete: trilhas variadas, paisagens incríveis, trechos técnicos, Trail Running raiz e o acolhimento que os mineiros sabem oferecer.
Como a premiação aconteceu apenas à noite, passamos a tarde na casa de amigos que sempre nos recebem depois dos treinos com café fresco, pão de queijo e uma boa conversa. Mais tarde, encerramos o dia comemorando na Barrica Pizzaria, ao lado da arena da prova.
Itamonte tem um jeito único de acolher. Para quem visitar a cidade, deixo algumas recomendações: almoçar na Esquina Mineira e experimentar o famoso canudo de doce de leite feito na hora, conhecer as delícias da Casa Alvorada e levar para casa os queijos da Dom Carmelo, vendidos no Supermercado Arco-Íris. Meus favoritos são o Mantiqueira de Minas e o Cremoso da Mantiqueira.
Ana Paula Massucato
Engenheira ambiental e civil e corredora de trilha e montanha
@ana_massucato
Imagens: Arquivo pessoal.



