Lavaredo 50K by UTMB: o sonho realizado nas montanhas das Dolomitas (por Rejane Camargo)
- 3 de ago.
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Acho que todo corredor tem aquela prova dos sonhos. Aquela que, por anos, ocupa um lugar especial na lista de desejos e que representa muito mais do que uma simples corrida. Para mim, essa prova sempre foi a Lavaredo 50K by UTMB.
Muito antes de imaginar que um dia estaria ali correndo, eu já sonhava em conhecer as Dolomitas. As montanhas, as paisagens e a grandiosidade daquele lugar sempre me fascinaram.
Em 2025, tentei a sorte no sorteio, mas não fui selecionada. Em 2026, finalmente chegou a minha vez.
Desafios no caminho e superação
Essa foi a minha segunda ultramaratona. O ciclo de preparação, porém, esteve longe de ser perfeito. Conciliar os treinos com o trabalho foi um grande desafio e, cerca de um mês e meio antes da prova, comecei a sentir muitas dores no quadril. Precisei interromper os treinos e passei alguns dias sem saber se conseguiria estar na linha de largada.
Nesse período, a fisioterapeuta Fernanda Rizzo, especialista no atendimento de corredores, fez um trabalho incrível para que eu conseguisse me recuperar a tempo. Embarquei para a Itália com a sensação de que não tinha feito tudo o que precisava. Minha meta mudou: já não era mais buscar tempo ou desempenho, era simplesmente completar a prova, minha treinadora acreditava muito mais do que eu que eu conseguiria.

A chegada à Itália e a preparação
Para viver esse sonho, a jornada começou ainda antes da largada. Cheguei pelo aeroporto de Veneza, onde passei dois dias conhecendo a cidade, e depois seguimos de carro em direção às Dolomitas.
A região não é das mais baratas, então, para conseguir aproveitar essa experiência de uma forma mais tranquila, escolhemos ficar em um Airbnb em Longarone, uma cidade charmosa localizada aproximadamente a uma hora de Cortina d’Ampezzo. Foi uma ótima escolha: uma cidade pequena, acolhedora e com aquele clima especial das regiões de montanha.
Chegamos na quarta-feira e, na quinta, fizemos um dos passeios mais incríveis da viagem: o Lago di Braies. Um lugar simplesmente imperdível, com uma beleza difícil de descrever. Para quem está na região da prova, é também uma ótima oportunidade para movimentar o corpo antes do desafio: são cerca de 3 km ao redor do lago, que podem ser feitos caminhando ou até em uma corrida leve para soltar as pernas.

A magia de Cortina d’Ampezzo
Confesso que cheguei na Itália um pouco desanimada. Mas bastou colocar os pés em Cortina d’Ampezzo para tudo mudar. A energia da cidade, a atmosfera da prova e a beleza quase inacreditável das Dolomitas despertaram novamente aquela motivação que tinha me levado até ali.
A organização da prova é impecável. O percurso é simplesmente espetacular, mas também extremamente técnico. O terreno é muito diferente do que estamos acostumados no Brasil: pedras, muitas pedras, praticamente o tempo todo.
Os 48 km de intensidade e paisagens brutais
Até o quilômetro 24, a prova fluiu muito bem. As subidas eram constantes, mas existiam vários trechos corríveis. Entre os quilômetros 24 e 31 veio a parte mais dura: subidas técnicas, muita inclinação e um desgaste físico enorme.
E quando parecia que a parte mais difícil tinha passado, veio a longa descida. Por volta do quilômetro 40, a chuva começou. A trilha ficou ainda mais desafiadora, com pedras escorregadias e uma inclinação negativa bastante acentuada. Foi um trecho que exigiu atenção e concentração a cada passo.
Mesmo assim, cada quilômetro percorrido recompensava todo o esforço. Foram 48 km e aproximadamente 2.600 metros de ganho de elevação, atravessando algumas das paisagens mais bonitas que já vi na vida. Em muitos momentos era impossível não reduzir o ritmo apenas para admirar aquele cenário.

Um linha de chegada de emoções
Cruzar a linha de chegada foi emocionante. Minha família viajou comigo e estava lá, esperando e torcendo por mim. Ter esse momento compartilhado com eles tornou essa conquista ainda mais especial.
A Lavaredo foi, sem dúvida, a prova mais bonita e também a mais difícil que já corri. A preparação nem sempre acontece exatamente como planejamos, mas faz parte da jornada saber se adaptar, confiar e seguir em frente.
Rejane Camargo
Especialista em análise de dados e corredora de trilha
Imagens: Arquivo pessoal.



