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Quando o apoio vira caminho: uma homenagem às mulheres no Dia das Mães (por Amilton Cruz)

  • 9 de mai.
  • 6 min de leitura

Porque tem uma realidade que eu não consigo ignorar: hoje, para muitas mulheres, até o simples ato de sair para se movimentar virou um cálculo mental diário. “Onde eu vou?”, “que horas?”, “vou sozinha?”, “é seguro?”. E isso rouba uma coisa que deveria ser básica: liberdade.


E é aqui que eu quero fazer um paralelo com a minha vida: com o esporte, com a corrida em trilha, aventura e apoio em provas, com a rotina — e com o papel que eu acredito que o homem precisa assumir, de verdade, dentro de casa e fora dela. “Mulher não precisa de permissão. Precisa de caminho livre.”


Luciana e Murilo na chegada da La Misión Brasil.
Luciana e Murilo na chegada da La Misión Brasil.


A minha virada: disciplina não nasceu do nada

Eu comecei a correr em 2016 por necessidade. Não foi romantizado, não foi “inspiração de rede social”. Foi vida real: eu precisava perder peso, ganhar saúde e ter energia para a minha família. No começo, correr na rua era maçante, repetitivo, sem graça. Eu ia porque eu precisava, não porque eu amava.


Até que apareceu uma oportunidade diferente: minha esposa Luciana me apresentou a um amigo que fazia trekking; esse me chamou para uma prova trail em Mairiporã. Eu fui. E ali eu encontrei algo que fez sentido: o outdoor, o trail, o desafio vivo, diferentes estímulos e motivações.


Depois disso, eu entrei na assessoria JVM e virei o que eu sou hoje: um atleta amador extremamente dedicado, competitivo, disciplinado e amante do outdoor. Disciplina, para mim, não é um talento. É uma escolha repetida. Minha rotina, há anos, funciona assim: eu acordo muito cedo (madrugada). Treino. Cuido da alimentação. Cuido do meu filho. Levo para a escola. E só então o dia “começa de verdade”.


E eu carrego um princípio que eu repito sem vergonha: eu sou a pessoa mais importante; eu cuido de mim primeiro para conseguir cuidar dos outros. “Cuidar de você não é egoísmo. É abastecimento.”


Amilton (à frente), a esposa Luciana e o filho Murilo.
Amilton (à frente), a esposa Luciana e o filho Murilo.

Quando o esporte virou atrito — e eu precisei crescer

Só que disciplina tem custo. E quando a gente entra no mundo do treino sério, principalmente no trail, não tem mágica: longão toma tempo, exige energia, exige presença… e às vezes isso bate dentro de casa. No início, eu tive problemas com a minha esposa, sim. Final de semana eu saía para treinar e demorava para voltar. E isso gera estresse — porque não é só o tempo fora, é o que fica pendente, é a sensação de “sobrou tudo para mim”.


E aqui entra um ponto que eu considero essencial: eu nunca aceitei que o meu esporte virasse desculpa para eu não assumir a casa. Então, mesmo com treino, eu fazia questão de estar presente: eu limpava a casa, ia à feira, ia ao mercado, resolvia as coisas. Eu não “ajudava” — eu fazia, porque também é meu. Isso foi uma forma real de diminuir o estresse: tirar da minha esposa a sensação de carregar tudo sozinha. “Parceria não é discurso. É divisão de carga.”



O ponto de virada: quando ela começou a entender por dentro

Em 2019, ela percebeu que eu não mudaria em relação à minha dedicação ao esporte e à minha saúde física e mental, então aconteceu algo que mudou o jogo: minha esposa começou a treinar na mesma assessoria, sem que eu soubesse. E aí é como se um interruptor tivesse virado.


Ela passou a entender a rotina, a disciplina, o corpo cansado, a cabeça “cheia” quando você não treina, o quanto isso organiza a mente e os benefícios da atividade física e integração com a natureza. Ela conheceu pessoas, fez amizades, viu o esporte como ambiente social também, conheceu lugares novos e extraordinários, se desafiou nos treinos e em provas — e aquilo ficou prazeroso para nós dois.


E eu entendi uma coisa importante: quando a mulher encontra um espaço dela, ela não está “tirando tempo da família”. Ela está voltando para a família mais inteira. “A mulher que treina não foge da vida. Ela volta mais forte para ela.”


Murilo recebe sua mãe Luciana na linha de cruzada da Indomit Pedra do Baú.
Murilo recebe sua mãe Luciana na linha de cruzada da Indomit Pedra do Baú.

Nem todo dia ela quer — e é aí que o homem mostra quem é

Só que motivação não é constante; para a mulher isso é muito mais evidente, seja pelo ciclo menstrual, seja pela falta de segurança. Houve momentos em que ela entrou em períodos difíceis e está em um desses: falta de energia, pouco ânimo — e isso é muito comum em fases como menopausa, por exemplo.


E é aí que muita gente erra: o homem acha que apoiar é falar “vai lá”. Não é. Por vezes, para motivar ela e não deixá-la ir sozinha, eu fiz treinos com ela. Abri mão do “ritmo ideal”, do “plano perfeito”, para caminhar junto. E depois, quando ela terminava, eu partia para o meu treino principal. Isso é muito mais do que incentivo. Isso é presença. E presença é um tipo de amor que não precisa falar alto. “O treino dela é tão ou até mais importante que o meu. E isso precisa aparecer na agenda e nas atitudes, não só na boca.”


Ainda assim, há dias em que isso tudo não é suficiente; ocorrem embates onde eu cito a importância de se manter em movimento e se cuidar. Do lado dela o argumento: "você não sabe o que nós mulheres passamos nessa fase". Obviamente com exatidão não sei, mas tenho bastante noção. O que sempre falo, reforço e vou continuar a falar para todas as mulheres e até para os homens: por maior que seja o seu problema e por mais difícil e desanimador que seja praticar alguma atividade física e cuidar da alimentação, é preciso entender que é algo que precisa ser feito. Se não for feito, o corpo e a saúde irão cobrar por isso. Ou seja, se não cuidar da saúde hoje, amanhã será obrigado a tratar uma doença.



Os detalhes que mudam tudo: Criar o cenário para ela treinar

Há alguns anos tenho o privilégio de trabalhar em uma empresa onde trabalhava flex office (alguns dias em casa e outros no trabalho); hoje sou 100% home office. Usei isso a nosso favor, sendo uma de minhas prioridades liberá-la ao máximo dos afazeres do lar. Cuido dos nossos filhos (Murilo e Fred, este nosso pet). Faço a alimentação. Levo e busco na escola e curso. Organizo a casa. Faço feira, mercado.


Todo o possível para, quando ela chegar, ela poder focar no treino e cuidar de si. E isso quebra um pensamento muito comum e muito errado: “mulher tem que dar conta do trabalho, da casa, do filho, da comida… e se sobrar tempo, treina.” Não. Casa e filho são responsabilidade dos dois. E quando o homem assume de verdade, a mulher respira. E quando ela respira, ela volta a ter espaço para existir. “A casa não é ‘ajuda’. A casa é compromisso compartilhado.”



Segurança: tem coisa que a gente não vive — mas precisa entender

Outro ponto real e difícil: insegurança. Muitas mulheres não se sentem seguras para treinar sozinhas dependendo do local e horário. E isso é cruel, porque mexe com autonomia. Então, um jeito prático de apoiar é estar junto: acompanhar, buscar, ir junto, combinar horários, formar grupo.


E aqui entra uma dica muito importante que você mesmo falou: mulheres, treinem em grupo, chamem amigos. Coletivos ajudam; sinto falta de união entre as próprias mulheres. Talvez a saída seja pensar menos em “um coletivo” e mais em rede: encontros, treinos compartilhados, pontes entre grupos. “A trilha ensina: sozinha você vai… mas juntas vocês vão mais longe e mais seguras.”



Um recado direto aos homens

Eu acho que falta muito isso aos homens: achar que incentivar é falar “vai lá”. Não é. Incentivar é ser parceiro:

• dividir rotina

• dividir tarefas

• dividir cuidado

• dividir presença

• dividir segurança 


E, principalmente, não deixar que o machismo disfarçado de “costume” continue empurrando tudo para as costas delas. “O homem que apoia não perde força. Ele multiplica força em casa.”



Homenagem final

Neste Dia das Mães, a minha homenagem é simples e profunda: às mulheres que cuidam, trabalham, sustentam a casa, criam filhos, enfrentam o mundo e ainda tentam encontrar um espaço para elas mesmas. E um chamado aos homens: não basta incentivar. Tem que ser parceiro de verdade. Porque, no fim, não é sobre correr. É sobre caminhar lado a lado — dentro de casa, na rua, na trilha e na vida. “Você merece um corpo que se move livre e uma vida que não te aprisiona.”


Quero fazer uma menção para mostrar o tamanho da força da mulher. Ontem, dia 07/05, na Cocodona 250 milhas (400 km), a atleta Rachel Entrekin não apenas venceu a prova — ela já fez isso nos 2 últimos anos —, ela foi campeã geral e ainda quebrou o recorde geral de tempo da prova, em uma corrida com mais de 11.800 metros de ganho. Ela concluiu em 56:09:48. Ela baixou o tempo dela de 2 anos atrás em 17 horas. Ela relatou 3 cochilos (5, 7 e 7 minutos), totalizando 19 minutos de sono. Isso é muito além da capacidade técnica: é estratégia, cabeça, nutrição, lidar com o desconforto, experiência. Ela fez história.


Vocês, mulheres, são fabulosas.


Amilton Cruz

(arquiteto de TI, corredor de trilha e de provas de aventura e amante das montanhas)

@amiltoncs



Imagens: Arquivo pessoal.

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