Quando o apoio vira caminho: uma homenagem às mulheres no Dia das Mães (por Amilton Cruz)
- 9 de mai.
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Porque tem uma realidade que eu não consigo ignorar: hoje, para muitas mulheres, até o simples ato de sair para se movimentar virou um cálculo mental diário. “Onde eu vou?”, “que horas?”, “vou sozinha?”, “é seguro?”. E isso rouba uma coisa que deveria ser básica: liberdade.
E é aqui que eu quero fazer um paralelo com a minha vida: com o esporte, com a corrida em trilha, aventura e apoio em provas, com a rotina — e com o papel que eu acredito que o homem precisa assumir, de verdade, dentro de casa e fora dela. “Mulher não precisa de permissão. Precisa de caminho livre.”

A minha virada: disciplina não nasceu do nada
Eu comecei a correr em 2016 por necessidade. Não foi romantizado, não foi “inspiração de rede social”. Foi vida real: eu precisava perder peso, ganhar saúde e ter energia para a minha família. No começo, correr na rua era maçante, repetitivo, sem graça. Eu ia porque eu precisava, não porque eu amava.
Até que apareceu uma oportunidade diferente: minha esposa Luciana me apresentou a um amigo que fazia trekking; esse me chamou para uma prova trail em Mairiporã. Eu fui. E ali eu encontrei algo que fez sentido: o outdoor, o trail, o desafio vivo, diferentes estímulos e motivações.
Depois disso, eu entrei na assessoria JVM e virei o que eu sou hoje: um atleta amador extremamente dedicado, competitivo, disciplinado e amante do outdoor. Disciplina, para mim, não é um talento. É uma escolha repetida. Minha rotina, há anos, funciona assim: eu acordo muito cedo (madrugada). Treino. Cuido da alimentação. Cuido do meu filho. Levo para a escola. E só então o dia “começa de verdade”.
E eu carrego um princípio que eu repito sem vergonha: eu sou a pessoa mais importante; eu cuido de mim primeiro para conseguir cuidar dos outros. “Cuidar de você não é egoísmo. É abastecimento.”

Quando o esporte virou atrito — e eu precisei crescer
Só que disciplina tem custo. E quando a gente entra no mundo do treino sério, principalmente no trail, não tem mágica: longão toma tempo, exige energia, exige presença… e às vezes isso bate dentro de casa. No início, eu tive problemas com a minha esposa, sim. Final de semana eu saía para treinar e demorava para voltar. E isso gera estresse — porque não é só o tempo fora, é o que fica pendente, é a sensação de “sobrou tudo para mim”.
E aqui entra um ponto que eu considero essencial: eu nunca aceitei que o meu esporte virasse desculpa para eu não assumir a casa. Então, mesmo com treino, eu fazia questão de estar presente: eu limpava a casa, ia à feira, ia ao mercado, resolvia as coisas. Eu não “ajudava” — eu fazia, porque também é meu. Isso foi uma forma real de diminuir o estresse: tirar da minha esposa a sensação de carregar tudo sozinha. “Parceria não é discurso. É divisão de carga.”

O ponto de virada: quando ela começou a entender por dentro
Em 2019, ela percebeu que eu não mudaria em relação à minha dedicação ao esporte e à minha saúde física e mental, então aconteceu algo que mudou o jogo: minha esposa começou a treinar na mesma assessoria, sem que eu soubesse. E aí é como se um interruptor tivesse virado.
Ela passou a entender a rotina, a disciplina, o corpo cansado, a cabeça “cheia” quando você não treina, o quanto isso organiza a mente e os benefícios da atividade física e integração com a natureza. Ela conheceu pessoas, fez amizades, viu o esporte como ambiente social também, conheceu lugares novos e extraordinários, se desafiou nos treinos e em provas — e aquilo ficou prazeroso para nós dois.
E eu entendi uma coisa importante: quando a mulher encontra um espaço dela, ela não está “tirando tempo da família”. Ela está voltando para a família mais inteira. “A mulher que treina não foge da vida. Ela volta mais forte para ela.”

Nem todo dia ela quer — e é aí que o homem mostra quem é
Só que motivação não é constante; para a mulher isso é muito mais evidente, seja pelo ciclo menstrual, seja pela falta de segurança. Houve momentos em que ela entrou em períodos difíceis e está em um desses: falta de energia, pouco ânimo — e isso é muito comum em fases como menopausa, por exemplo.
E é aí que muita gente erra: o homem acha que apoiar é falar “vai lá”. Não é. Por vezes, para motivar ela e não deixá-la ir sozinha, eu fiz treinos com ela. Abri mão do “ritmo ideal”, do “plano perfeito”, para caminhar junto. E depois, quando ela terminava, eu partia para o meu treino principal. Isso é muito mais do que incentivo. Isso é presença. E presença é um tipo de amor que não precisa falar alto. “O treino dela é tão ou até mais importante que o meu. E isso precisa aparecer na agenda e nas atitudes, não só na boca.”
Ainda assim, há dias em que isso tudo não é suficiente; ocorrem embates onde eu cito a importância de se manter em movimento e se cuidar. Do lado dela o argumento: "você não sabe o que nós mulheres passamos nessa fase". Obviamente com exatidão não sei, mas tenho bastante noção. O que sempre falo, reforço e vou continuar a falar para todas as mulheres e até para os homens: por maior que seja o seu problema e por mais difícil e desanimador que seja praticar alguma atividade física e cuidar da alimentação, é preciso entender que é algo que precisa ser feito. Se não for feito, o corpo e a saúde irão cobrar por isso. Ou seja, se não cuidar da saúde hoje, amanhã será obrigado a tratar uma doença.

Os detalhes que mudam tudo: Criar o cenário para ela treinar
Há alguns anos tenho o privilégio de trabalhar em uma empresa onde trabalhava flex office (alguns dias em casa e outros no trabalho); hoje sou 100% home office. Usei isso a nosso favor, sendo uma de minhas prioridades liberá-la ao máximo dos afazeres do lar. Cuido dos nossos filhos (Murilo e Fred, este nosso pet). Faço a alimentação. Levo e busco na escola e curso. Organizo a casa. Faço feira, mercado.
Todo o possível para, quando ela chegar, ela poder focar no treino e cuidar de si. E isso quebra um pensamento muito comum e muito errado: “mulher tem que dar conta do trabalho, da casa, do filho, da comida… e se sobrar tempo, treina.” Não. Casa e filho são responsabilidade dos dois. E quando o homem assume de verdade, a mulher respira. E quando ela respira, ela volta a ter espaço para existir. “A casa não é ‘ajuda’. A casa é compromisso compartilhado.”

Segurança: tem coisa que a gente não vive — mas precisa entender
Outro ponto real e difícil: insegurança. Muitas mulheres não se sentem seguras para treinar sozinhas dependendo do local e horário. E isso é cruel, porque mexe com autonomia. Então, um jeito prático de apoiar é estar junto: acompanhar, buscar, ir junto, combinar horários, formar grupo.
E aqui entra uma dica muito importante que você mesmo falou: mulheres, treinem em grupo, chamem amigos. Coletivos ajudam; sinto falta de união entre as próprias mulheres. Talvez a saída seja pensar menos em “um coletivo” e mais em rede: encontros, treinos compartilhados, pontes entre grupos. “A trilha ensina: sozinha você vai… mas juntas vocês vão mais longe e mais seguras.”

Um recado direto aos homens
Eu acho que falta muito isso aos homens: achar que incentivar é falar “vai lá”. Não é. Incentivar é ser parceiro:
• dividir rotina
• dividir tarefas
• dividir cuidado
• dividir presença
• dividir segurança
E, principalmente, não deixar que o machismo disfarçado de “costume” continue empurrando tudo para as costas delas. “O homem que apoia não perde força. Ele multiplica força em casa.”

Homenagem final
Neste Dia das Mães, a minha homenagem é simples e profunda: às mulheres que cuidam, trabalham, sustentam a casa, criam filhos, enfrentam o mundo e ainda tentam encontrar um espaço para elas mesmas. E um chamado aos homens: não basta incentivar. Tem que ser parceiro de verdade. Porque, no fim, não é sobre correr. É sobre caminhar lado a lado — dentro de casa, na rua, na trilha e na vida. “Você merece um corpo que se move livre e uma vida que não te aprisiona.”
Quero fazer uma menção para mostrar o tamanho da força da mulher. Ontem, dia 07/05, na Cocodona 250 milhas (400 km), a atleta Rachel Entrekin não apenas venceu a prova — ela já fez isso nos 2 últimos anos —, ela foi campeã geral e ainda quebrou o recorde geral de tempo da prova, em uma corrida com mais de 11.800 metros de ganho. Ela concluiu em 56:09:48. Ela baixou o tempo dela de 2 anos atrás em 17 horas. Ela relatou 3 cochilos (5, 7 e 7 minutos), totalizando 19 minutos de sono. Isso é muito além da capacidade técnica: é estratégia, cabeça, nutrição, lidar com o desconforto, experiência. Ela fez história.
Vocês, mulheres, são fabulosas.
Amilton Cruz
(arquiteto de TI, corredor de trilha e de provas de aventura e amante das montanhas)
@amiltoncs
Imagens: Arquivo pessoal.



