Tor des Glaciers: Onde o corpo falha e a mente assume o comando (por Arthur Cordeiro)
- Eric Akita
- 5 de jan.
- 4 min de leitura
A ideia de participar do Tor des Glaciers (450 km e 32.000 metros de ganho altimétrico) surgiu logo após o Tor des Géants 2024. Para realizá-lo, existe um pré-requisito mínimo: ter terminado o Tor des Géants (330 km e 24.000+) com tempo inferior a 130 horas. Como em 2024 finalizei em 124 horas, a sementinha foi plantada ali; eu já tinha o tempo classificatório. Assim que passou a "ressaca" do Tor des Géants, a ideia fez mais sentido. Eu já conhecia parte da montanha e do percurso pelo Vale d’Aosta, na Itália; o desafio era bem maior, mas com a classificação e o conhecimento prévio, resolvi encarar o Tor des Glaciers em 2025, e deu super certo.

Uma preparação intensa
A preparação para o Tor des Glaciers começou no início do ano, com foco tanto na corrida quanto no condicionamento físico. Os treinos de montanha foram, em sua maioria, solitários e de longa duração, utilizando todos os equipamentos, como mochila e tênis específicos. Cheguei a fazer treinos de 100 quilômetros e 30 horas de exposição na montanha para garantir que estaria pronto.
Durante a prova, você alterna entre momentos de moral alta e outros em que se sente "jogado na lona". As paisagens são lindíssimas e a troca de experiência com atletas do mundo todo é surreal. Estar ali com pessoas que são minhas inspirações foi algo fantástico.
Para simular o máximo possível o que encontraria nos glaciares, foquei na preparação de janeiro a agosto. Antes da prova, fui para Chamonix treinar durante o UTMB e, depois, segui para a Itália por mais 15 dias. Treinei no próprio percurso do Tor des Glaciers, usando o GPX da prova e reconhecendo os 30 quilômetros iniciais e finais a partir de Courmayeur, para me ambientar totalmente à montanha.

O peso da autossuficiência e o desafio do glaciar
A parte da alimentação é um desafio à parte, pois o primeiro ponto de apoio estava no quilômetro 160, onde eu deveria levar toda a minha suplementação de gel e proteína. Nos pontos intermediários, a cada 30 quilômetros, os refúgios ofereciam comida — como pasta ou polenta —, mas era algo para ser consumido apenas no local. Assim, eu tinha uma refeição sólida basicamente a cada 12 horas, mas precisava carregar o peso de toda a suplementação. Além disso, havia o peso dos equipamentos; eu estimava fazer esses 160 km em 48 horas devido ao terreno técnico e, nesse período, enfrentaria mudanças climáticas, exigindo fleece, anoraque grosso, calça impermeável e crampons para o glaciar.

A solidão e a arte de resolver problemas na montanha
Durante uma prova assim, apesar da longa duração, você está o tempo todo concentrado em solucionar problemas específicos: seja uma dor no joelho, a fome ou uma dúvida na navegação. Passei muito tempo sozinho — acredito que 70% do percurso. Como apenas 200 corredores largaram e só 89 chegaram, o isolamento é constante. É você com você mesmo, curtindo a paisagem e a prova, mas mantendo o foco total na resolução de problemas.

Gerenciando a dor e a privação de sono
Ao mesmo tempo, surgem momentos de muita baixa, seja pelo cansaço ou por dores extremas. Tive uma dor nova na "pata de ganso" do joelho, que inflamou e limitou meu deslocamento. Precisei usar uma bandagem no quilômetro 250, restando ainda mais de 200 km, e convivi com essa dor até o fim. No quilômetro 350, tive fortes cólicas intestinais e precisei parar por cerca de três horas para estabilizar o corpo e o planejamento. Isso é inerente a uma prova tão longa.
Passei por muitos momentos difíceis: cólicas, dores nos pés e uma lesão no tornozelo vinda de abril, na Patagonia Run. Como não parei de treinar, a lesão se arrastou até a prova. Já larguei lesionado e fui administrando dores antigas, novas e desconhecidas, em partes do corpo que eu nem imaginava que poderiam doer. Enfim, os problemas começam a aparecer.
Quanto ao sono, gerenciei a privação dormindo, em média, 1 hora e 40 minutos a cada 24 horas ao longo das 181 horas de prova. Em alguns locais descansava 40 minutos, em outros até 1 hora e meia. Esse tempo foi suficiente e o sono acabou sendo um dos menores problemas que tive de gerenciar.

Ensinamentos para a vida
Participar do Tor des Glaciers este ano foi o ápice. Eu vinha de um Tor des Géants muito bom, mas provas longas exigem gestão de problemas o tempo todo, e aqui não foi diferente. Curti cada momento: a preparação, a aclimatação e a execução dentro do planejado. Obviamente, em 181 horas, muita coisa dá errado, mas o resultado final foi dentro das expectativas.
Correr o Tor des Glaciers e seus 450 quilômetros foi uma verdadeira aula. Os ensinamentos que pude absorver durante todo esse tempo foram imensos, intensos e servirão para toda a vida.

Acredito que os momentos de baixa ensinam muito sobre autoconhecimento e sobre os limites físicos e mentais. Estar bem mentalmente permite ir mais longe e levar o corpo além. Precisei fazer isso várias vezes: quando o corpo falhava, a mente precisava se concentrar para levá-lo adiante. E toda essa experiência que adquiri será essencial para o meu próximo desafio: a prova Swiss Peaks 700. Serão 700 km com 45.000m de ganho de elevação pelo cantão do Valais, no coração dos Alpes suíços. Uma corrida com apenas 100 atletas selecionados por análise de currículo. E fui aprovado! Mais pra frente, mais uma boa história para compartilhar com vocês. Até lá!
Arthur Cordeiro
Ultramaratonista e engenheiro de telecomunicações
@arthur.fcordeiro
Imagens: Arquivo pessoal.



