Como a Maratona de Porto Alegre me provou que a idade é um presente (por Ernani de Souza)
- 6 de jul.
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Há muito tempo aprendi com um grande amigo e hoje meu patrão, Felipe Avelar, que o sucesso e as marcas desejadas começam a se desenhar quando planejamos o calendário esportivo com inteligência. A base desse planejamento envolve provas secundárias e participativas, usadas por motivos diversos, mas o coração do processo são as chamadas provas-alvo.
Muita gente programa esse conceito, mas não o aplica na prática; quer ir bem todo fim de semana e trata toda corrida como alvo. Eu já cometi esse erro: fazia 30 provas por ano e queria vencer todas. Isso não é possível — pelo menos para mim não — e acaba interferindo no que poderia ser um grande resultado.
Hoje, as minhas provas-alvo são poucas. Com o meu perfil atual, tenho escolhido percursos mais longos e um número menor de competições. Para o primeiro semestre de 2026, estipulei duas metas principais com características completamente diferentes: os 30 km da KTR Campos do Jordão (que aconteceu em abril) e a Maratona de Porto Alegre.
Apesar de a KTR ser uma modalidade muito diferente — corrida de trilha e montanha, percurso técnico, trechos de caminhada e descidas muito íngremes —, ela desempenhou um papel crucial: o trabalho de resistência.

A estratégia de preparação e o desafio da rotina
Correr 30 km na montanha me proporcionou mais de 3 horas de atividade intensa (foram cerca de 3h15). Embora a KTR não tenha sido tratada como um mero treino, ela me deu uma excelente base para a maratona. O intervalo entre as duas foi escolhido propositadamente: caso houvesse algum problema, como uma queda, torção ou desgaste físico excessivo, eu teria tempo suficiente para descansar e seguir treinando.
Como parte dessa preparação, planejei uma prova secundária para servir como teste de condicionamento: a Boníssima Run, uma meia maratona de rua em Belo Horizonte marcada para o dia 1º de março. Porém, a rotina de atleta amador impôs seus desafios.
Nós, que somos amadores mas buscamos performance e pódios no geral, enfrentamos grandes dificuldades. Para mim, a principal diferença entre um atleta profissional (aquele que vive para o esporte, tem salário e patrocínio) e um amador de elite é o tempo. Eu preciso treinar no tempo que tenho: de manhã cedo, antes do trabalho. Se eu perder essa janela, dificilmente consigo render à noite, após um expediente de 8 ou 9 horas que me deixa cansado física e mentalmente. O profissional tem a facilidade de gerir seus horários, adaptar treinos indoor quando o clima não ajuda e focar na recuperação.
Além disso, minhas prioridades mudaram e hoje também trabalho aos finais de semana com cobertura fotográfica de eventos esportivos. Com isso, não consigo me dedicar tanto quanto no passado. Neste ano de 2026, por exemplo, apenas em um mês consegui superar 40 horas de atividade esportiva; a média ficou na faixa das 35 horas, o que considero pouco para o meu histórico.

O histórico de lesões e o teste em Uberlândia
O maior obstáculo, contudo, foram as microlesões. Desde o final do ano passado venho sofrendo com problemas na posterior da coxa. Tenho pulmão para fazer força e velocidade, mas o corpo não tem correspondido à demanda e acabo me machucando com frequência. Por conta disso, precisei abortar a Boníssima Run em março.
Vim "pingando" de lesão em lesão nas semanas seguintes. Fui para a KTR Campos do Jordão com receio, mas felizmente não senti a coxa, completei sem problemas e conquistei um resultado bem satisfatório.
Na sequência, programei meu teste final para a maratona: a Meia Maratona Nilson Lima, em Uberlândia. Ela se encaixava perfeitamente no calendário, acontecendo duas semanas antes de Porto Alegre e em um sábado, me dando um dia a mais de descanso. O objetivo era simples: correr forte para balizar meu ritmo e, acima de tudo, terminar os 21 km sem dor.
O resultado, porém, foi um banho de água fria. Terminei em terceiro lugar geral com o tempo de 1 horas e 22 minutos — uma marca muito aquém da minha meta, que era correr na casa de 1h20. O nível técnico da prova estava mais baixo (o vencedor fez 1h17), mas o pior foi que senti a posterior da coxa no quilômetro 12,5. Praticamente me arrastei até o final, rodando acima de 4 min/km para tentar defender o músculo e não agravar a lesão.
Voltei para casa frustrado. Fiquei uma semana inteira sem correr, fazendo apenas caminhadas e treinos leves de bicicleta. Só retornei às corridas curtas na semana da maratona. Já em Porto Alegre, na sexta-feira antes da prova, decidi fazer um teste de 26 km para ver como o corpo reagiria após a marca da meia maratona. Fiz os primeiros 15 km mais fortes, não senti nenhuma dor e corri relaxado. Ali, recuperei a confiança.

O carinho por Porto Alegre e as metas dos 50 anos
A Maratona de Porto Alegre sempre será uma das minhas escolhas favoritas. A organização é impecável e busca fazer o percurso mais plano possível — este ano quase não teve altimetria. A largada é cedo, o público incentiva demais e o clima é incomparável (corremos o tempo todo entre 14°C e 16°C).
Além disso, morei na cidade por um ano e tenho grandes amigos lá, em especial a família Grandini, que me acolhe como um membro da família, independentemente de resultados. Estar com eles e viver essa atmosfera é o que me move.
A edição de 2026 tinha um significado ainda maior: é o ano em que celebro meus 50 anos (no dia 29 de julho). Para marcar esse novo momento e me manter motivado, estabeleci metas pessoais para a categoria 50+. Sei que é difícil repetir os tempos do auge do meu passado, mas criei novos objetivos para os próximos anos:
5 km abaixo de 17 minutos
10 km abaixo de 35 minutos
Meia Maratona abaixo de 1 hora e 15 minutos
Maratona abaixo de 2 horas e 40 minutos
Como em 2025 eu havia corrido Porto Alegre em 2h41 (sem lesões e muito mais treinado), a meta de 2h40 parecia o desafio ideal para este ano.

O dia da prova e a quebra do recorde pessoal
No domingo da prova, larguei super animado, focado em rodar no ritmo de 2025 para buscar algo entre 2h39 e 2h41. A corrida fluiu muito bem. Até o quilômetro 15, o ritmo de 3:45 min/km estava tão confortável que tive vontade de apertar, mas segurei o ímpeto e mantive a estratégia.
Passei a metade da prova (21 km) na casa de 1 hora e 18 minutos / 1 hora e 19 minutos, sem dores ou desgaste excessivo. Isso me motivou a manter o foco no ritmo e na suplementação. Pela primeira vez na vida — mesmo vindo de ultras de 13 horas na montanha —, fui extremamente disciplinado com os carboidratos: tomei um gel na largada e repeti rigorosamente a cada 10 km. Essa estratégia foi o diferencial para manter a energia alta até o fim.
Cruzei a linha de chegada com o tempo final de 2 horas, 37 minutos e 26 segundos. Fiquei mega feliz! Um atleta da minha categoria (50 a 54 anos) correu de forma espetacular e venceu com 2h32, o que é ótimo para me balizar, mas o meu resultado superou todas as minhas expectativas diante das dificuldades da preparação.
Cruzar em 2h37 me permite baixar o sarrafo e estabelecer um novo objetivo: buscar uma maratona sub 2h37 no futuro. Cheguei a Porto Alegre com poucos treinos longos, mas o histórico e o lastro esportivo de 30 anos dedicados ao esporte me deram a base necessária para compensar a falta de volume e entregar uma grande corrida. Ernani de Souza
Corredor de rua e de trilha e fotógrafo
@ernani_souza_oficial

Imagens: Arquivo pessoal.



