Muito além do desejo: O que realmente importa na hora de subir de distância na trilha (por Mahira Braga)
- 16 de jun.
- 3 min de leitura
A progressão de distância na corrida de trilha é um assunto que gosto de abordar tanto da perspectiva de treinadora quanto de atleta, porque as duas coisas se misturam muito em mim. Sempre vai estar meio misturadinho a Mahira atleta e a Mahira treinadora aqui.
Em primeiro lugar, acho que essa mudança de quilometragem tem que fazer sentido para a pessoa. Vejo muita gente querendo se tornar maratonista apenas pelo título de ser maratonista, e depois essas pessoas acabam nem treinando mais porque pegaram bode ou porque tiveram que treinar demais. É preciso entender primeiro o contexto do que aquela distância demanda. Tem que fazer sentido para você. É preciso pensar: "Eu quero estar na montanha praticando isso, vou vibrar a hora que eu subir e vou curtir tudo o que estiver fazendo". Se for somente para sofrer — porque existe uma sofrência no meio do caminho —, se for apenas por isso e você não curtir o processo como um todo, eu acho que não vale a pena.
O valor da experiência e a adaptação fisiológica
Antes de dar o próximo passo, é fundamental ter a adaptação necessária. A gente vai progredindo ali dos 5 quilômetros para os 10, 15, 21, e aos poucos vai evoluindo, ganhando bagagem e gerando adaptações fisiológicas.
A grande questão do trail é que a experiência acumulada vai contar muito. Há uma atleta australiana chamada Beth McKenzie, ex-atleta de triathlon que hoje corre ultras na trilha, que diz que a corrida de trilha é uma grande brincadeira de solucionar problemas. E é realmente isso. Quanto mais experiente você fica, melhor soluciona esses problemas. Muita coisa pode acontecer dentro de uma ultra em trilha, então essa maturidade vai contar muito ali no final do jogo.
Os detalhes que mudam o jogo
A questão do material dentro dessa experiência é importantíssima. Você precisa se conhecer: "Eu troco de tênis ou não troco? Gosto de trocar de meia ou não gosto? Sinto muito frio ou não?". Um material errado em uma prova de 21 quilômetros vai influenciar pouco o seu resultado, mas o mesmo material errado em uma prova de 100 quilômetros de trail vai influenciar muito.
Existe também todo um trabalho mental para a gente conseguir sustentar o volume de treinamento devido, entendendo qual é o período de vida em que estamos e se aquela rotina se encaixa no nosso dia a dia.

}Segurando as rédeas: O meu exemplo pessoal
No meu caso, eu dei uma boa enrolada para subir de distância. Já fiz três provas de Ironman antes de ser mãe e, até agora, não tinha tido coragem de ir além dos 50 quilômetros, por exemplo. Teve um período de um ano em que optei por fazer apenas provas de 21 quilômetros para dar uma respirada nos treinos, manter um volume menor durante a semana e conseguir conciliar tudo.
Agora, me deu aquela vontade de subir porque vi uma prova com um propósito maior. Eu queria fazer uma corrida que me tocasse, que é a Boi Preto Ultra. Assisti a um vídeo muito legal deles que mexeu comigo e, por isso, fez sentido buscar os 80 quilômetros ali.
Condicionamento físico para isso eu já tenho há muitos anos, na verdade. Mas eu segurei bastante a transição porque precisava sentir que estava pronta, principalmente na parte mental. Tenho um treinador e uma nutricionista me acompanhando e já estamos fazendo vários testes para que aconteça o menor número de erros possível — porque sabemos que alguma coisa sempre vai sair do planejamento. Além disso, há todo um planejamento familiar por trás, com todo mundo de acordo em casa. Acredito que a progressão correta é justamente esse conjunto de milhões de fatores para que tudo dê certo no final.
Mahira Braga
Treinadora, personal online e atleta de corrida de trilha
@mahirabraga
Imagem: Arquivo pessoal.



