A idade chegou. E agora? Como continuar evoluindo no esporte sem entrar em guerra com o tempo (Silvia Schreer)
Se você pratica corrida, trail run, ciclismo, triatlo ou qualquer outro esporte há muitos anos, provavelmente já percebeu algumas mudanças.
Escrevo este artigo de um lugar muito especial: aos 57 anos, vivendo na prática tudo aquilo que estou compartilhando aqui. Ainda sou triatleta. Ainda corro. Ainda estabeleço metas desafiadoras. Ainda sonho com provas importantes e participo de mundiais.
Mas também aprendi que a maturidade exige uma conversa honesta entre a mente e o corpo. A mente continua jovem, competitiva e cheia de planos. O corpo continua incrível, mas pede estratégias diferentes, mais recuperação, mais escuta e mais respeito.
Quando parei de lutar contra essa realidade e comecei a trabalhar com ela, encontrei algo muito mais valioso do que alguns segundos por km: encontrei longevidade, prazer e equilíbrio no esporte. Talvez seja exatamente isso que eu desejo para todos os atletas que chegam à maturidade sem perder a paixão pelo movimento.
A recuperação demora um pouco mais. Algumas dores aparecem com mais frequência. O volume de treino que antes parecia normal agora exige mais cuidado. E, em alguns momentos, surge uma pergunta desconfortável: "Será que estou ficando para trás?" “O que está acontecendo comigo? Não sou mais o mesmo (a)”.

Essa reflexão costuma aparecer especialmente quando nos comparamos com atletas mais jovens ou com versões anteriores de nós mesmos. Mas existe um detalhe importante que poucas pessoas comentam: o corpo envelhece mais rápido do que a percepção que temos de nós mesmos.
Aos 40, 50 ou 60 anos, muitas pessoas ainda se sentem mentalmente parecidas com quem eram aos 30. A vontade de treinar continua. A motivação continua. O espírito competitivo continua. Os sonhos esportivos continuam. A mente não envelhece na mesma velocidade do corpo.
E é justamente aí que nasce uma das maiores fontes de frustração para muitos atletas master.
Queremos treinar como treinávamos antes, recuperar como recuperávamos antes e obter os mesmos resultados de décadas atrás. Quando isso não acontece, começamos a interpretar as mudanças naturais do envelhecimento como fracasso.
Mas não são. São apenas novas regras do jogo!
O envelhecimento faz parte da fisiologia humana. A partir dos 30 anos já começamos a observar reduções graduais de massa muscular, potência, capacidade de recuperação e, eventualmente, do VO₂ máximo. Isso não significa que não seja possível evoluir ou competir bem. Significa apenas que a estratégia precisa mudar.
O problema surge quando a expectativa permanece igual enquanto o corpo muda. A frustração geralmente não nasce da realidade. Ela nasce da diferença entre a realidade e a expectativa.
Muitos atletas continuam exigindo de si mesmos números, ritmos e cargas que talvez não façam mais sentido para o momento atual da vida.
Além da idade, existem diversos fatores que influenciam a performance e que muitas vezes são ignorados. O nível de estresse profissional, qualidade do sono, as responsabilidades familiares, alterações hormonais, a alimentação... entre outros!
Por isso, comparar o seu corpo de hoje com o corpo de vinte, trinta anos atrás nem sempre é uma comparação justa. E comparar-se com atletas mais jovens pode ser ainda mais perigoso e injusto com você mesmo.
Você está olhando apenas para o resultado final e esquecendo de considerar contextos completamente diferentes. Inclusive, muitas vezes atletas da mesma idade que a sua vivem estes contextos, diferentes do seu.
A maturidade esportiva convida a uma mudança de perspectiva.
Em vez de perguntar: "Por que não consigo fazer o que fazia antes?" Talvez seja mais útil perguntar: "Como posso continuar evoluindo com o corpo que tenho hoje?"
Essa mudança parece simples, mas transforma completamente a experiência esportiva. O foco deixa de ser a perda e passa a ser a adaptação.
E você já parou pra enxergar as vantagens que o tempo traz? Experiência, autoconhecimento, maior inteligência emocional, mais capacidade de lidar com adversidades. Estas são algumas que me passam pela cabeça, mas com certeza existem muitas outras.
A grande meta não é vencer a idade. É aprender a envelhecer esportivamente de forma saudável e longeva. Respeitando os limites sem se tornar refém deles. Mantendo a ambição sem cair na cobrança excessiva. Aceitando as mudanças sem desistir de evoluir.
Porque performance não é apenas correr mais rápido, pedalar mais forte ou levantar mais peso. É também continuar ativo, saudável, motivado e apaixonado pelo esporte ao longo das décadas.
E, no fim das contas, essa talvez seja uma das maiores vitórias que um atleta pode conquistar. Concordam comigo?
Silvia Schreer
Psicoterapeuta esportiva, triatleta e corredora de rua e trilha, amadora
@silschreer Imagem: @silschreer



