Biomecânica da corrida: correr mais bonito faz correr mais rápido? (por Alessandra Toscano)
“Queria correr mais bonito. Será que ficaria mais rápido também?”
A pergunta parece simples, mas parte de uma ideia bastante comum entre corredores: a
de que existe uma forma certa de correr e que, quanto mais bonita for a passada, melhor
será o desempenho.
A verdade é que não existe um jeito “certo” de correr. Basta observar um grupo de
corredores para perceber: alguns dão passos mais curtos e rápidos, outros têm uma
passada mais longa. Alguns passam mais tempo no ar, enquanto há quem pareça correr
mais perto do chão.
Essas diferenças têm relação direta com a estatura, o comprimento das pernas, a força, a
mobilidade, a velocidade e a própria experiência de cada um. Aos poucos, o corpo
encontra uma forma de organizar os movimentos que funcionam para ele. Por isso, duas
pessoas podem correr no mesmo ritmo de jeitos bem diferentes.

Mas o que é biomecânica e o que ela tem a ver com velocidade?
De forma simples, a biomecânica estuda os movimentos e as forças envolvidas na
corrida. Ela ajuda a entender como cada corredor responde às demandas do esporte.
É essa análise que ajuda a separar o que é apenas uma característica individual daquilo
que realmente merece atenção. Aterrissar com o calcanhar, com o meio ou com a ponta
do pé, movimentar os braços cruzando um pouco à frente do corpo ou correr com o
joelho mais voltado para dentro não são, por si só, problemas. Tentar "corrigir" essas
características apenas para deixar a corrida mais bonita pode mudar a forma como a
carga é distribuída pelo corpo e criar uma sobrecarga que antes não existia.
E, quando o assunto é desempenho, não existe uma variável isolada que determine se
alguém corre de forma eficiente.
Uma revisão recente reuniu os estudos sobre biomecânica e economia de corrida — o
gasto de energia para manter determinado ritmo — e mostrou que muitas características
que costumamos observar ou tentar corrigir não têm uma relação clara com a eficiência
do movimento. O tipo de aterrissagem do pé no solo, o tempo de contato com o chão e
vários ângulos do quadril, do joelho e do tornozelo, por exemplo, não foram capazes de
separar os corredores mais econômicos dos menos econômicos.
Por outro lado, uma menor oscilação vertical (menos movimento para cima e para
baixo) e uma maior rigidez da perna durante o apoio apareceram associadas a um
menor gasto energético. Rigidez, aqui, não significa correr engessado, mas sim a
capacidade da perna de funcionar como uma mola: desacelerar o impacto no chão e
devolver essa energia rapidamente para empurrar o corpo para a frente.
Como ler os dados na prática
Nenhum desses dados funciona isoladamente. Parâmetros como oscilação ou rigidez só
fazem sentido quando analisados junto com a velocidade, a força, a mobilidade e a
rotina de treinos de quem corre.
Na prática, a análise de movimento serve para sair do "achismo" e entender como o
corpo realmente se comporta durante a corrida. Com informações claras em mãos, fica
muito mais fácil decidir o caminho: entender se vale a pena fazer algum ajuste
específico ou se a sua passada natural já é a escolha mais eficiente e segura para você.
Alessandra Sartori Godoy Toscano
Corredora e fisioterapeuta esportiva
Embaixadora da Running Lab São José dos Campos, laboratório especializado em
avaliação biomecânica da corrida
@alegodoytoscano.fisio
VAN HOOREN, B.; JUKIC, I.; COX, M.; FRENKEN, K. G.; BAUTISTA, I.;
MOORE, I. S. The relationship between running biomechanics and running economy:
a systematic review and meta-analysis of observational studies. Sports Medicine, v. 54,
n. 5, p. 1269–1316, 2024. DOI: 10.1007/s40279-024-01997-3.



