Comida de verdade ou puro marketing? Minhas reflexões sobre a Naturaltech (por Glaucia Lippel)
- 30 de jun.
- 3 min de leitura
Estive recentemente na Naturaltech, uma feira que acompanho há anos e que sempre admirei por ter sido pioneira em dar visibilidade à alimentação natural, vegetariana e vegana no Brasil. Sempre gostei de visitá-la justamente por esse olhar mais voltado para comida de verdade e para novas possibilidades dentro de uma alimentação mais saudável.
Com os anos, a feira foi crescendo e começou a incluir também o mercado de suplementos, com lançamentos e marcas importantes do setor. Esse ano ela ganhou uma proporção impressionante, onde se tornou o maior evento de produtos saudáveis da América Latina.
Um ponto positivo que percebi foi justamente essa expansão do público. Antes, eu sentia que era uma feira muito mais frequentada por profissionais da área da nutrição e da saúde. Hoje ela também passou a atrair muitas pessoas interessadas em hábitos saudáveis e suplementação.
As marcas também estavam muito preparadas para esse novo perfil de visitante, com ativações, degustações e até vendas no local com promoções bem agressivas, o que tornou um grande atrativo para o público em geral.

Mas, ao mesmo tempo, saí de lá com uma percepção bem diferente de outros anos. Na minha visão, a Naturaltech acabou se tornando muito mais uma grande feira de suplementos do que de alimentação propriamente dita. Isso faz sentido quando olhamos para o crescimento do mercado de wellness nos últimos anos, com o surgimento de inúmeras marcas e uma expansão enorme da indústria de suplementação.
O ponto que mais me chamou atenção foi o excesso de produtos industrializados com apelo saudável, e sinceramente, me pareceu que muitas marcas estão vendendo praticamente a mesma coisa como whey protein, colágeno, vitaminas, produtos e bebidas com proteína adicionada.
Fiquei impressionada com a quantidade de alimentos enriquecidos com proteína. Hoje, praticamente tudo ganhou uma versão "protein". É água com proteína, café com proteína, snacks, bolinhos e sobremesas. Como nutricionista vejo esse movimento com certo cuidado. A proteína é, sem dúvida, um nutriente importante, mas a forma como ela vem sendo usada pelo mercado me parece muito mais uma estratégia comercial do que uma real necessidade nutricional para a maioria das pessoas, pois na prática grande parte das pessoas consegue e deveria buscar atingir suas necessidades proteicas por meio da alimentação provenientes de alimentos de origem animal e vegetal, como carnes, ovos, laticínios, leguminosas e alguns vegetais.
Saí da feira com a sensação de que estamos vivendo uma "proteinização" excessiva dos alimentos, onde parece que tudo precisa ter proteína para ser funcional.
Outro ponto que me chamou atenção foi a quantidade de produtos voltados para crianças sendo vendidos como "saudáveis". Vi diversos lanchinhos infantis que, no fim, se assemelham bastante aos salgadinhos tradicionais e continuam sendo produtos industrializados, apenas com uma embalagem mais atrativa e um discurso mais saudável. Isso merece uma reflexão, porque muitas vezes o marketing acaba falando mais alto do que a real qualidade nutricional do produto.
Apesar disso, circulando pela feira, foi bom encontrar pequenos produtores e marcas menores focadas em alimentos naturais de verdade. Esses estandes, para mim, foram os que mais resgataram a essência da feira.
No fim, fiz uma reflexão para mim: será que estamos realmente evoluindo em direção a uma alimentação melhor ou apenas criando novas formas de vender produtos com aparência de saudáveis?
Glaucia Lippel
Nutricionista, gastróloga e triatleta e corredora de rua e de trilha amadora
@glaucialippel
Imagem: @biobrazilnaturaltech



