Performance x saúde mental: porque acredito que a excelência também precisa de leveza (por Silvia Schreer)
- 17 de mar.
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Durante décadas, o esporte de alto rendimento foi construído sobre uma ideia simples: quanto maior a pressão, maior a performance. A cultura esportiva frequentemente glorificou o sacrifício extremo, a tolerância à dor e a capacidade de suportar exigências psicológicas intensas - o famoso "no pain, no gain".
No entanto, a psicologia do esporte atual tem mostrado que a performance sustentável depende de um equilíbrio mais complexo entre ativação, motivação, bem-estar psicológico - e também prazer pela prática esportiva.
Cada vez mais estudos indicam que níveis excessivos de pressão podem levar não apenas à queda de desempenho, mas também ao aumento da ansiedade competitiva, esgotamento emocional e burnout esportivo.

Pressão e desempenho: o ponto ideal
Zero pressão então? Engano. Um certo nível de ativação psicológica melhora o rendimento. Porém, quando o estresse ultrapassa esse ponto ideal, o efeito passa a ser o oposto - É nesse momento que muitos atletas relatam experiências de "travamento" ou "congelamento" em competições importantes, quando o excesso de autoconsciência interfere em habilidades que normalmente são executadas de forma automática.
Em contraste com a ansiedade elevada, muitos dos melhores desempenhos esportivos acontecem em um estado psicológico conhecido como Flow , conceito desenvolvido por Mihaly Csikszentmihalyi.(Csikszentmihalyi, M. (1997). Finding Flow: The Psychology of Engagement with Everyday Life. New York: Basic Books.) Nesse estado, o atleta experimenta foco intenso, sensação de controle e execução fluida de habilidades. A atenção permanece direcionada ao momento presente, reduzindo a interferência de pensamentos autocríticos e interferências externas.
Curiosamente, o flow costuma emergir quando alto nível de habilidade encontra um estado mental relativamente relaxado e confiante - e não quando o atleta compete sob pressão psicológica extrema.
É nesse espaço mental que o esporte volta a se aproximar de sua essência original: o jogo, o movimento e o prazer de fazer bem aquilo que se ama.
Reflita sobre isto. O que significa ou representa o esporte para você?
O papel do prazer no esporte - Longevidade
Hoje em dia, infelizmente muitas pessoas negligenciam o prazer pela prática esportiva principalmente em ambientes competitivos. Mas ele é um dos motores mais poderosos da performance de longo prazo.
A Self-Determination Theory, desenvolvida pelos psicólogos Edward Deci e Richard Ryan, mostra que a motivação humana se sustenta em três necessidades psicológicas fundamentais: autonomia, competência e relacionamento. ( Ryan, R. M., & Deci, E. L. (2017). Self-Determination Theory: Basic Psychological Needs in Motivation, Development, and Wellness. New York: Guilford Press.)
Quando o atleta sente que pratica o esporte por escolha própria, que está evoluindo em suas habilidades e que pertence a um ambiente de apoio, a motivação tende a ser mais intrínseca e mais duradoura.
Nesse contexto, a dimensão do divertimento, da curiosidade e da leveza não enfraquece a competitividade - ao contrário, ela ajuda a preservar a energia psicológica necessária para sustentar anos de treinamento e competição.
Um exemplo recente no esporte
Estudo publicado em 2024 na revista Psychology of Sport and Exercise demonstrou que o burnout esportivo está associado a pior desempenho competitivo, indicando que o esgotamento psicológico não é apenas consequência do esporte de alto rendimento - ele também compromete a performance.
Nos últimos anos, diversos atletas passaram a falar abertamente sobre saúde mental. Um caso recente foi o da patinadora Alysa Liu, que decidiu se afastar das competições ainda adolescente para preservar seu bem-estar psicológico.
Seu retorno ao esporte foi marcado por uma mudança clara na maneira de competir: mais leveza, maior conexão com o prazer da prática e menor foco em expectativas externas.
Histórias como essa ilustram uma transformação cultural em curso no esporte contemporâneo: reconhecer limites psicológicos e reconectar-se com o prazer do esporte pode ser parte fundamental de uma carreira atlética saudável e sustentável.
Conclusão
Performar bem e de forma sustentável também depende de equilíbrio emocional, de motivação intrínseca e da capacidade de manter viva a conexão com aquilo que, em algum momento, fez o atleta se apaixonar pelo esporte.
Talvez, portanto, a pergunta que nós atletas, treinadores e equipes multidisciplinares precisem começar a fazer não seja apenas "quanto mais podemos exigir", mas também "como preservar a leveza, o entusiasmo e o prazer de competir".
Porque, no final do dia, a performance que realmente se sustenta ao longo do tempo é aquela que ainda encontra espaço para algo que muitas vezes esquecemos no alto rendimento: o gosto de praticar o esporte.
Silvia Schreer
Psicoterapeuta com foco nas áreas clínica, esportiva e traumas (EFT)
Imagem: Conrado Reis.



